Uma tragédia familiar me deu forças para vencer

Fiquei órfã aos 9 anos e morei na rua. Veja como lutei para virar empresária de sucesso.

Reportagem Diana Ferreira (com colaboração de Luiza Schiff)

Eu nunca me rendi às adversidades: jurei que um dia todos me conheceriam pelo meu nome. | <i>Crédito: Redação Sou Mais Eu
Eu nunca me rendi às adversidades: jurei que um dia todos me conheceriam pelo meu nome. | Crédito: Redação Sou Mais Eu
Eu tinha 9 anos quando vi meu pai matar minha mãe a facadas. Essa tragédia destruiu minha família. Eu e meus cinco irmãos ficamos desamparados, três de nós moramos na rua. Fui apontada na cidade como a filha do assassino. Mas nunca me rendi às adversidades: jurei que um dia todos me conheceriam pelo meu nome. E cumpri a promessa. Hoje sou uma empresária bem-sucedida e tenho orgulho de ver Marleide Monteiro estampado nas fachadas das minhas três docerias.

Mamãe levou três facadas no peito

Até o dia da desgraça, em 1978, minha família vivia bem em Itabaiana, no interior do Sergipe. Meus pais tinham uma barraca na feira, uma vida digna. O problema é que meu pai virou alcoólatra. De dia, parecia um amor de pessoa. De noite, bêbado, virava bicho e espancava minha mãe. Batia muito.
Cansada das surras, minha mãe fugiu da cidade com os filhos. Fomos para Aracaju, no Sergipe. Alguns dias depois, voltamos a Itabaiana para pedir ajuda aos parentes. Estávamos almoçando na casa de uma tia quando meu pai apareceu. Ele começou a conversar com cada filho, perguntando com quem gostaríamos morar. Minha irmã mais velha, Marlene, o xodó dele, disse que gostaria de ficar com a mãe. Ele ficou louco. Pegou uma faca enferrujada que estava escondida na meia e deu três golpes no peito de mainha. Enquanto ela agonizava, ele correu. E não teve jeito: mamãe morreu a caminho do hospital.
Entrei em choque. Aos poucos, a ficha foi caindo. Senti uma dor imensa e muita raiva do meu pai. Por que ele fez isso? Por que não pensou nos filhos? Cada pessoa do povoado dizia uma coisa. Mas, no final das contas, só soube que meu pai foi preso e, um ano depois, morreu. Dizem que foi de tuberculose.
Quanto a nós, os filhos, tivemos de nos virar. Após o crime, eu e minhas três irmãs fomos para a casa de parentes. Os dois meninos tiveram de dormir de favor nos vizinhos.
Viramos alvo de comentários cruéis. Ninguém chegava perto da gente. Nem os parentes nos davam carinho e proteção. Minha tia me batia muito. Então, aos 9 anos, me juntei aos meus irmãos, que já não contavam mais com a boa vontade dos outros e viviam na rua.

Dormia na rua e comia farinha com água e sal

Não foi fácil, mas nos viramos bem. Nunca fui preguiçosa e, além disso, uma força dentro de mim dizia que eu iria dar a volta por cima. Enquanto esse dia não chegava, dormia em frente ao escritório do INSS e aproveitava para guardar lugar na fila para as pessoas. Com isso, ganhava um trocado para comer. Também ajudei a carregar sacola na feira e vendi água na moringa pela rua. A pior coisa era encontrar conhecidos e ser ignorada.
Passei necessidade, mas fome, nunca. Em Sergipe, todo lugar vende farinha. E era o que eu comia, com água e sal. Essa dureza terminou em dois anos, quando minha irmã mais velha se casou. Eu e meus dois irmãos fomos para a casa dela. Assim, aos 11 anos, saí do frio e do vento. Mas continuei dando duro.

Arrumei emprego como lavadora de louça numa pizzaria. Meus patrões eram de Itabaiana, mas haviam morado em Santos, no litoral de São Paulo, durante muitos anos. Foi lá que eles juntaram dinheiro para abrir seu próprio negócio na cidade natal. Eu ouvia essa história e sonhava em viver em Santos para mudar o rumo da minha vida. E isso virou minha meta.

