Um erro médico quase me deixou paraplégico

Me deram alta com uma fratura na lombar! Quando descobri, minhas chances de voltar a andar eram de 5%

Reportagem: Letícia Gerola

Fiquei espantado com o diagnóstico e surpreso por ninguém ter visto aquela lesão antes, mas ainda não tinha perdido a esperança de voltar a caminhar | <i>Crédito: Arquivo Pessoal/Redação Sou Mais Eu
Fiquei espantado com o diagnóstico e surpreso por ninguém ter visto aquela lesão antes, mas ainda não tinha perdido a esperança de voltar a caminhar | Crédito: Arquivo Pessoal/Redação Sou Mais Eu
Era o terceiro ano da faculdade de engenharia florestal, setembro de 2009. Eu voltava de carro de uma festa com alguns amigos quando aconteceu, foi tudo muito rápido. Dirigíamos na Rodovia João Leme dos Santos por volta das 4h da manhã, meu amigo estava no volante e foi atravessar a pista em um cruzamento quando veio um carro em alta velocidade. O veículo nos acertou em cheio – eu estava bem na porta do lado que ele bateu. Não me lembro de mais nada. Só depois de algumas semanas fui descobrir que havia sido arremessado para fora do carro, assim como outro amigo ao meu lado no banco do passageiro. Nenhum dos meus amigos se feriu gravemente, apenas tiveram alguns arranhões – ainda bem! Mas, comigo, o acidente tinha sido sério: fiquei em coma induzido no hospital por um mês e quase perdi os movimentos das pernas.

Passei por dez cirurgias

Minha bexiga estava cheia estourou com o impacto. Além de triturar a pelve, tive várias fraturas na coluna na região da lombar e na mandíbula, além de uma hemorragia séria no cerebelo, parte do cérebro que é responsável pelo equilíbrio corporal. Fiquei em coma induzido durante duas semanas no Hospital Regional de Sorocaba, em São Paulo, e mais três semanas internado para me recuperar das dez cirurgias que foram necessárias para reparar as lesões e salvar minha vida. Sou muito grato ao hospital pelas cirurgias de emergência que me livraram da morte! Foi um período muito difícil pra mim e toda minha família, meu pai chegou a emagrecer 10 kg nesse período. Apesar da gravidade do acidente, tentei manter a calma durante todo o processo e não me desesperei, tinha uma forte esperança de que tudo iria melhorar. Não se de onde tirei tanta força!

O hospital me liberou com a coluna fraturada

Voltei pra casa depois de mais de um mês no hospital, ainda sem conseguir me levantar. Alguns dias depois comecei a sentir dores nas pernas. De início era apenas um incômodo, mas, em pouco tempo, se tornou insuportável. Retornei ao hospital pra fazer mais exames e não encontraram nada de errado. Minha família decidiu me levar em outro hospital para buscarmos uma segunda opinião e seguimos para o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, uma cidade próxima.

Lá apresentamos o histórico do hospital anterior e fizemos os exames necessários para identificar possíveis causas para aquela dor sobrenatural. Através de uma ressonância, os médicos descobriram que a minha lombar ainda estava fraturada. A lesão passou despercebida no hospital anterior, que já tinha liberado fisioterapia e outros tratamentos que eu fazia sentado, coisa que jamais deveria ter acontecido com aquela fratura sem tratamento – afinal, ninguém pode se sentar com a coluna fraturada. Os médicos analisaram os novos exames e disseram que as minhas chances de voltar a andar eram mínimas, de apenas 5%! Fiquei espantado com o diagnóstico e surpreso por ninguém ter visto aquela lesão antes, mas ainda não tinha perdido a esperança de voltar a caminhar. Passei meses em repouso aguardando uma posição dos médicos sobre como proceder, até que o cirurgião responsável pelo meu caso optou por operar. Depois de participar de um congresso na Suíça e expor a minha situação por lá, ele concluiu que uma cirurgia de fixação era minha melhor chance de recuperar os movimentos das pernas.  

Fiquei em pé dois dias após a cirurgia!

