Não gosto de fazer sexo e sou muito feliz assim!

Curto namorar e me relacionar, mas sem beijo nem transa. Sou assexual e muito bem resolvida!

Reportagem: Thaís Helena Amaral (com colaboração de Luiza Schiff)

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"Sei que sou perfeitamente normal e que não há nada de errado com meu corpo nem com minha cabeça!" | Crédito: Redação Sou Mais Eu
Quando comecei a ler mais um dos romances espíritas que adoro, não imaginava que o livro ia mudar minha vida para sempre. É que na história havia uma personagem com quem me identifiquei muito. Era uma mulher assexual, ou seja, que não sentia vontade de fazer sexo com outras pessoas. E isso não era nenhum problema para ela. Aquilo mexeu profundamente comigo, pois eu já estava com 30 anos e, apesar de já ter uma filha, também nunca tinha sentido vontade de transar. Pensei: “Quer dizer então que existem outras pessoas como eu?”

Me sentia vazia depois do sexo
Nunca tinha ouvido falar em assexualidade antes daquele livro. Mas bastou conhecer o termo para ter certeza de que eu era assexual. Desde adolescente, quando minhas amigas começaram a arranjar namorados, eu não sentia a menor vontade de ter um. Meu primeiro beijo, aos 14 anos, foi esquisito. Não me sentia confortável beijando um homem na boca. 
Cheguei a me abrir com as mães das minhas amigas, mas elas diziam que eu ainda era muito nova e que ia acabar sentindo tesão quando crescesse um pouco mais. Mas nada mudou. Quando completei 16 anos, parei de falar sobre o assunto com meus conhecidos e resolvi guardar meus questionamentos para mim. 
Até que, aos 19 anos, me apaixonei por um rapaz. Eu gostava muito de abraçá-lo, de dar e receber carinho, mas não sentia vontade de transar. Só que ele tinha muita vontade e eu acabei perdendo a virgindade. Foi uma sensação muito ruim, pois depois do sexo eu me sentia vazia. Mas, como eu tinha ido morar com ele, achava que era assim que tinha que ser. Cedia ao sexo para agradar-lhe praticamente todos os dias. Mas não tinha prazer nem orgasmo!

Meu ex achava que eu tinha outro
Minha falta de interesse por sexo incomodava muito meu companheiro. Como eu não o procurava para transar, ele começou a achar que eu tinha outro homem. Mesmo assim, acabei engravidando da Sara aos 20 anos. Tive minha filha e, no ano seguinte, terminamos o relacionamento. 
Voltei a morar na casa dos meus pais e acabei focando minha vida no trabalho e na criação da minha filha. Nunca mais tive outro relacionamento. Eu até sentia falta de ter alguém ao meu lado, mas não de transar. Procurei psiquiatras para tentar entender o que havia de errado comigo e cada um me diagnosticava com um transtorno diferente. Comecei a tomar antidepressivos, mas não comentava com ninguém sobre meu problema porque achava que a sociedade me julgaria. É difícil ser diferente e assumir que você não gosta de uma coisa que todo mundo acha maravilhoso. 
Por isso, quando li o livro que tinha uma personagem assexual, em 2010, me reconheci nela logo de cara. Foi um baita alívio finalmente entender que eu não precisava ser como as outras pessoas e ter vontade de fazer sexo. Podia me aceitar como era, pois não tinha nada de errado em ser assexual. 
A partir daí, percebi que eu precisava me conhecer melhor e entender meus limites. Decidi que nem ia pesquisar mais sobre o assunto para que a pesquisa não me limitasse. 
Contei para meus amigos e colegas de trabalho mais próximos sobre minha assexualidade e eles aceitaram bem. É claro que, no início, todo mundo acha um pouco estranho, mas depois percebem que é sério e compreendem. Algumas pessoas acham que só não gosto de sexo porque ainda não encontrei um homem com pegada. Vê se pode! Argumento que não preciso ficar fazendo sexo para saber que não gosto. E pergunto se eles precisaram transar com pessoas do mesmo sexo para saber que são heterossexuais.

Minha filha me aceita como sou
Para minha família, só contei sobre minha assexualidade no início de 2014. Eles entenderam e respeitaram. Até minha filha, que tem 16 anos, já se acostumou com a ideia de eu ser assexual. Ela não vê problema nenhum! Nessa mesma época, entrei para a comunidade A2 na internet, voltada para gente como eu. Foi muito bom conversar com essas pessoas e entender melhor que isso não é nenhuma doença.
Na comunidade, descobri que existem muitos tipos de assexuais. Eu me encaixo no grupo de assexuais românticos, aqueles que, mesmo sem ter interesse por sexo, se apaixonam e sentem necessidade de ter um relacionamento amoroso. Tanto que namorei um cara por quatro meses no final de 2013. Avisei desde o início que era assexual e ele disse que compreendia e que a gente daria um jeito. Só que, no fundo, acho que ele ainda esperava que eu acabasse tomando gosto pela coisa, sabe?
 E eu até cedi e fiz sexo com ele algumas vezes. Mas não tem jeito: não me sinto bem e não tenho vontade. E, para uma pessoa que gosta de sexo, também não é fácil estar em um relacionamento assim, né? Por isso, quando ele terminou comigo, em janeiro de 2014, fiquei chateada, mas compreendi. Meu ex não disse que foi por causa da questão sexual, mas tenho certeza de que isso pesou bastante. Foi melhor assim. 

Vou ter um segundo filho 
Já fui moderadora da comunidade A2 e ajudei a manter o espaço organizado para as discussões. Por mais que meus amigos me aceitem como sou, esse contato que tive com pessoas assexuais é muito mais profundo e importante para mim. Me sinto bem e me aceito como sou. Em 2016, comecei a namorar, estou grávida de um menino e estou muito feliz! Sei que sou perfeitamente normal e que não há nada de errado com meu corpo nem com minha cabeça. É muito bom não precisar esconder minha condição de ninguém!

Claudia Kawabata, 37 anos, orçamentista gráfica, São Paulo, SP

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31/05/2017 - 18:45

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