Superei a morte do meu filho dançando até o chão

Criei um grupo de dança da terceira idade e fugi da depressão requebrando

Reportagem: Letícia Gerola

Dançamos tudo, de Tina Turner a Ludmila | <i>Crédito: Arquivo pessoal/Reação Sou Mais Eu
Dançamos tudo, de Tina Turner a Ludmila | Crédito: Arquivo pessoal/Reação Sou Mais Eu

Meu amado filho Paulinho era autista. Como é comum nos casos de autismo, ele tinha dificuldades para se relacionar com os outros, mas era um doce de pessoa. Bastava oferecer um Guaraná que ele topava qualquer coisa. Muito parceiro! Tanto que, há 20 anos, em 1997, fiz uma festa de 15 anos para a minha filha, a Nejande, e o Paulinho decidiu entrar de braços dados com ela. Um lindo!

Encontrei meu filho morto

Quatro dias antes do grande dia, fui ajudá-lo a se vestir e encontrei-o caído no chão, sem respirar. Meu mundo desabou naquele momento. Meu filho, fruto do meu ventre, estava morto diante dos meus olhos. Parecia que eu estava vivendo uma realidade paralela, não conseguia acreditar no que via. A dor foi tão grande que achei que nunca mais fosse sorrir. Sem falar no sofrimento da minha filha - a festa foi a menor das perdas pra ela. Quem vinha para uma comemoração, acabou ficando para um velório.  

Quem é mãe vai entender que quando um filho morre, uma parte nossa também se vai. Não é a ordem natural das coisas, é difícil compreender que a vida segue. E mais do que isso: é dolorido fazer a vida seguir de fato. Fiquei muito triste e levei quase um ano para me recuperar e voltar a sair de casa. Quando resolvi dar uma chance pra vida, algumas amigas me chamaram para conhecer um clube de aposentados da cidade aqui do bairro. Confesso que não botei muita fé, mas vi que era um lugar cheio de atividades: dança de salão, natação, exercícios... Eu não participava de nada, ia só pra olhar. Gostava muito de assistir a velharada se divertindo! Sentia algum conforto na felicidade deles. Numa das minhas idas, conheci o grupo de dança e resolvi fazer uma aula experimental. Foi essa decisão que transformou a minha vida.

Montei um grupo de dança dentro de casa

Fui tão bem na primeira aula que cheguei chegando nas seguintes: inventei uma dancinha para apresentar na Páscoa, como as coreografias feitas no programa do Raul Gil. Foi muito gratificante ver o resultado, ficou um arraso! De certa forma, voltei a sorrir nos momentos que passava no clube. Mas isso era pouco pra mim, eu queria que a alegria voltasse a ser uma constante na minha vida, como era antes da partida do Paulinho. Então, decidi montar um grupo de dança de verdade. Comecei transferindo os ensaios pra minha casa. Chamei as meninas que estavam mais animadas e criei meu próprio time, o Grupo de Dança da Melhor Idade Mulekas de Ouro. Passo a passo, vi meu coração ser reconstruído com ajuda da dança.

Éramos em mais de 15, hoje somos em oito, todas na melhor fase da vida: as idades variam de 58 a 70 e tantos anos. Contratamos um professor, o Jaber, para nos ajudar com as coreografias - ele já nos acompanha há 18 anos. As meninas pagam uma taxa de R$ 50 reais como salário para ele. Minha casa virou nosso estúdio - tem colchonete, espelho, caixa de som... Nos reunimos toda segunda-feira às 13h e ensaiamos até as 16h, que é quando o professor chega pra nos ajudar com a coreografia. Se todo mundo odeia segunda, a gente encontrou um motivo para amar.

Fizemos 14 shows em dois meses

Dançamos tudo, de Tina Turner a Ludmila. Axé da Bahia, funk, música brasileira, shows infantis... Fizemos até uma paródia com músicas do Dorival Caymmi. Com esse repertório diversificado, fica mais fácil de conseguir shows! Começamos nos apresentando em buffets de aniversário, festas de universidade e outros eventos – levo cartões em todas as apresentações para distribuir e divulgar nosso trabalho. Graças ao boca a boca, o número de shows só tem crescido! Só nos últimos dois meses foram 14 apresentações.

Todos os shows públicos são completamente gratuitos, gastamos do nosso próprio bolso para comprar o figurino. De vez em quando recebemos ajuda de quem está contratando, como um tecido, pares de sapato... Temos que nos virar para dar conta das roupas! Não cobramos nada porque o dinheiro não é a nossa ambição. Queremos espalhar alegria. Estou a procura de um patrocinador para ajudar com os custos de figurino, assim o show pode ficar ainda mais bonito e a gente não fica pobre, né?

Senhora não: sou dançarina, queridinhos!

O grupo de dança mudou a minha vida em todos os sentidos: além de me resgatar da tristeza, trouxe mais qualidade de vida pra mim e pras integrantes! Derrubamos diariamente o preconceito de que só jovens podem dançar, se maquiar e usar roupas curtas e coloridas. Se somar todas as idades daqui passa fácil dos 200 anos, mas depois do look e da maquiagem, você não adivinha a idade de ninguém! Ficamos todas lindas e prontas pra mostrar nosso talento.

Quando meu filho morreu, não soube o que fazer para me reerguer, fiquei sem rumo. Hoje sou centrada, focada no que eu faço e já consigo falar dele sem ficar triste. Tenho dois netos que adoram me ver dançar e se divertem junto! Quero mudar essa ideia de que o idoso é parado, eu mesma, por exemplo, danço todos os dias. Se vou viajar, levo um radinho e faço coreografias para o grupo com quem viajo na excursão... Dançar virou um hábito delicioso e salvou minha vida!

Jandira da Silva Berenguer, 70 anos, aposentada, Salvador, BA 

Fique por dentro das histórias mais impressionantes do dia. Curta nossa página no Facebook clicando aqui!

27/01/2017 - 20:22

Conecte-se

Revista Sou mais Eu