Fiz o procedimento de fixação da coluna em 2010 e, dois dias após a cirurgia, já estava de pé! Não pensei duas vezes antes de levantar da cama, foi uma sensação indescritível, não saía da cama desde o meu acidente, em 2009, e de repente eu conseguia levantar e ficar em pé com a ajuda de muletas! Entrei em contato com o hospital que tinha me atendido para comunicar o ocorrido, decidi não processar diante do resultado positivo da cirurgia. Ainda assim, não queria que acontecesse com outras pessoas, então fiz questão de expor a eles o que tinha acontecido e o erro cometido. 
Mergulhei na fisioterapia durante um ano e fui me recuperando aos poucos, vou viver com o aconteceu pelo resto da vida. Oito anos após o acidente, tenho pouca sensibilidade dos joelhos pra baixo e alguns músculos paralisados, o que dificulta o controle do pé esquerdo. Uso uma pequena bengala para me apoiar enquanto ando. Devido às fraturas na bacia, precisei fazer um transplante de uretra, que consegui há um ano. 

Descobri um esporte que não precisa das pernas

Sempre fui esportista! Depois do acidente, o jogo com os amigos ficou fora de questão e acabei me dedicando à musculação e academia para fortalecer os músculos que me restaram. Depois de três anos malhando, não aguentava mais o ambiente de academia e decidi pesquisar outra modalidade que fosse possível praticar. Quando conheci a calistenia, em 2014, esse esporte transformou a minha vida! A calistenia é um conjunto de exercícios feitos unicamente com os braços em barras nos parques, sempre ao ar livre! Finalmente eu poderia praticar um esporte que fosse fora das paredes da academia. Descobri a atividade enquanto passeava pelo Parque do Campo Limpo, aqui em São Carlos, e vi um cara fazendo exercícios na barra, o Marcelo HS, que me apresentou a novidade. Começamos a conversar e ele mencionou que o esporte fortalecia bastante a região da coluna, me interessei na hora! Como meus braços não foram afetados pelo acidente, a calistenia era só benefícios. 

A calistenia é uma prática esportiva utilizada desde a Grécia Antiga que, nos últimos anos, vem se tornando comum aqui no Brasil. São exercícios concentrados que utilizam somente o peso corporal. Além de fortalecer o corpo como um todo, a calistenia educa nossa consciência corporal e aumenta a flexibilidade, mobilidade e resistência de todos (ou quase todos) os grupos musculares do corpo humano. Quase sempre praticada ao ar livre! Quando não é possível, podemos improvisar qualquer local ou qualquer ambiente para a prática dos exercícios que exigem muita concentração! É a minha terapia! Comecei a praticar e adorei, depois de tantos desafios e procedimentos médicos, poder estar ao ar livre me exercitando foi a melhor coisa aconteceu!

Matheus Guedes, 31 anos, engenheiro florestal, São Carlos, SP 

DA REDAÇÃO
Questão legal: o erro médico no processo jurídico

Um erro médico pode ser dividido em três categorias: negligência, ou seja, falhas do profissional por desleixo ou falta de atenção; imperícia, quando o médico realiza um procedimento para o qual não está completamente preparado e imprudência, quando o profissional assume riscos que colocam em perigo o paciente – sem que exista amparo científico para essa decisão. “Qualquer uma dessas situações é passível de processo e pode conseguir indenizações por dano material, moral e estético”, explica Sílvio Eduardo Valente, médico e advogado, presidente da Comissão de Direito Médico da OAB-SP. Os danos materiais se referem ao gasto que o paciente teve com o tratamento e procedimento e os dias de trabalho perdidos, por exemplo. Já o dano moral pode ser requisitado para compensar a dor moral a que o paciente foi submetido como, por exemplo, a perda de um órgão. Por fim, o dano estético pode entrar no processo na medida em que o paciente teve danos à sua aparência, como cicatrizes e outras deformidades.

Como proceder em caso de erro médico
Identificado o erro, o cidadão deve fazer um Boletim de Ocorrência sobre o ocorrido e protocolar uma denúncia no Conselho Regional de Medicina (CRM). Independente da decisão do Conselho em relação ao médico, o paciente pode abrir um processo na Justiça Civil - com o auxílio de um advogado - pedindo pelas devidas indenizações. “Mesmo em casos como uma quase perda de movimentos é possível entrar com a ação porque o paciente possui sequelas até hoje que poderiam, talvez, ter sido evitadas”, completa o advogado. 

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29/05/2017 - 18:36

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