Saí da periferia e comprei carro zero e apê na cobertura!

Sempre acreditei nos estudos para ser alguém na vida. Mas só sonhar não adianta: fiz cursos grátis, faculdade e quatro pós-graduações. Hoje sou uma profissional de sucesso!

Reportagem: Luiza Furquim (colaboração: Caroline Cabral)

Estudei muito para abandonar meu barraco e ter minha casa! | <i>Crédito: arquivo pessoal
Estudei muito para abandonar meu barraco e ter minha casa! | Crédito: arquivo pessoal

No bairro onde cresci, na periferia de Diadema, em São Paulo, ter ensino fundamental já parecia muito. Pensar em diploma universitário, então, era um sonho impossível. Mas, mesmo com uma realidade dura, eu acreditava nos meus ideais. E olha que estou falando de vida dura mesmo! Morava numa casa de dois cômodos com meus pais e minha irmã mais nova, nos fundos do terreno de um tio. Dormia em um beliche na cozinha e só tinha roupa usada. Quando eu falava em fazer uma faculdade, meus pais davam risada. “A única coisa que pobre pode fazer é sonhar, porque não tem imposto”, dizia meu pai. Juro que nunca acreditei nisso. E nunca quis um trabalho qualquer. Queria uma profissão de sucesso, dinheiro do bom e uma casa num bairro sem violência. E, graças à minha insistência e muitas horas de estudo e suor, conquistei tudo que sonhei! 

Vivia no meio da lama

Minha vontade de ser alguém despertou ainda na infância. Lembro de quando meu cachorrinho ficou doente e perguntei ao veterinário como poderia me tornar uma profissional como ele. Ele disse que eu tinha que estudar para passar na faculdade. Eu nem sabia o que era vestibular, mas enfiei aquilo na cabeça. Aí, fiquei amiga da bibliotecária da escola e me joguei no mundo dos livros. No colegial, fiz curso de magistério em uma escola pública, que ficava num bairro mais chique. Para os meus pais, eu deveria me satisfazer com isso. Mas eu continuava sonhando com a faculdade. Queria isso a qualquer custo! Na época do pré-vestibular, para conseguir pagar os simulados, vendia bijuteria feita por mim e cosméticos de catálogo. Nessa época, aos 19 anos, me mudei com a minha família para Pirituba, na periferia, numa casa em construção. Era um horror! Quando chovia, tinha que sair às 5 h da manhã com saco plástico amarrado no pé para não me sujar de lama. É, amiga, era bem difícil.

Bombei na faculdade

Contra todas as expectativas da família, passei no vestibular para a graduação de tecnologia mecânica em 1995, numa universidade pública! Escolhi esse curso porque sabia que o mercado pagava bem. A empolgação passou quando me deparei com a realidade: estudar é difícil! Reprovei em todas as matérias do primeiro semestre! Me dei mal porque tinha deficiência em exatas. “Quer dar um passo maior do que a perna? Dá nisso!”, comentou meu pai. Fiquei arrasada, humilhada, mas não desisti! Larguei o curso e prestei o vestibular para a faculdade de soldagem. Não era o que eu queria, mas tudo fazia parte do meu plano: estudar em paralelo para voltar à faculdade dos meus sonhos. Deu certo: arranjei um emprego de analista de suporte técnico de internet durante a madrugada para bancar meus gastos e estudei muito com a ajuda de amigos. Depois de três semestres, larguei o curso de soldagem e recomecei o de tecnologia mecânica.