Casei com um homem que morava em Santos

Aprendi a fazer pizza só de olhar os outros funcionários e surpreendi a minha chefe, a dona Sônia. Ela me deixou ajudá-la na cozinha e isso me rendeu boas gorjetas. Passei a levar os restos de pizza para eu e meus irmãos não gastarmos com comida.
Meu destino começou a mudar quando conheci meu futuro marido, Antônio Pinto, no ônibus para o trabalho. Ele tinha ido a Itabaiana visitar a mãe. Uma amiga contou que ele procurava esposa. Eu tinha 17 anos e ele, 44. Antônio trabalhava numa metalúrgica na Baixada Santista e tinha um apartamento em Santos, a cidade dos meus sonhos. Era a única coisa que me importava. Não pensei duas vezes: abordei Antônio. Eu sabia o que queria.
Disse a ele que sabia cuidar de um lar e que seria ótima dona de casa. Antônio ficou meio desconfiado. Em seguida, foi até a minha casa conversar com meus irmãos. No fim, aceitou minha proposta. Um mês depois, eu desembarcava na rodoviária santista para morar com Antônio.

Comecei vendendo meus quitutes na vizinhança

Na Baixada, começou outra batalha. Eu não me contentava em ser dona de casa e passei a fazer bolo e salgadinho para fora.
Levava os quitutes numa tigela e oferecia aos vizinhos, lojas e porteiros. Dava amostras grátis para funcionários de empresas da região. Meses depois, já recebia encomendas. Mas ainda era pouco para mim.
Vi uma oportunidade quando soube que as mulheres da alta sociedade de Santos faziam trabalho voluntário numa creche. Comecei a levar os meus salgados lá e logo apareceram pedidos grandes. Virava noites na cozinha. Mas já juntava um dinheirinho.
Minha segunda grande chance apareceu em 1993, quando a esposa de um importante empresário santista me chamou para comandar o bufê do casamento do filho dela. Eu teria de cuidar de tudo: da comida, dos garçons, dos talheres... Encarei o desafio sozinha, pois meu marido nunca me apoiou. Ele achava que eu queria demais.
Deu tudo certo e passei a ser super-requisitada. Aos 24 anos, eu estava bem perto de onde pretendia chegar! Com o pagamento desse trabalho, comprei um Fusca velho. Nessa época, eu já era mais doceira do que dona de casa e dividia com Antônio a tarefa de cuidar das minhas duas filhas, Shayane, que nasceu em 1991, e Marina, em 1990. A partir de então, consegui juntar um bom dinheiro e em 2000, aos 31 anos, abri minha primeira doceria! Como não sou boba, já tinha minha clientela garantida. E ela só foi aumentando.
Em oito meses eu já estava tendo lucro e tive a sorte de a loja ao lado fechar. Ampliei minha doceria. No ano seguinte, a loja do outro lado também fechou e ampliei novamente. Meu negócio cresceu. Em 2004, abri outra doceria na Praia Grande, cidade vizinha a Santos e, em 2006, levantei as portas da minha terceira loja. Duas irmãs trabalham comigo. Outra virou decoradora. Meus dois irmãos ficaram em Itabaiana e hoje estão bem de vida.

Fiz lipo, plásticas e coloquei silicone

Nesse caminho, meu casamento com Antônio acabou e decidi cuidar de mim. Me separei aos 34 anos e estava acima do peso.Fiz lipoaspiração, cirurgia no nariz e no queixo e ainda coloquei silicone no peito e no bumbum. Sou avó de três meninas lindas,  Larissa, Valentina e Helena. Fiquei nova em folha e, há quinze anos, conquistei o meu negão, o Régis. Ele tem 36 anos e é meu braço direito e esquerdo nos negócios, além disso, é o amor da minha vida! 
Minha história chegou à imprensa e em 2008 lancei o livro Meu Nome É Marleide. Também apresentei uma atração em uma emissora local por dois anos. Mesmo requisitada, ainda acompanho os negócios de perto sempre. Trabalho nas minhas lojas todos os dias. Eu sou muito grata por tudo que aconteceu na minha vida, por  tudo que eu conquistei com muito suor e depois de tanto sofrimento. 

Marleide Monteiro, 48 anos, empresária, Santos, SP
                                                                        
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25/05/2017 - 15:17

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