Ser diagnosticada com câncer de mama me fez perder amigas

Desde então não tenho medo da morte, tenho medo dos vivos...

Reportagem: Caroline Cabral

Além do câncer, precisei vencer a dor da solidão | <i>Crédito: Camila Balthazar, para o Projeto Pérolas
Além do câncer, precisei vencer a dor da solidão | Crédito: Camila Balthazar, para o Projeto Pérolas

Trabalhadora. Guerreira. Amiga. É assim que eu via a Shirley de 37 anos. Solteira, criei meus dois filhos sozinha. De segunda a sábado ralava no salão de beleza, dando um gás na autoestima da mulherada. Ainda encontrava tempo para ser terapeuta de boteco de amigas com corações partidos. Não era fácil, vivia uma rotina cansativa. Mas fazia tudo com amor. Estava sempre a postos para ajudar minha família e as tão queridas irmãs da vida. Ah, é, companheira: a Shirley de 37 anos era muito leal. E essa mulher, tão fiel aos seus, levou um baita tombo quando foi diagnosticada com câncer de mama. Costumo dizer que foi fácil vencer o tumor, difícil mesmo foi encarar a realidade sombria que se desenhou: para brindar a sexta-feira, contava com amigas a perder de vista... para segurar minha mão durante a quimioterapia não restou uma.

O câncer da alma doeu mais que o do corpo

Acredito que com toda dor vem uma lição, com essa não foi diferente. Em meados de 2012 reparei que havia um caroço na minha mama esquerda. Achei alarmante, logo procurei um médico. Ele fez pouco caso, desdenhou do meu desespero. Passei por uma ultrassonografia antes do diagnóstico oficial: era apenas um nódulo comum na glândula mamária. Foi difícil aceitar o resultado, uma sensação muito forte de que não era algo tão simples me sondava. Passei em outros doutores que também não detectaram nenhuma anormalidade. Com o tempo, o nódulo sumiu. Não durou muito e, em 2013, ele ressurgiu. Dessa vez, dolorido.

Já era junho de 2014 quando o diagnóstico certeiro veio após uma biópsia: câncer de mama avançado. Caso seríssimo. O sol mal havia se posto e eu já estava sendo encaminhada para a primeira sessão de quimioterapia. Quase não tive tempo de processar a informação. No primeiro dia, só consegui comentar com a família. Chamei minha filha e meu ex-marido para conversar. Fui direta: “estou com câncer”. Senti os dois tontos. Pedi calma. Precisava da ajuda deles para que tocassem a vida e se apoiassem enquanto eu cuidava de mim. Minha filha ficou estática, não soube reagir. Ela era muito jovem, tinha só 17 anos. Seu pai ficou inconformado, acabei por consolar o cara, não o contrário.

Alguns dias depois consegui contar para os amigos. Naturalmente esperava apoio, compreensão, ombros para chorar e mãos para amparar as lágrimas anunciadas. O que encontrei foi desesperador: ligações que nunca foram retornadas, mensagens até hoje sem respostas. Logo percebi que não poderia contar com eles como contavam comigo. Fiquei desnorteada. Me senti um lixo, um ser humano não digno de apoio e carinho. Fui arremessada contra a parede e precisava levantar.

Deus enviou um exército surpresa para essa guerra

Dizem que Deus fecha uma porta e abre uma janela. Ele trancou muitas portas na mesma ventania. Certamente também foi Ele que escancarou janelas onde eu só enxergava paredes. Muitas pessoas me surpreenderam, mostraram que o amor pode salvar vidas. Fiquei chocada quando vi minha cunhada aparecer em casa depois do diagnóstico. Não nos dávamos bem, mas mesmo assim ela entrou pela porta e disse: “você vai operar e eu vou cuidar de você!”. Essa atitude mexeu muito comigo. Dois colegas não tão próximos e até um ex-namorado apareceram para segurar o rojão. A força não veio de onde eu esperava, mas certamente veio com eles.

Também encontrei suporte para a luta contra o câncer em um grupo de motoqueiros da cidade, o HOG. As pessoas me receberam tão bem que me senti em casa. Fui até paquerada! Eu quase não acreditei, cheguei a dizer: “cara, estou careca, como você pode achar isso bonito?”. A resposta foi um sincero “não é o cabelo que faz a mulher”. Em março de 2015 fiz a operação para a retirada do tumor e em julho já estava fazendo radioterapia. Comecei a redescobrir minha feminilidade, ela tinha ficado de escanteio junto com as amigas que nunca mais vi. Fiz um ensaio fotográfico com o Projeto Pérolas, me senti a mulher mais poderosa do mundo! Fiquei bonita de novo graças a isso. Guardo as fotos com o maior carinho, me dão forças nos dias de dor.

Só o amor nos salva da vida

Dois anos depois de ter vencido o câncer, uma das amigas que me abandonou lá atrás pediu perdão. “Te dei as costas quando você mais precisou de mim”, ela disse. Me limitei a constatar o óbvio: “a vida é assim”. Perdoei, não guardo rancor. Não foi fácil, me custou lágrimas e doeu na alma, mas eu superei. Aprendi que há de se amar sem exigir nada em troca. Hoje, sem um seio, tenho mais espaço no peito para perdoar e nenhum para guardar mágoas.

Passei a dar o devido valor à família; a de sangue e a que escolhi a dedo. Descobri que o tempo é nosso bem mais precioso. Um minuto pode mudar tudo. Não posso jogar nem um fora, ele pode ser o último. Acredito que minha missão seja passar a mensagem adiante. Se você está nessa luta, lhe desejo força e fé: carregue isso no coração desde o momento que abre os olhos pela manhã. Não dê crédito para a doença, mulher. Foque no resultado, mantenha os olhos na cura: você também vai vencer!

Shirley Ferreira Nogueira, 40 anos, cabeleireira, São João de Meriti, RJ

17/10/2016 - 20:30

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