Meu pai me raptou aos quatro meses de idade

Não guardo raiva no coração, afinal, amo muito minhas duas mães: a biológica e a de criação.

Reportagem: Mariana Gomes (com colaboração de Luiza Schiff)

Não guardo raiva nenhuma no coração! | <i>Crédito: Redação Sou Mais Eu
Não guardo raiva nenhuma no coração! | Crédito: Redação Sou Mais Eu
“Você não sabe ler?, me disse um funcionário do cartório, com grosseria. “Aqui vai o nome da sua mãe: Nair! “No mesmo tom, respondi: “Minha mãe se chama Yolanda. Quer saber mais da minha vida do que eu?”. 
Eu tinha apenas 15 anos quando tirei a carteira de trabalho. Só queria ganhar minha própria grana. Mas saí de lá com uma bomba. “Mãe o moço disse que você não é minha mãe”, contei aos prantos. Ela ficou muda. Quando meu pai chegou, soltou, seco: “Para de besteira, Rose! Foi só um erro do cartório”. 

A traição de papai
Meu pai era casado havia dez anos. Ele já tinha um filho de 9 anos com a Yolanda, a esposa dele. Ele trabalhava no Departamento de Estradas e Rodagem (DER) e só viajava. Em uma dessas andanças, conheceu a Nair e manteve vida dupla por quatro anos. Ela era independente, criava sozinha três filhas e tinha uma vida estável como cabelereira e manicure. Dessa relação extraconjugal eu nasci. Nair engravidou do meu pai. Um belo dia, Yolanda descobriu tudo. Sem saber como agir, papai optou por ela. Porém, como sempre foi louco por crianças, não conseguiu me deixar pra trás. Neste meio tempo, Nair, sem saber que era a outra da história, fez uma viagem. Era o que ele precisava: arrumou as coisas e se mandou comigo nos braços. Me raptou apenas com 4 meses. 

Eu amava Yolanda 
Quando chegou e não nos viu, Nair se desesperou. Pra me ter de volta, entrou na Justiça. Apenas um ano depois, minha guarda foi concedida a ela, que foi me buscar com o oficial de justiça. Mas era tarde...Eu já fazia parte de outra família, com meu irmão, meu pai e minha mãe Yolanda. Mesmo com o coração partido, Nair me levou. Me agarrei ao colo da Yolanda e abri um baita berreiro. Conforme os dias se passaram, Nair percebeu que eu fui definhando de saudade. Não comia, não falava...Apenas chorava e chamava meu irmão. Ela, então, não teve escolha e me devolveu ao meu pai: “Eu permito que você a crie, mas nunca desapareça. Preciso acompanhar o crescimento da minha filha”, disse, ao me entregar. 
Minha mãe, Yolanda, foi uma das pessoas mais evoluídas e doces que já conheci. No entanto, tinha as fraquezas dela. “Eu criarei e amarei sua filha, mas não me peça para conviver com a sua amante”, disse ao meu pai, doída. Ele concordou. Pouco tempo depois, nos mudamos. Desde então, não tive mais contato com a minha mãe biológica.

Disseram que mamãe estava morta
“O nome da minha mãe está trocado. Foi um erro do cartório”, eu dizia ao apresentar meus documentos a alguém. Comprei direitinho a história contada por meu pai. Ele proibiu o assunto na família e todos obedeceram. Mas o tempo passou, eu cresci e, perto de completar 19 anos, aquela ladainha não colava mais. Pressionei minha mãe Yolanda e uma hora a verdade veio à tona. Ela me contou tudo certinho, menos o final: disse que Nair já tinha morrido. Eu me convenci e enterrei o passado. Afinal, eu era muito grata a ela. Além de conseguir perdoar meu pai, me acolheu como filha. O amor dela por mim era tão grande que, se não fosse o episódio dos documentos, eu jamais desconfiaria. 

O perdão 
E o tempo passou. Cresci, estudei, casei, perdi meu pai, irmão...No final de 2000, fui passar o Natal com a minha mãe Yolanda. Pena que o destino não nos reservou algo feliz. Encontrei-a em semicoma. Corremos para o hospital, onde ficou internada por dois meses. Em fevereiro, ela faleceu. 
Antes de partir, Yolanda apenas segurou minha mão e a beijou, como se pedisse perdão. Na hora, não entendi. Hoje sei o porquê. Se tivesse dado tempo, eu teria lhe dito: “Não tem por que perdoá-la. A senhora foi tudo que um filho pode querer”. 
Depois disso, uma tia abriu o jogo e contou que minha mãe biológica me amava, mas que meus pais tinham sumido comigo. 

Lindo reencontro 
Em julho de 2009, ao brincar no Orkut, encontrei uma menina que mora na cidade da minha mãe biológica, com o mesmo sobrenome dela. Mandei uma mensagem. Em poucos minutos ela respondeu: “A Nair é minha tia. Não acredito que você apareceu. Ligue pra ela!”. 
- Alô? – disse a senhora do outro lado da linha. 
- Mãe? – respondi. 
- Filha...Te esperei tanto...
Encontrei a Nair no dia seguinte, muito chorosa e feliz. Me emocionei demais ao ouvir dela que só me deixou por sabe que Yolanda era iluminada. E era mesmo. 

Seis meses depois do nosso encontro, minha mãe biológica, Nair, morreu. Aproveitei ela bem pouco, mas meu amor é gigantesco. Nunca senti raiva de nada. Sempre tentei entender a situação por todos ângulos. Sei que, no final das contas, saí ganhando. Afinal, quem além de mim teve direito a duas mães maravilhosas? 

Roselaine Buffoni, 56 anos, teleoperadora, São Paulo, SP

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24/05/2017 - 18:00

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