Sou índia de aldeia e me formei em nutrição de jaleco e cocar

Passei por preconceitos e dificuldades, mas tudo valeu a pena quando segurei meu diploma

Reportagem: Gabriella Gouveia

Ouvi muitos comentários maldosos, disseram que eu tinha entrado na faculdade só por causa das cotas indígenas. Ouvi que índio era preguiçoso e não trabalhava | <i>Crédito: Redação Sou mais Eu!
Ouvi muitos comentários maldosos, disseram que eu tinha entrado na faculdade só por causa das cotas indígenas. Ouvi que índio era preguiçoso e não trabalhava | Crédito: Redação Sou mais Eu!
Nasci, cresci e estudei na aldeia até o Ensino Médio. Meu povo é unido e temos o costume de comer o que plantamos. Nossa relação com o alimento é muito íntima. Tem de tudo no quintal de casa e foi isso que me fez querer entender mais sobre alimentação. Por isso decidi embarcar no sonho da faculdade e prestei o vestibular para nutrição. Quando passei, senti que estava cada vez mais próxima de conquistar um diploma. E como nada que é bom vem sem esforços, precisei deixar minha terra, minha família e meus costumes para estudar. Me mudei para Campo Grande (MS), onde sofri discriminação racial e enfrentei dificuldades para me sustentar. Todo o sofrimento valeu a pena quando peguei aquele canudo: eu tinha me tornado uma nutricionista de verdade!
Me tornei o orgulho da aldeia!
Vivi 18 anos na aldeia de Buritizinho, terra indígena Limão Verde em Aquidauana. Sempre tivemos tudo o que precisávamos para viver no nosso território. Dentre a população formada, a grande maioria é professor. Foram eles que me ensinaram a ler e escrever. Temos também uma enfermeira e alguns técnicos em enfermagem, mas nenhum médico. A área da saúde sempre me interessou, queria poder ajudar minha comunidade de alguma forma. Quando a ideia da nutrição apareceu na minha vida não tive dúvidas, agarrei com força! Em 2012 prestei o ENEM na minha cidade, mas precisei me inscrever em Campo Grande, pois não havia curso de saúde em Aquidauana. Concorri à vaga de indígena com mais 20 pessoas e consegui o primeiro lugar. A aldeia entrou em festa, meus pais não se aguentavam de tanto orgulho!
Mudei de casa como quem muda de roupa
Foi uma conquista única, mas exigia uma logística complicada. Precisei mudar de cidade e me adaptar a outros costumes. Morei o primeiro semestre na casa de um enfermeiro amigo da família. Depois passei três meses em uma chácara onde minha prima trabalhava. Lá tive dificuldades de locomoção: conseguia carona de moto com o pessoal que vivia ali, mas quando chovia a vida ficava difícil. Eu não podia perder aula especialmente por ser bolsista. Me esforçava muito para manter meu benefício. Para não faltar na faculdade, comecei a dividir o aluguel de uma república com uma menina que estudava comigo. Moramos juntas durante um semestre. Até ela trancar o curso e voltar para casa. Mais uma vez tive que procurar outro lugar para ficar, afinal, eu não conseguia pagar o aluguel sozinha. Encontrei uma casa mais barata e passei um ano vivendo lá com a ajuda dos meus pais e da minha comunidade, que enviava o que podia para contribuir. Passei a fazer artesanato indígena para pagar os livros e o aluguel. Não era fácil, a cada semestre tive que mudar de lar. Estudava de manhã, fazia roupas e acessórios à tarde e à noite trabalhava num call center de uma operadora telefônica. Descansar era um luxo que eu não podia me dar.
Enfrentei preconceitos e me dediquei ao meu sonho
Ouvi muitos comentários maldosos, disseram que eu tinha entrado na faculdade só por causa das cotas indígenas. Ouvi que índio era preguiçoso e não trabalhava. Cheguei a debater com algumas pessoas sobre a demarcação indígena. Eu dizia que não reivindicávamos qualquer terra e sim o que era nosso por direito. Lembro de pedir para que as pessoas se informassem antes de julgar. De onde eu vim o povo come o que colhe. Para me manter na faculdade o dinheiro também veio dali, do plantio.
No terceiro ano de curso conheci uma moça também índia, mas de outra aldeia. Começamos a morar juntas. Já que dividíamos as despesas, pude largar o emprego e me dedicar aos estudos, minhas notas precisavam ser altas para me manter ali dentro. Continuei apenas com o artesanato. Depois de um tempo fomos conhecendo mais indígenas e passamos a morar em três. Além de diluir as contas, essa parceria era mais fácil. Nossos costumes eram os mesmos, tínhamos a mesma intenção: nos formar e voltar para servir nosso povo com aquilo que aprendemos!
Minha intenção desde o início foi ajudar minha comunidade. Tudo que aprendia em aula e nos estágios pensava em como adaptar para a aldeia. Até meu trabalho de conclusão de curso foi dedicado a eles. Fiz as pesquisas no Limão verde e buritizinho e foi um sucesso! Tirei a nota máxima. Aqui em MS, várias aldeias vivem sob risco nutricional, como a desnutrição e sem acesso à alimentos saudáveis. Mas descobrimos que minha aldeia está bem controlada em relação a isso. Foi muito gratificante poder mostrar para os professores e colegas como realmente vivemos e nos alimentamos muito bem!
Levei o diploma para a aldeia e ganhei uma festa inesquecível
Não aderi à festa de formatura com os meus colegas de classe, o baile era muito caro pro meu bolso. Fora que eu não conseguiria levar toda a aldeia para celebrar uma conquista tão grande. Eles são minha família e eu queria todos lá. Por isso, fiz uma festa na minha igreja e toda a comunidade participou. Os caciques das aldeias, meus professores do ensino médio e meus amigos. Fui homenageada e minha família agradeceu quem nos ajudou a traçar essa trajetória. Vesti meu jaleco, um cocar e colar feito na tribo.
Sou muito grata à minha comunidade, sozinha sei que não teria conseguido, acho que teria desistido logo no primeiro ano. Mas recebi muito apoio e força. Somos uma grande família aqui. Um sempre segurou o outro. A festa não foi minha, foi de todos. Só cheguei até o fim pelo apoio do meu povo. Concluir o curso mostrou que somos capazes de ir muito longe sem abandonar nossas raízes. Hoje sirvo de exemplo para outras pessoas.
Quero cuidar da saúde do meu povo
Agora formada, quero cuidar dos índios. Já consegui fazer palestras nas escolas da aldeia sobre alimentação saudável e estou pensando em desenvolver um projeto de hortas para incentivar os indígenas a comer verduras, já que eles não têm esse costume. Estou escrevendo um livro com informações nutricionais na minha língua local, terena.
No dia a dia, tento ajudar no que posso e dou assistência aos idosos. Faço algumas adaptações dentro da realidade que temos, porque nem sempre o que aprendi nas aulas pode ser usado na tribo. É uma forma de retribuir o povo, que me ajudou e incentivou tanto na época da faculdade.
Hoje estou aguardando uma vaga em um hospital da minha cidade, também penso em fazer pós-graduação e residência em povos indígenas. Esse é meu foco. Vou trabalhar em projetos e me dedicar cada vez mais à minha comunidade. Ela é a prova de que, juntos, somos mais fortes!
Nilzanir Torres Martins, 24 anos, nutricionista, Aquidauana, MS

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17/02/2017 - 19:00

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