Minha mãe tentou matar meu bebê na minha barriga

Ela não queria que eu fosse feliz: me explorava, maltratava e tentava me prostituir

Reportagem: Stephanie Celentano (com colaboração de Letícia Gerola)

Eu com minha filha logo após seu nascimento em 1983 e nós duas juntas há pouco tempo. Ela é meu maior tesouro! | <i>Crédito: Arquivo pessoal/Redação Sou Mais Eu
Eu com minha filha logo após seu nascimento em 1983 e nós duas juntas há pouco tempo. Ela é meu maior tesouro! | Crédito: Arquivo pessoal/Redação Sou Mais Eu

Todo mundo sonha em ter uma família como as de propaganda de margarina. Todos sorrindo no café da manhã, suco de laranja na mesa e a felicidade estampada no rosto. Mas, quando se nasce em um lar como o meu, não é possível nem sonhar e muito menos ser alegre. Meu querido pai morreu cedo porque era alcoólatra e minha mãe me maltratava desde que nasci. Ela deixava que seus amantes abusassem de mim dentro da nossa própria casa! Suportei todo tipo de dor e humilhação até que ela cometeu uma atrocidade imperdoável: quando fiquei grávida, aos 17 anos, mamãe tentou matar meu bebê com um facão! Depois desse dia, me dei conta de que precisava me afastar dela para tentar salvar o resto da minha vida. Desde então, venho reconstruindo minha história e me esforçando para quem sabe um dia voltar a sorrir.

Minha mãe deu uma facada na perna do meu pai

Sou filha única. Nasci e fui criada em um mundo de mentiras. Ainda na infância, lembro de estar com minha mãe na feira e um homem perguntar se ela já tinha me contado que eu era filha dele... Isso sem falar que meus pais viviam brigando. Quando eu tinha 9 anos, minha mãe chegou a dar uma facada na perna do meu pai por um motivo banal! Dias depois, ela pediu o divórcio e o colocou na rua. Ele acabou se entregando ao vício do álcool.

Eu passava fome enquanto ela comprava vestidos novos

Botar meu pai para fora de casa não foi um problema para minha mãe, até porque ela já tinha outro homem. Ele era um policial civil e, apesar de ser casado e ter filhos, passava muito tempo na minha casa. Minha mãe só tinha olhos para ele. Todo o dinheiro que meu pai dava para a pensão ia para ela e seu amante. Cheguei a passar fome enquanto ela comprava vestidos novos. Minha mãe só permitia que eu fosse à escola e mais nada. Ao chegar em casa, eu era obrigada a limpar cada canto, todos os dias. Não podia sair para brincar e muito menos ver TV. E ela me batia muito. Eu odiava viver ali. Uma vez, eu estava na cama de casal onde eu e minha mãe dormíamos e ela chegou com o policial. Os dois deitaram e começaram a se acariciar. Reclamei e ela me mandou virar o rosto. Eles tiveram a coragem de transar ali, comigo na cama! E a situação foi só piorando. Apesar de ter apenas 9 anos, eu já tinha menstruado e tinha um corpão formado. E aí minha mãe começou a me empurrar para os homens. Ela me estimulava a usar roupas curtas e decotes. Queria me prostituir. Eu me sentia um lixo. Só pensava em crescer logo para poder ajudar meu pai e sair daquela casa. Como se tudo isso não bastasse, o amante da minha mãe começou a aprontar comigo. Uma vez, ele abriu sua calça e mostrou seus órgãos genitais para mim. Dias depois, com uma arma apontada para a minha cabeça, começou a me tocar. Minha virgindade permaneceu intacta, mas ele abusava de mim. Morria de medo de contar para alguém, pois ele dizia que ia meter uma bala na minha cabeça se eu abrisse o bico.

Ela me pegou sendo abusada pelo seu amante e me expulsou de casa

Vivi assim até meus 13 anos. Durante a noite, minha mãe dormia com seu amante na cama enquanto eu passava frio em uma lona no chão da sala. Quando saía do quarto, o policial ainda tinha a cara de pau de me dizer que tinha gozado nela pensando em mim. Era nojento! E minha mãe não via nada, ou fingia que não via. Até que uma vez, minutos depois de sair para o trabalho, ela voltou para  pegar um documento que havia esquecido. Abriu a porta e viu o policial em cima de mim. Achei que seria a grande chance de ela ver o que estava acontecendo. Mas sua reação foi me expulsar de casa. Levei a maior surra e fui colocada para fora aos gritos de safada. Contei o que seu namorado fazia, mas ela não me ouvia. Nessa época, eu namorava escondido com um rapaz de 17 anos. Quando me vi na rua, sem ninguém, acabei indo para a casa dele. Fiquei três meses lá, até minha mãe descobrir que namorávamos. Tive que voltar para casa e ela fez de tudo para impedir nosso relacionamento. Quando fiz 16 anos, ela soube que eu havia perdido a virgindade com ele e o denunciou por sedução de menores. Ele tinha 20 anos e ficou preso por dois dias. Fui até a delegacia, declarei que fiz sexo consentido e o liberaram.

