O formol da progressiva matou a minha amiga

Andrea inventou uma receita caseira com concentrações da substância muito superiores ao limite previsto por lei e morreu intoxicada

Reportagem: Leo Branco (com colaboração de Carolina Almeida)

Andrea inventou uma receita caseira com concentrações da substância muito superiores ao limite previsto por lei. Ela acabou intoxicada. Sua história serve de alerta | <i>Crédito: Redação Sou Mais Eu
Andrea inventou uma receita caseira com concentrações da substância muito superiores ao limite previsto por lei. Ela acabou intoxicada. Sua história serve de alerta | Crédito: Redação Sou Mais Eu

Primeiro, a Andrea lavava o cabelo da cliente. Depois, pincelava a progressiva nos fios. Fazia com cuidado, alisando mecha por mecha. Aí, esperava o produto agir por cinco minutos e secava. Como a maioria das clientes tinha o cabelo rebelde, Andrea gastava até uma hora e 40 minutos nessa fase. Ela nunca usou máscaras. A escova podia acabar aí. Mas Andrea lavava e secava de novo o cabelo da cliente para garantir o alisamento. Minha amiga levava até quatro horas para fazer uma progressiva. Era o procedimento mais pedido no salão de beleza que abrimos em julho de 2007 e fechamos seis meses depois. Antes disso, Andrea fez progressivas por um ano e meio. Durante a semana, ela fazia até três escovas. Às sextas e sábados, eram três por dia. Era comum vê-la no salão das 8 h da manhã até a meia-noite. Se trabalhasse conforme as normas, usando alisadores com até 0,2% de formol, minha amiga sairia dessa maratona apenas cansada. Mas não era isso que acontecia. Andrea fazia uma receita caseira de progressiva com uma quantidade de formol que excedia em até 45 vezes o limite estabelecido por lei. E apresentava sintomas como tosse, coriza e dores pelo corpo. Achei que fosse apenas uma gripe prolongada e insisti para ela ir ao médico. Andrea se recusava, sem imaginar o risco que corria. Ela estava intoxicada pelo formol da escova progressiva. Essa foi uma das causas da morte dela, em 28 de fevereiro de 2008, após dois meses de internação. Andrea tinha três filhos e apenas 31 anos. O choque de perder uma amiga tão jovem de maneira trágica me fez desistir de ser cabeleireira. A história dela é um alerta: existem muitas profissionais que desconhecem os efeitos tóxicos do formol. Se eu soubesse disso naquela época, teria feito de tudo para impedir. Conheci a Andrea três anos antes de sua morte, numa escola de cabeleireiros. Tínhamos afinidades: morávamos próximas, éramos casadas e com filhos. Queríamos começar uma carreira de sucesso. Nosso sonho era abrir um salão de beleza. Eu não tinha experiência como cabeleireira. Mesmo sem formação, Andrea já tinha o costume de cuidar do cabelo das vizinhas. E tinha talento para aprender tudo só de olhar. Certa vez, ela nos arranjou um estágio num salão de beleza. Para isso, mentiu dizendo que fazíamos corte masculino. Tive medo dessa inexperiência causar problemas. Mas, no primeiro dia, Andrea prestou atenção ao corte que outra cabeleireira fez em um rapaz e imitou muito bem no cliente seguinte. Foi nesse salão que ela ouviu falar das progressivas. Andrea percebia o enorme interesse pelo produto e queria lucrar com isso. Viu uma cabeleireira fazer uma aplicação e assimilou o passo a passo. O problema era o produto alisador. O salão comprava de uma marca dentro da lei, que custava R$ 450, mas surtia pouco efeito em cabelos muito rebeldes. Mas Andrea arranjou um jeitinho de contornar isso.

