Tive psicose pós-parto e coloquei minha filha em perigo

A minha doença era rara. Tive sorte de descobri-la a tempo

Reportagem: Andrea Carvalho (com colaboração de Luiza Schiff)

Somos muito apegadas...Eu amo muito a minha pequena! | <i>Crédito: Redação Sou Mais Eu
Somos muito apegadas...Eu amo muito a minha pequena! | Crédito: Redação Sou Mais Eu

“Eu matei minha filha! Eu sei que eu matei! Estou presa neste lugar cheio de grades porque eu matei minha filha! É isso, não é?!” Ufa! Não, não era... Mas eu estava em uma clínica psiquiátrica. Fui parar lá porque eu estava doente e podia machucar a minha filha. Ensandecida, eu gritava com os enfermeiros. Depois de uma hora amarrada, me acalmei. Ao longo de 22 dias, compreendi minha doença. Era psicose pós-parto.

Fiquei insuportável na gravidez

Meu drama começou com uma gravidez não planejada. Conheci o Vanderley logo depois de ele se separar. Como não teve filhos com a ex, pensava ser estéril. Em três meses de namoro, a surpresa: ele ia ser pai! Enquanto ele comemorava, me tornei uma mulher insuportável. Eu morria de ciúme, reclamava se ele demorasse um pouco pra me visitar, se ele não me ligasse... Tudo era motivo pra briga. Estranho. Eu não sentia prazer nenhum em estar grávida. Só pensava no que eu perdia: o sonho de me casar e de morar com o pai do meu bebê. Tudo tinha saído do meu controle. 

Eu não me reconhecia mais 

Quando vi a Maju pela primeira vez, não senti nada. Estranhei muito essa sensação. Algo estava errado comigo. Logo quando nasceu, ela estava mamando e machucando muito o bico do meu seio, eu a apertei forte uma dessas vezes e não percebi . Uma enfermeira me mandou parar na hora. Deram a mamadeira para ela e fiquei aliviada. 

No primeiro mês cumpri as tarefas básicas: dava banho, mamadeira e trocava fraldas. Em momento algum senti aquele amor incondicional de que as mães falam. Mas eu continuava muito irritada, tensa. O Vanderley não aguentou. Os calmantes que o meu obstetra passou depois de a Maria Júlia nascer não estavam adiantando nada. 

Eu não dormia a noite inteira, vivia tremendo e sentia uma angustia sem fim. Nunca tinha passado por isso antes. Meu médico desconfiou de depressão pós-parto e me encaminhou a um psiquiatra, que receitou novos remédios e me mandou para casa. Não adiantou. Pelo contrário: na semana seguinte, minha memória começou a falhar. 

Eu comecei a escutar vozes... Estava paranoica! 

“Você não vai ser uma boa mãe”, eu vivia escutando isso na minha cabeça. Lembro que volta e meia eu tinha uns pensamentos macabros. Imaginava o meu caixão e o da minha filha. Sentia que não teríamos muito tempo aqui. Comecei a me assustar com o que estava acontecendo.

Um dia, fui ao shopping. Na volta, no condomínio onde moramos, deixei o carrinho na calçada e entrei em casa. A minha vizinha viu a situação e resgatou a Maju, que poderia ter tombado no carrinho para a rua onde passam os carros. Ela bateu a porta de casa com a minha filha e eu tinha realmente tinha me esquecido dela. Eu estava ficando doente.

No dia seguinte, depois de dar banho na Maju, deixei-a de macacão sem manga no berço e fui dormir ao lado dela. Liguei o ar condicionado, mas abaixei demais a temperatura. Acordei com a minha mãe batendo na porta. A Maria Júlia estava chorando, provavelmente com frio e eu dormindo ao lado dela, não percebi. Aí a ficha caiu. Desesperada, pedi para minha irmã me levar ao hospital. Eu precisava de ajuda. 

Do hospital, fui direto pra clínica psiquiátrica 

Meu obstetra disse que eu precisava ficar em um hospital psiquiátrico. Meu coração apertou, mas era o melhor para mim. Lembro dele dizer: “É melhor chorar a dor da separação de 30 dias do que a de uma vida inteira”. Ele também disse para a minha irmã naquele dia que se eu voltasse para casa, ia acabar matando a minha bebê. Não retornei. Minha irmã levou a Maju lá no hospital para eu me despedir. A clínica era um lugar calmo, uma casa com um jardim lindo. Mas o corredor terminava em duas portas com grades e pessoas me encarando. 

Vou me tratar para sempre 

Foram 22 dias trancada. No primeiro domingo de visita, minha mãe foi. Na única hora que tínhamos, implorei pra voltar para casa. Ela não se comoveu. Só depois descobri que era parte do tratamento. No sétimo dia, vi as grades e pensei que estivesse na cadeia. Foi uma gritaria. Achei que tinha matado minha filha e não acreditava nos médicos. 

Então, pude ver a Maju, para me acalmar. Quando bati os olhos nela, percebi o quanto eu estava realmente doente. Senti amor pela minha menina pela primeira vez. Só aí cheguei onde deveria: lembrar que eu era mãe. Oito dias depois, recebi alta. 

Hoje a Maria Júlia está com 9 anos de idade. Minha filha é uma menina linda e somos muito apegadas. Os remédios vão me acompanhar a vida toda. E não posso mais engravidar. Doença rara e muito cruel, eu tive psicose pós-parto e isso ainda traz muitas complicações para a minha vida. Acabei desenvolvendo depressão, ansiedade e síndrome do pânico.  Apesar de tudo, eu sigo em frente. Eu amo a minha filha e quero protegê-la. Estou com o Vanderley até hoje e ele me apoia muito. Nunca imaginei que passaria por tudo isso na minha gravidez. Mas ser mãe é um constante aprendizado. 

Daphine Alonso, 27 anos, auxiliar administrativa, Santos, SP 

DA REDAÇÃO

Os sintomas da depressão pós-parto já aparecem na gestação

Extrema ansiedade ou um medo exagerado de não saber cuidar do bebê durante a gestação. São esses os principais indícios de que a gestante poderá ter depressão pós-parto. O diagnóstico definitivo só virá após o nascimento do bebê, mas dá para o obstetra acompanhar se esses sintomas evoluem durante a gravidez. “O carinho da família é importante nesse momento em que a grávida se sente carente.”, diz Alexandrina Meleiro, psiquiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo. Quando o filho não é planejado, a chance de depressão aparecer é ainda maior. No entanto, qualquer mulher pode ter a doença, em diferentes níveis de gravidade. Segundo a especialista, as três formas mais comuns da depressão pós-parto são: 

Depressão imediata: Dura até três meses e pode ser curada só com terapia. A mulher sente um vazio, pois todos dão atenção apenas ao bebê. Ela se sente deslocada. 

Depressão tardia: Durante a gestação a mulher já começa a ter pensamentos depressivos e a certeza de que será uma péssima mãe. Para aliviar a própria dor e a do bebê, ela acredita que a saída é matar a criança e depois se suicidar. O tratamento é com remédios e terapia. 

Psicose-pós parto: Rara e grave, atinte 1% das mulheres. A pessoa pode matar não só o bebê como todos os filhos. Exige internação em clínica, remédios e terapia. 

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18/05/2017 - 17:32

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