Engravidei e minha mãe queria que eu abortasse

Aos 17 anos, descobri que estava grávida. Fiquei feliz e ao mesmo tempo tensa, pois teria que encarar minha mãe. Acabei dando a notícia num quarto de hospital, pois na época o filho de 2 anos dela com o policial estava internado. Ela começou a me xingar de prostituta para baixo e a dizer que eu não teria aquele filho. Depois disso, o policial a abandonou e ela ficou possessa. Até que um dia, assim que entramos em casa, minha mãe me empurrou para dentro do quarto. Ela tinha um facão na mão e apontou em minha direção. Dizia que finalmente ia tirar o demônio de dentro de mim.
Consegui juntar forças para me atracar com ela e me defender. Comecei a gritar até que um vizinho ouviu e veio me socorrer. Graças à ajuda dele, consegui escapar pela janela e fugi para a casa do meu namorado. E, quando achei que a desgraça havia acabado, minha mãe deu parte na delegacia e, na mesma semana, meu namorado foi preso de novo. Ela alegou que eu estava grávida porque tinha sido estuprada. Fui obrigada a fazer exame de corpo de delito, que não deu em nada. Só que, enquanto estava no IML, ouvi minha mãe dizer ao médico para tirar meu filho. Fiquei revoltada: ela tinha feito tudo isso só para impedir minha gravidez!

Fui atropelada por um caminhão e meu bebê sobreviveu!

Quando estava com sete meses de gravidez, eu e meu namorado conseguimos nos casar. Minha mãe, claro, não quis assinar os papéis. Casamos só com a assinatura do meu pai. Fiquei muito feliz, mas não sabia que outro golpe da vida me esperava. Um dia, enquanto caminhava pela calçada, um caminhão engatou a marcha ré para entrar numa garagem e me pegou em cheio. Caí no chão com meu barrigão e apaguei. Acordei no hospital. A médica disse que foi um milagre não ter acontecido nada com a criança. Mais uma vez, meu bebê tinha escapado da morte!

Dois meses depois, a Aline veio ao mundo. Foi um momento mágico! Queria dar a ela tudo que não tive, ser uma mãe dedicada e amorosa. Por isso, me afastei da minha mãe e só mantive contato para saber como meu irmão estava. Dois anos depois, engravidei de novo. Durante a gestação, meu pai tomou chumbinho no hospital psiquiátrico em que estava internado e morreu. Fiquei desolada.

Tentei me suicidar engolindo chumbinho, como meu pai

O parto do meu segundo filho, o Thiago, em 1985, aconteceu normalmente e sempre o criei com muito amor. Meus maiores tesouros sempre foram meus filhos. Mas, apesar disso, eu vivia infeliz. Não conseguia superar a morte do meu pai e meu casamento de 25 anos estava desgastado. Nos separamos em 2004. Entrei em depressão e comecei a fazer tratamento psiquiátrico. Tentei me suicidar engolindo chumbinho e acabei entubada no hospital. Mas sobrevivi. Depois de passar por tudo que passei, fiz o possível para perdoar minha mãe e levar uma vida normal. Mas não conseguia. Nessa época, só me relacionava com ela por causa dos meus filhos, para que tivessem uma avó, mas vi que não tinha jeito. Com o dinheirinho que sobrou da separação, me mudei pra longe para ela nunca mais saber do nosso paradeiro. Hoje só nos falamos por telefone para dizer se estamos bem. 

Abri mão de tudo para criar meus filhos e agora que eles são adultos e estou curada da depressão, quero tentar viver minha própria vida e encontrar um amor. Na época, tinha perdido o direito de sorrir. Por causa da falta de higiene na infância, fui perdendo muitos dentes e meu maior sonho era conseguir fazer implantes dentários para recuperar meu sorriso depois de tanto tempo chorando! Foi então que conheci a ONG Turma do Bem, que cuida de mulheres vítima de violência doméstica. Tentei durante anos e, há quatro meses, consegui uma prótese e estou aguardando a continuação do tratamento. Nunca é tarde para ser feliz! 

Tânia Isabel Pinto Fontes, 50 anos, cuidadora de idosos, Rio de Janeiro, RJ.

 

Fique por dentro das histórias mais impressionantes do dia. Curta nossa página no Facebook clicando aqui!

04/04/2017 - 15:09

Conecte-se

Revista Sou mais Eu