 Eu achava normal a receita caseira dela

Certo dia, ela me contou que comprou um pote de formol puro com um amigo. Andrea misturou o produto com queratina e com uma essência de frutas para eliminar o cheiro exalado quando ele é aquecido. Na receita dela, cada litro de progressiva continha até 90 ml de formol. O máximo permitido pela lei nesse caso é 2 ml. Ela me disse que havia aplicado a progressiva numa vizinha e que o resultado tinha sido ótimo. Eu era muito ingênua. Nem questionei se a receita caseira estava correta. Ela pedia para as clientes colocarem uma toalha molhada no rosto para evitar o cheiro forte. Eu achava tudo muito normal. Antes de terminar o curso, abrimos o salão. Como eu era inexperiente, fiquei com os penteados. Andrea encarava as progressivas. Eu não tinha acesso aos produtos que ela usava nas aplicações, mas acompanhava o lucro. Minha sócia cobrava entre R$ 80 e R$ 120 pela progressiva e se enchia de orgulho do retorno que recebia. Com esse dinheiro, ela podia ir a eventos para crescer na profissão e ajudar o marido em casa. O que Andrea escondia era o estado da sua saúde. Já na inauguração do salão percebi que algo estava errado. Andrea ficou sem ar após subir uma escada. Ela sentia fraqueza e dores no corpo, principalmente nas costas. O nariz dela começou a escorrer tanto que lenço algum dava jeito. Depois, vieram os dias de gripe e febre alta. Andrea se automedicava com pastilhas para a garganta e, nos dias de febre, tomava injeções de antibióticos em farmácias, sem receita médica. Mesmo mal de saúde, ela manteve as progressivas. No início de novembro, Andrea me ligou. Não ia trabalhar. Não conseguia sequer levantar da cama, de tanta dor. O médico disse que ela estava com pneumonia. Depois de dois dias internada, minha amiga voltou para casa. Mas a saúde dela foi piorando. Andrea passou a sentir falta de ar ao fazer movimentos simples, como levantar de uma cadeira. Ela tentou voltar a trabalhar, mas não conseguiu. Em 28 de dezembro, Andrea voltou para o hospital. E não saiu mais. Os médicos pediram novos exames. Os dois pulmões da minha amiga estavam com manchas negras. O caso era grave. Certo dia, Andrea comentou com uma enfermeira que era cabeleireira. Aí, os médicos levantaram a hipótese de que a receita caseira de progressiva poderia ter causado a pneumonia.

Depois de ver Andrea na UTI, desisti da profissão

Conversei com um dos médicos. Ele disse que a pneumonia tinha comprometido os pulmões dela e, caso saísse do hospital, Andrea precisaria usar aparelhos para respirar. Para sempre. Nunca mais poderia trabalhar como cabeleireira. Perdi o chão. Jamais imaginei que as progressivas pudessem causar tantos problemas. E eu estava tão alegre naquele dia... Tinha até comprado uma televisão para o salão. Achei que a internação dela fosse temporária. Após o diagnóstico, desisti de ser cabeleireira. Não queria correr o risco de ter o mesmo fim. Andrea morreu de uma insuficiência de órgãos causada pela pneumonia. Naquele 28 de fevereiro, eu comemorava meu aniversário de 29 anos. Passei a data no velório. A morte dela ainda me revolta. Vendi todo o equipamento do salão e ainda tenho dívidas por causa dele. Estou tentando pagá-las com meu salário de auxiliar administrativo. Cuido do meu cabelo com outras profissionais. Às vezes faço progressivas, mas só uso produtos autorizados.

Sueli Leodoro da Silva, 40 anos, auxiliar administrativo, São Paulo, SP

DA REDAÇÃO

O formol causa a irritação das veias e favorece as infecções que levam à morte!

A exposição ao formol em concentrações superiores ao limite permitido e por longos períodos é perigosa porque irrita e causa feridas nas vias respiratórias. “Ele dissolve as proteínas que formam o corpo humano. No cabelo, causa o alisamento. Nas vias respiratórias, pode provocar inflamações no nariz e órgãos próximos e chegar até o pulmão”, explica o pneumologista Tito Neri. Os sintomas são tosse, falta de ar e catarro. Mas o problema vai além. “O formol torna as vias aéreas mais vulneráveis à ação de bactérias e vírus que causam doenças infecciosas. Estas, por sua vez, podem levar à morte”, afirma o pneumologista Ericson Bagatin. A exposição ao formol pode transformar uma simples gripe em um problema mais grave, como uma pneumonia. Outros problemas relacionados ao produto são irritações na pele, danos à visão e até câncer na boca, narinas, pulmão, sangue e cabeça. Por causa dos riscos de intoxicação, a venda do formol foi proibida em 2009 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Criar uma receita caseira de progressiva com formol é crime e pode até resultar em prisão. “O cabeleireiro pode usar apenas produtos de fabricantes registrados pela Vigilância Sanitária, que levam até 0,2% de formol na composição. Essa concentração não causa problemas à saúde do profissional”, revela Marta Macedo, gerente-geral de cosméticos da Anvisa.

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08/05/2017 - 12:18

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