Sou tetraplégica e tive uma filha de parto normal

Não pude sentir meu bebê chutar, mas isso não impediu meu sonho de ser mãe

Reportagem: Letícia Gerola

Uma pequena fração de tempo mudou minha vida pra sempre | <i>Crédito: JotaBertol Fotografia/Patricia Haupt/Redação Sou Mais Eu
Uma pequena fração de tempo mudou minha vida pra sempre | Crédito: JotaBertol Fotografia/Patricia Haupt/Redação Sou Mais Eu

Lembro perfeitamente, era 25 de agosto de 2006. Eu e o Jair, meu marido, tínhamos marcado uma viagem no final de semana com a turma do inglês. Colocamos algumas mochilas na moto e fomos percorrer os familiares 20 km até Bento Gonçalves - local onde eu trabalhava e estudava - e nosso ponto de encontro com os colegas do curso de línguas para a viagem. Chegamos em um cruzamento onde a preferencial era nossa. Por isso, seguimos. Ninguém poderia ter previsto a cena a seguir. O carro que deveria esperar sua vez para cruzar simplesmente acelerou para atravessar a via e não nos viu. Bateu na moto com força, nos pegou de jeito. A batida durou poucos segundos. Uma pequena fração de tempo mudou minha vida pra sempre.

Fui arremessada de cabeça no meio da rodovia

Foi o capacete que salvou minha vida, mas ele não foi suficiente para evitar a lesão nas vértebras C4 e C6, me deixando tetraplégica. Apesar da forte pancada, não perdi a consciência nem por um segundo sequer. No mesmo instante senti que não conseguia mais me mexer. Meu corpo não respondia aos comandos do meu cérebro. Tudo que podia fazer era pensar. Então pensei no Jair e torci pra que ele estivesse bem. Só eu sei como queria que ele estivesse bem: vivo e se mexendo.
  Passei por duas cirurgias imediatas. Como a lesão era muito próxima de um setor da medula que controla a parte respiratória, tive pneumonias seguidas que me impediram de respirar sozinha. Passei um mês na UTI para cuidar dessa questão, meu marido ia todos os dias me visitar depois que foi liberado da pequena lesão no joelho. Lembro de cada segundo que passei no hospital, cheguei a ouvir que precisaria usar um respirador para sempre! Felizmente, meu corpo conseguiu regenerar as pequenas lesões que me impediam de respirar e tossir com normalidade, eliminando essa terrível possibilidade. Fiquei muito feliz com a conquista! Mesmo tetraplégica, me senti sortuda com a pequena vitória. Estava pronta para voltar pra casa com o Jair. A minha casa, no entanto, não estava pronta pra mim.

Sofri o acidente na semana que meu pai descobriu um câncer terminal

Havia escadas pra chegar ao meu quarto. Decidimos ficar na casa dos meus pais, no meu antigo quarto de solteira, até que pudéssemos adaptar os ambientes. Infelizmente, eu não era a única na cadeira de rodas: na mesma semana do meu acidente, meu pai descobriu um câncer terminal na garganta que foi se espalhando por outros órgãos. Ele ficou quase tão debilitado quanto eu. Nós dois dependíamos da minha mãe e do meu marido, que também estava morando na casa, para fazer absolutamente tudo. De comer a tomar banho, sempre tinha que ter alguém com a gente.
  Foram tempos difíceis, mas também positivos de alguma forma... Pude me conectar muito com meu pai em seus últimos dias, tentávamos deixar tudo mais leve rindo da nossa tragédia familiar. Ele faleceu seis meses depois da minha mudança e eu acabei ficando na sua casa por mais um ano e meio. Nessa época recebi a herança de um avô que tinha falecido há tempos. A quantia veio em boa hora para reformarmos a casa para a minha deficiência.
  Adaptamos os espaços para mim e para um possível filho, já separando um quarto pro bebê. Com o dinheiro da herança, removemos as escadas e fizemos uma rampa de acesso. Sou professora de espanhol e na época queria muito voltar a trabalhar, mas não foi possível. Tudo era novo, eu ainda precisava me adaptar à nova rotina – e a escola também: poucas rampas, sem banheiros adaptados para deficientes. Acabei deixando a ideia de lado temporariamente, mas não desisti de me recolocar no mercado.

Encaixei minha vida em uma cadeira de rodas

O momento do acidente é como quando você machuca uma parte do corpo: ela incha e fica debilitada. Conforme desincha a dor vai melhorando até que sobra só uma cicatriz na pele. Acontece que a minha cicatriz era a tetraplegia. Não mexer nada abaixo do pescoço tinha virado minha marca daquele acidente. No processo de recuperação consegui recuperar alguns movimentos: comecei a mexer alguma coisa do ombro e um pouco do braço. Hoje em dia tenho o movimento do punho. Pode parecer pouca coisa, mas me ajuda muito no dia a dia! Consigo encaixar minha mão em um controle remoto, um telefone... Fiz um processo de reabilitação intenso e só me trouxe resultados positivos.
  Meu tratamento foi feito em um famoso centro de reabilitação em Brasília, a Rede Sarah. Quatro meses após o acidente já estava frequentando o espaço semestralmente e ficando períodos de um mês a cada visita – o hospital é público e gratuito. Lá, aprendi a escovar os dentes, pentear o cabelo e a comer sozinha... Tudo isso só com os poucos movimentos que recuperei! Os profissionais trabalham muito a coordenação motora através de artesanato, pintura e todo tipo de atividade. Aos poucos, fui encaixando a minha nova vida nos eixos da cadeira de rodas. Depois do Sarah, voltei para casa uma nova pessoa.

