O motor do barco arrancou o meu couro cabeludo

Quis morrer, mas superei a depressão e hoje luto pelas vítimas desse tipo de acidente.

Reportagem: Raquel Bocato (com colaboração de Luiza Schiff)

Consegui entender e superar minha condição! | <i>Crédito: Redação Sou mais Eu
Consegui entender e superar minha condição! | Crédito: Redação Sou mais Eu

Escutei meu irmão perguntar aflito o que havia acontecido. Abri os olhos, mas não enxerguei nada. Zonza, levei a mão à cabeça, que parecia pegar fogo de tão quente. Senti sangue escorrer pelos meus ombros e braços. Então, lembrei: estava no barco, voltando da casa de um parente, quando adormeci. Meu pé deslizou, tombei em cima do eixo do motor da embarcação e... Meu pensamento foi interrompido pela voz do meu irmão, que mais uma vez perguntava o que havia acontecido. "O motor arrancou o cabelo da sua irmã", ouvi papai dizer.

Foram 14 meses de tratamento

Estávamos no interior do Pará. A capital mais próxima e com socorro médico capaz de me ajudar era Macapá, no Amapá. Eu e meus pais levamos seis horas de barco até lá. Sem medicação nem curativo algum, eu me desesperava de dor. Tinha deslocado a perna e sido escalpelada quando meu cabelo enroscou no eixo do motor (veja quadro), perdendo toda a pele da cabeça, da nuca até as sobrancelhas.

"E agora, como vou aparecer perto das pessoas?!", pensava, deitada no chão da embarcação. Apesar de só ter estudado até a 4ª série do ensino fundamental, eu era professora de alfabetização. Não queria que meus alunos e colegas de profissão me vissem sem cabelo. Nem meus pais, meus amigos, meu namorado... Era 1997, eu tinha 20 anos e sentia que minha vida tinha chegado ao fim.

Passei dois meses e cinco dias internada. Meus pais ficaram comigo até a alta. Depois, tiveram de retomar a vida no Pará e me deixaram em Macapá, na casa de parentes, onde por um ano me submeti ao seguinte tratamento: tirar pele da coxa para colocar na cabeça, pouco a pouco, até cobri-la todinha. Nesse período, chorei, entrei em depressão, desisti de trabalhar e até de ser mulher. Abandonada pelo namoradinho da época, aceitei a ideia de que deveria ficar com o primeiro homem que aparecesse, pois achava que eu jamais teria novamente o direito de escolher um amor.

Quando a cicatrização finalmente terminou, não queria voltar para casa. Sem cabelo e sobrancelhas, me sentia um monstro. Vivia de chapéu porque não tinha dinheiro para comprar uma peruca. Meu único desejo era me manter o mais longe possível das pessoas que conhecia. Por isso, resolvi me mudar para um pequeno município do Amapá chamado Porto Grande, onde seria uma completa estranha.

Lá, minha vida começou a mudar. Eu ainda estava deprimida, mas conheci uma enfermeira chamada Elma, um verdadeiro anjo para mim. Além de me dar teto e comida, ela me incentivou a voltar a estudar. No início, me levava e trazia de carro da escola! Aquela convivência com os colegas e professores foi fundamental para que eu começasse a me aceitar.

Não me empregavam nem como lavadora de prato

Concluí o ensino fundamental e em 2002, mesmo ainda não estando bem comigo, voltei para Macapá. Queria estudar mais, trabalhar, tocar minha vida. Só não imaginava que ia ser tão complicado e até doloroso achar emprego... Lembro de uma entrevista que fiz para auxiliar de cozinha. Minha tarefa seria cortar alimentos e lavar louça. O psicólogo começou a me questionar sobre o escalpelamento. Ele cismou que eu havia batido a cabeça no acidente. Mas não. Ele insistia. Eu negava - o meu cabelo havia sido arrancado e só. Até que ele me perguntou como a empresa deveria reagir se eu caísse de cabeça na panela! Fiquei sem resposta. Muda mesmo. Aquele questionamento não tinha o menor sentido. Era discriminação pura, com generosas pitadas de maldade. Perdi totalmente a vontade de voltar a estudar. Tirar diploma para quê, se eu não tinha chance nem de lavar pratos?

