Perdi o bico do seio em uma cirurgia

Após uma dieta em que emagreci 44 kg, quis mudar o visual das minhas mamas. Sofri complicações na plástica e fiquei mutilada.

Reportagem: Leo Branco (com colaboração de Luiza Schiff)

 Tinha perdido minha identidade feminina | <i>Crédito: Redação Sou Mais Eu
Tinha perdido minha identidade feminina | Crédito: Redação Sou Mais Eu
Um mês depois da operação que deveria modelar meus seios, recebi a notícia: precisaria voltar para a mesa cirúrgica. Eu iria perder o bico do meu seio esquerdo por causa de uma necrose, espécie de morte das células do local. Onde deveria haver pele, surgiu uma casca preta, como uma ferida em cicatrização. Fiquei sem chão. O médico que me operou pediu para eu ficar tranquila, porque ele tinha experiência nesse tipo de cirurgia, comum entre pacientes de câncer de mama. Mas eu era saudável e não deveria estar passando por aquilo. Percebi que minha situação era grave. 

Eu estava magra e queria seios bonitos 
Sofri com o sobrepeso por dez anos. Cheguei aos 100 kg por conta da alimentação desregrada. Em 2005 comecei a fazer reeducação alimentar e perdi 44 kg. Estava supercontente com o meu corpo. Para completar minha volta por cima, decidi mudar o formato dos seios. Eles eram voltados para baixo, pareciam duas bananas. Minha ideia era levantá-los, para que parecessem tacinhas. Pelo que me falaram da cirurgia, não seria necessário retirar a pele do local, apenas trocar os bicos de lugar. A reeducação alimentar coincidiu com a minha ida para Irlanda, onde eu fui estudar inglês naquele mesmo ano. Voltei ao Brasil em dezembro, para resolver algumas pendências antes de fixar residência na Europa. Por exemplo, tirei as pedras que tinha na vesícula na primeira semana de janeiro de 2016. Tudo ocorreu bem nessa cirurgia. 
Como eu tinha apenas dois meses para ficar no Brasil sem perder meu visto irlandês, resolvi aproveitar para remodelar os seios e viajar sarada. Uma amiga indicou uma agência que intermediava pacientes e cirurgiões plásticos. Naquele mês de janeiro, ela havia feito uma lipoaspiração por essa empresa, com o mesmo médico, e tudo ocorreu bem. Fiquei segura. Paguei R$ 3 mil e marquei a cirurgia para última semana do mês. Me diziam que eu ficaria com pontos por uma semana e, em 15 dias, estaria livre para viajar a Irlanda, onde terminaria o curso. 

O tempo passava e eu não melhorava
Ao acordar da operação, estranhei a cor do bico do seio esquerdo. Estava preto. Fui liberada da clínica na manhã do dia seguinte, mas estava insegura. O médico disse que eu não poderia fumar por 15 dias. Apesar de ser fumante, respeitei a ordem. A cor do bico deveria se normalizar quando eu tirasse os pontos. Quase morri de dor quando o médico fez isso, uma semana após a cirurgia. Olhei meus seios sem os pontos no espelho. A pele estava enrugada, com cicatrizes enormes e a casca preta. O médico se prontificou a me acompanhar por quanto tempo fosse necessário. Fui encontrá-lo três vezes por semana durante um mês. Mas a situação não melhorava, e eu já aflita com a possibilidade de não voltar a tempo para o curso na Irlanda. 

Perdi uma parte da minha feminilidade 
Quando o médico disse que tiraria o bico do meu peito, decidi fazer o que não tinha feito antes: procurar informação sobre essa cirurgia em outras fontes. Mostrei as cicatrizes para minha ginecologista, que confirmou: a situação era muito grave. Ela me indicou uma especialista em câncer de mama. Fui e ele me disse que a irrigação de sangue para a aréola, área em volta do bico, havia sido interrompida. Aquele tecido não tinha mais vida. 
A saída era tirar o bico do seio mesmo. Eu poderia realizar o procedimento de graça pelo SUS, mas teria que entrar numa fila de espera de mais de um mês. Aí, teria que dar adeus ao meu curso. Procurei médicos de convênios particulares, mas eles tinham receio de operar em cima de outra cirurgia e serem mais tarde acusados de ter causado aquele problema. Aceitei fazer outra operação com o mesmo médico. Ele me prometeu reconstruir o bico do seio e fazer uma tatuagem para simular minha aréola. Quando acordei da segunda cirurgia, levei um choque ainda maior. Eu não tinha mais bico nem aréola. Minha mama estava fechada. Eu não poderia mais amamentar. Tinha perdido minha identidade feminina. Minha felicidade com o meu corpo era parte do passado. Sofri muito. 

Comecei a dar dicas para quem ia operar
Voltei para a Europa em choque. Antes, fiz um boletim de ocorrência e movi um processo contra o médico na justiça. Em 2006, pedi R$105 mil de indenização pelos gastos com remédios e terapia. Neste ano, fui fotografada pelo perito judicial. Só ele poderá dizer se sofri um erro médico. Além da justiça, procurei apoio na internet. Criei uma comunidade no Orkut na época, chamada, “Paguei pra ser mutilada”, onde contava minha história e dava dicas do que fazer antes de uma cirurgia plástica. Não levei o “grupo de apoio” para frente porque comecei a ser ameaça de morte na internet. Não tenho medo porque moro fora do Brasil, mas fiquei com medo de fazerem algo com a minha família. 
Mas eu recomendo sempre checar se o médico está inscrito na Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e no Conselho Regional de Medicina (CRM). A partir do número de CRM, é possível saber onde o médico atua e se tem processos na Justiça. A recomendação mais importante é aguardar para fazer a cirurgia e acompanhar o trabalho do médico escolhido. Depois de 10 anos, em 2016, uma nova vitória. Ganhei na justiça em primeira e segunda instância e terminei de receber uma indenização de 80 mil reais. Além disso, fiz uma cirurgia de reconstrução do seio que curou todo esse pesadelo. É um procedimento complicado que envolve riscos, como a rejeição do implante, mas deu tudo certo. Antes disso, não deixava meu marido me olhar sem sutiã. Também tinha desistido de fazer academia por medo de que outras mulheres perceberem que eu era mutilada. Tomava banho sempre sozinha por vergonha. Era uma provocação diária, mas hoje posso dizer que superei! 


Aline Cristina Forde, 36 anos, estudante, São Bernardo do Campo, SP 

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26/05/2017 - 17:31

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