Redescobri o sexo

Eu queria ter filhos. Esse já era um projeto de vida com meu amor antes do acidente. Não abandonamos nossos sonhos depois. Não deixamos uma tragédia determinar o restante das nossas vidas. Nestas situações a mulher não perde a fertilidade, mas meu organismo levou algum tempo para se reorganizar – passei dois anos sem menstruar, por exemplo. A questão sexual me preocupava, não sabia como seria transar novamente, sem sensibilidade alguma nas áreas. O Sarah tinha um programa de reeducação sexual que eu já participava desde a primeira internação, resolvi colocar em prática o que vinha aprendendo.
  As reuniões eram impressionantes. Ouvi relatos incríveis de mulheres paraplégicas que tinham mais prazer agora do que antes do acidente! Achei aquilo um máximo e me senti motivada. Eu e o Jair tivemos que nos conhecer de novo, entender em que locais eu poderia ser estimulada e ter prazer. A nuca, local da minha lesão, é o ponto onde eu sou mais sensível! Sete meses depois do acidente, começamos a ter relações sexuais de novo. O Jair teve muita paciência, nunca me cobrou nada, um grande parceiro de vida. Juntos entendemos como ter prazer. Foi lindo! Percebi que poderia sentir tesão de novo pela nuca, orelha e outros locais - e ainda fazer meu marido feliz na cama!

Decidimos ter um filho

Nossa vida estava organizada de novo. O Jair não precisava mais tirar licenças para me acompanhar ao Sarah e eu tinha uma pessoa em casa me ajudando com o que não dava pra fazer só e nossa vida sexual estava ativa de novo. Eu costumava pensar que precisava melhorar para ter um filho – conseguir adaptar mais movimentos, ficar um pouquinho mais independente... Mas tive um estalo: talvez essa melhora nunca chegue, e esse é o meu máximo. O que estamos esperando? Vamos ter um filho agora!
  O Jair topou e, no final de 2010, começamos a nos planejar para quando a gestação se confirmasse. Me preparei psicologicamente durante dois anos para a gravidez, saber que você não vai poder atender todas as necessidades do seu filho é muito dolorido, decidi voltar ao Sarah para orientações. Todas as cadeirantes que conheci tiveram filhos por cesárea e com anestesia geral; elas nem viam os filhos chegando ao mundo! Fiquei chocada... Quer dizer que passei por um acidente horrível sem apagar um segundo da memória e ia perder o nascimento da minha filha?! Ah, mas não mesmo. Eu iria ver de camarote essa beleza nascer!

Foi um parto emocionante; meia luz e música clássica...

Engravidei da Manu em abril de 2011. Ganhei pouco peso (ainda bem!). Ia ser difícil para o Jair me mover de um local ao outro com muitos quilos extras. Nunca senti a bebê mexer, mas às vezes eu via o formato de seu pezinho na barriga, e era a maior emoção. Resolvi consultar uma médica especializada em gravidez de alto risco que era a favor do parto normal, a Dra. Liane. Fui saber sua opinião sobre a minha situação. Ela e o anestesista estudaram opções para que eu pudesse ver minha filha nascer sem riscos pra nenhuma de nós. A Manu estava encaixadinha, perfeita que só. Então os dois deram o sinal verde pra que ela nascesse de parto normal.
  Dia 10 de janeiro de 2012, decidimos induzir o parto da Manu, que ainda não dava sinais de nascimento. Não é por que eu não sinto contrações que a dor não está ali: a sensação se manifesta de outras formas na tetraplegia. Ao invés da dor, sinto calafrios, meu batimento acelera, a pressão sobe... Esse tipo de sensação avisa que algo não está bem. No caso da Manu, as contrações vieram em forma de arrepios. Fomos direto para o hospital viver o momento mais incrível de nossas vidas! Meia luz, música clássica tocando. Ao invés da enfermeira Karen me dizer pra ter força e empurrar, era eu quem dizia pra ela ter força - e puxar! Com a minha dilatação e a habilidade da Karen e da Dra. Liane, a Manu veio ao mundo. Me arrepio de lembrar.
  Tive que delegar muitos cuidados a outras pessoas, mas sabia que seria assim. Amamentei tranquilamente: o Jair posicionava nós duas juntas e ela mamava na maior segurança. Às vezes ficava triste com o que não conseguia fazer por ela, afinal, toda mãe sonha em dar banho, trocar fraldas... Conforme ela foi crescendo, fomos descobrindo novas formas de estar juntas. Hoje a Manu tem cinco anos e a gente brinca de igual pra igual! Ela na motoca, eu na cadeira de rodas, saímos as duas “dirigindo” pela casa e nos divertimos muito. O amor não precisa de movimentos!

Débora Haupt, aposentada, 36 anos, Farroupilha, RS

DA REDAÇÃO

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Conheça seu corpo

O parto normal em pessoas tetraplégicas deve ser analisado caso a caso, já que a gestante precisa ter uma boa consciência corporal para que os riscos sejam minimizados. “Ela precisa ser capaz de identificar os sintomas que se manifestam no lugar das contrações, como espasmos, calafrios, sudorese... Como ela não sente dor, é preciso estar atenta aos sinais do trabalho de parto”, explica João Serafim Neto, obstetra e coordenador do Ambulatório de Obstetrícia do Hospital Santa Lúcia.

Tenha uma equipe preparada

“A paciente necessita, acima de tudo, de uma equipe multidisciplinar”, acrescenta Vanessa Carazza, obstetra. O anestesista precisa estar preparado para realizar analgesia durante o parto para evitar complicações. O médico obstetra é personagem importante na assistência ao trabalho de parto, utilizando instrumentação para retirar o bebê se necessário. 


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10/02/2017 - 17:10

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