O crochê me salvou da depressão

Agulhas e linhas resgataram minha vontade de viver depois que quase perdi o movimento das pernas

Reportagem: Letícia Gerola

Tirei a poeira das agulhas, comprei bastante linha e me joguei no crochê | <i>Crédito: Arquivo Pessoal/Redação Sou Mais Eu
Tirei a poeira das agulhas, comprei bastante linha e me joguei no crochê | Crédito: Arquivo Pessoal/Redação Sou Mais Eu

Começou com uma cirurgia para retirar o apêndice quando eu tinha apenas 25 anos. O danado me dava dores terríveis, não conseguia nem dormir sem sofrer! Mal sabia eu que aquela seria a primeira de outras doze operações: fiz cirurgia na vesícula, no canal do reto (duas vezes) operei o intestino, retirei excesso de pele quando emagreci... Uma tarde, em 2012, abaixei para amarrar o tênis e não consegui mais me levantar. Minha coluna tinha travado. Cheguei ao médico toda torta, sem conseguir andar. Descobri que já tinha várias hérnias e uma delas comprimia meu nervo ciático, causando dores absurdas. Precisei tomar quatro analgésicos para pensar em sair da cama. Lá fui eu pra minha 12ª cirurgia. Só encarei o leito de novo para não perder o movimento das pernas. Implantei um neuroestimulador na coluna que me permitiu andar novamente – mas a dor não me abandonou por anos. E ainda trouxe de companhia uma amiga nada agradável: a depressão.

Vivi seis meses sem sorrir

Sou casada com o Jorge há 25 anos. Meu esposo é supervisor de petshop e foi ele quem segurou as pontas em casa quando precisei parar de trabalhar. Minhas hérnias na coluna não têm cura, apenas tratamentos que aliviam os sintomas – fiz inúmeras infiltrações na coluna para diminuir as dores, sem sucesso. Foi sair da cirurgia para entrar em depressão logo em seguida. Cheguei a ficar seis meses sem querer sair da cama, sem sorrir pra ninguém. Eu era operadora de telemarketing com uma vida ativa, saía sempre pra jantar com meu marido e minha filha... Como eu ia fazer tudo isso com aquelas pontadas insuportáveis me aporrinhando?! Viver com qualquer dor já é difícil, mas viver com uma dor física todos os dias da vida é praticamente impossível. Tive crise de pânico e medo de sair na rua, as pontadas me acompanhavam pra cima e pra baixo. Só consegui deixar de pensar nelas quando enxerguei uma companhia mais agradável bem pertinho de mim.

Comprei linha e tirei a poeira das agulhas

Não aguentava mais viver daquele jeito, precisava me distrair das dores. Resolvi resgatar um hábito antigo que cultivava desde pequena: o crochê. Sempre gostei muito, mas a vida corrida do telemarketing, tinha me forçado a parar. Conversei com meu médico e ele adorou a ideia, apenas pediu para que eu praticasse um pouco sentada e um pouco em pé, intercalando as posições para não forçar. Tirei a poeira das agulhas, comprei bastante linha e me joguei no crochê; fui fazendo um pouquinho todos os dias e postando minhas peças no Facebook. Nunca fiz pra vender, fiz como terapia, era algo pra tirar minha cabeça das dores. O que eu não imaginava é que minhas peças fariam tanto sucesso na internet e me levariam pro mundo das blogueiras!

Virei YouTuber de crochê

Postava fotos e os comentários bombavam com pessoas querendo comprar e outras a fim de aprender a fazer. Diante daquele sucesso, a empresa Têxtil São João me ofereceu uma parceria: eu teria um programa semanal no YouTube e ministraria workshops nas unidades das lojas. Hoje tenho meu canal com as aulas e sou uma YouTuber de sucesso, adoro ensinar. Minha página do Facebook passou de 100 mil curtidas e meu canal online, o Crochê com Keilla, já tem quase 1 milhão de visualizações.

Eu estava em uma situação tão degradante que não conseguia sair da cama. Era como se o mundo não tivesse mais cores, fosse tudo preto e branco. Sem graça, sem sal, sem vida. Graças ao artesanato consegui atravessar os dias de dor com alegria; o crochê me fez esquecer o mundo sem cor, deixei ele lá fora. Também recuperei vida ativa da qual tanto gostava: gravo meu programa, demonstro produtos nas lojas, ministro workshops e ensino outras pessoas sobre o maravilhoso mundo do crochê. Acredite: ele salva vidas!

Keilla Spano, 40 anos, artesã, São Paulo, SP

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21/02/2017 - 18:08

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