Mas a vida é engraçada e justamente nessa fase conheci uma família maravilhosa, que me contratou como babá por um ano. Fui tratada com toda a dignidade e conheci um homem numa festa da cidade. Nem estava apaixonada, mas, como achava que não era digna de escolher, fiquei com ele. Sete meses depois, ele começou a falar que sentia vergonha de mim e que tinha ficado comigo por pena. Sem saber que estava grávida de três meses, terminei tudo. Sozinha, tive minha menina, a Rosângela. E finalmente comecei a voltar a viver!

O nascimento da minha filha me devolveu a vontade de viver

Ver aquele bebê me dava alegria - sentimento que eu havia esquecido - e força. Voltei a estudar e concluí o ensino médio. Mais confiante em mim mesma, consegui virar até vendedora de uma loja de lingerie.

Então, em 2007, um novo acontecimento veio me reerguer ainda mais. Passei a conviver com outras mulheres escalpeladas. Conheci casos bem graves, de gente que perdeu a visão, as orelhas... No começo, éramos seis e nos encontrávamos no quintal da casa de uma delas. Ali, dividíamos nossas dores, nos apoiávamos.

Cada vez chegavam mais mulheres e fomos descobrindo que podíamos lutar por indenizações, apoio às vítimas e melhores condições no transporte, para evitar novos acidentes! Decidimos montar a Associação de Mulheres Ribeirinhas e Vítimas de Escalpelamento da Amazônia (AMRVEA), da qual sou presidente. Lá, explicamos, por exemplo, como proceder para receber o DPEM, um seguro obrigatório no valor de R$ 13.500 pago a pessoas que sofreram acidentes em embarcações. Recebi o meu em 2010!

Além do apoio e orientação legal, oferecemos perucas aos 123 associados (homens e mulheres de todas as idades). Nós fazemos e ensinamos a fazê-las. Nossa maior vitória até agora? Uma lei federal sancionada em 2009 que obriga os barcos a ter proteção de eixo, motor e hélice. Ah, e em 2011 o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e a Defensoria Pública da União garantiram pensão de um salário mínimo para vítimas de escalpelamento enquanto elas estiverem incapacitadas de trabalhar pelo acidente.

Continuo com todos os meus planos! Consegui me formar em pedagogia em 2015, foi uma vitória! Sonho em montar um instituto para cuidar dos filhos das mulheres vítimas de escalpelamento.

Mas o melhor é que consegui me aceitar. Não me acho mais um monstro nem tenho vergonha de sair ou de dançar. Tenho direito de viver como qualquer pessoa, inclusive de amar o meu marido, que conheci lá na associação. Ele também sofreu um acidente num barco e teve parte do rosto atingida. Juntos, tivemos Davi Lucas, que está com 4 anos e, ao lado da Rosângela, hoje com 14 anos, me inspira a renascer. Sempre.

Da redação

Vítimas se concentram na Região Norte

Para milhares de pessoas na Região Norte, o único meio de locomoção é o barco. Como os assentos dos passageiros são ao lado do motor, é comum os cabelos se enroscarem no eixo dele, causando a mutilação. Uma lei federal, sancionada em 2009, obriga que todas as embarcações tenham proteção no eixo, no motor e na hélice. Aqueles que descumprem essa norma estão sujeitos a advertência, multa e apreensão do barco até sua total regularização.

Mutirão de plásticas gratuitas

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica organiza mutirões de médicos para tratar de graça vítimas de escalpelamento. Elas recebem prótese para esticar a pele da cabeça, reconstrução de orelhas ou de outras áreas atingidas pelo acidente. O mutirão retornará a Macapá até junho. Interessadas devem procurar a Secretaria de Saúde do Governo do Estado do Amapá.

Como acontece o acidente

Os passageiros se sentam de frente para o eixo giratório, que fica no meio do barco. Quando se inclinam para conversar ou cochilam com a cabeça apoiada nos joelhos, seus cabelos acabam enganchando no eixo que, fortíssimo, arranca o couro cabeludo.

Precaução

Desde 2009, uma lei federal que obriga o uso de proteção de eixo, motor e hélice de barcos foi sancionada,

Rosinete Rodrigues Serrão, 39 anos, pedagoga, Macapá, AP

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19/06/2017 - 19:40

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