Fiz vários cursos grátis

Foram cinco anos estudando e ralando para não reprovar. E me desdobrei: trabalhei de madrugada com o negócio de internet, consegui um estágio na própria faculdade, estagiei em empresas... E sabia que podia mais! Foi então que encontrei meus grandes aliados: os cursos gratuitos oferecidos pelo Sindicato dos Metalúrgicos. Eu só precisava pagar R$ 40 por ano para ser filiada! Fiz vários cursos, todos na área de qualidade: gestão de qualidade e produtividade, qualidade de produtos e por aí vai. Batalhei pelo diploma universitário, mas os cursos gratuitos impulsionaram minha carreira: no quarto ano, comecei a trabalhar com qualidade num hospital, justamente o que eu queria! Nessa época, chegava à 1 h da madrugada em casa e acordava às 4h30. Nem sei como aguentei! Quando me formei, em 2005, já era gerente de qualidade. Virei o orgulho de casa, com o primeiro diploma universitário na família e exemplo para a minha irmã! Meu pai, que não botava uma fé no meu sonho, até chorou na formatura! Depois disso, meu salário só subiu e nunca parei de estudar. Fiz quatro pós-graduações completas, passei por três empregos e tive um alto cargo num grande laboratório: fui coordenadora de qualidade e meu salário chegou a R$ 5.400! Quem diria: eu, que já fui chamada de “a pobretona de Pirituba”, estou no auge! Há dois anos comecei a estudar medicina veterinária, me formo em 2018!

Do beliche para a king size

Além dos meus diplomas, conquistei minha independência. Moro sozinha numa casa de três quartos com suíte num condomínio de classe média. Tenho meu carro zero e vivo em restaurantes, shows e rodeios. Também comprei um apartamento duplex na cobertura! Quando penso no meu passado, no beliche da cozinha, não fico triste. Ser pobre não é vergonha. Vergonha é não querer mudar, né? Agora só me falta um homem lindo e gostoso para dividir todo esse espaço na minha cama king size!

Evelyn Golin, 40 anos, coordenadora de qualidade, Sorocaba, SP



DA REDAÇÃO

Cursos mostram iniciativa! 

Investir em cursos gratuitos de curta duração como os que a Evelyn fez deixa o currículo do profissional muito mais atraente na hora de procurar emprego. Segundo o diretor de educação da ABrh-Nacional (Associação Brasileira de recursos humanos), Luiz Edmundo Rosa, um currículo cheio de cursos mostra iniciativa. “Atitude e iniciativa são pontos bem avaliados pela empresa”, explica. E mais: de acordo com o especialista, as empresas sabem que os cursos completam a lacuna entre o que se aprende na universidade e o que o mercado exige do trabalhador. “Cursos atualizam o aluno e o colocam na frente no mercado de trabalho”, diz Tatiana Pina, da consultoria de recursos humanos do Grupo DMrh. O ideal é que, pelo menos uma vez ao ano, você busque cursos de seu interesse.

 

Estude on-line

“A educação está muito mais acessível por causa da internet”, diz Luiz. Isso significa que, além de pesquisar quais órgãos públicos e instituições da sua cidade estão com inscrições abertas, você pode fazer cursos on-line e poupar tempo e deslocamento. “Tem que ir atrás, porque muitos cursos gratuitos têm pouca divulgação”, explica Tatiana. os especialistas afirmam que a boa pesquisa é o segundo item que uma empresa avalia na contratação. “É a qualidade das escolhas”, completa Luiz.

 

Acompanhe a oferta de cursos gratuitos presenciais e à distância pela internet:

➜ Acesse a área de cursos e oficinas do portal da sua cidade e da capital do estado.

➜ Verifique sites de ONGs ligadas à educação ou à sua área de preferência.

➜ Fique sempre de olho no Sebrae (www.sebrae.com.br), Senac (www.senac.br) e Senai (www.senai.br).

➜ O site Catraca Livre (catracalivre.com.br) informa oportunidades de estudo em 13 capitais do País.

➜ Pesquise os sites ligados às universidades, como o Veduca (veduca.com.br) e o E-Aulas (eaulas.usp.br), da USP, o Open Course Ware (ocw.unicamp.br) e o E-Unicamp (ggte.unicamp.br), o Unesp Aberta (unesp.br/unespaberta) e a página da FGV (www5.fgv.br/fgvonline/cursos/Gratuitos)

➜ se você fala inglês, vale se inscrever em cursos de universidades estrangeiras, como Coursera (coursera.org), EDX (edx.org) e MIT Open Course Ware (ocw.mit.edu).

07/11/2016 - 10:30

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