Meu filho perdeu 45% do cérebro num acidente de moto e sobreviveu

Caio tinha 6% de chance de sobreviver. Passou quase dois meses na UTI em estado vegetativo. E hoje se comunica e realiza tarefas sozinho!

Reportagem: Gabriella Gouveia

A força do Caio sempre me impressionou muito. Ele é determinado e tem a sorte de conquistar tudo o que quer. Sorte não, energia, luz, o que for. Ele é especial | <i>Crédito: Arquivo pessoal/Redação Sou mais Eu
A força do Caio sempre me impressionou muito. Ele é determinado e tem a sorte de conquistar tudo o que quer. Sorte não, energia, luz, o que for. Ele é especial | Crédito: Arquivo pessoal/Redação Sou mais Eu

Quando ouvia histórias de acidentes com jovens sentia um frio na espinha e logo agradecia a Deus: meus filhos estavam bem. A gente acredita que com os nossos nada vai acontecer. Ledo engano. O meu caçula estava no auge da vida aos 22 anos; tinha terminado a faculdade de administração de empresa, trabalhava numa multinacional, gostava de jogar bola, malhar e saía bastante com os amigos. Tudo dando certo para ele e, de repente, uma bomba: um acidente de carro tirou 45% do seu cérebro.

Ele só queria se divertir

Era uma sexta-feira, o dia preferido dos jovens. Festa, bebida e amigos aos montes. Meu filho saiu e bebeu como tantos outros. Pegou sua moto para voltar pra casa e, no caminho, colidiu com um táxi. A queda fez seu capacete voar longe e Caio bateu a cabeça na guia. Por incrível que pareça, dentro do carro estava a esposa de um médico. Ela acionou o marido que foi ao seu encontro para ajudar no acidente. Em choque, Caio tentou se levantar, mas foi impedido pelo doutor que já estava no local. Meu filho estava lúcido e, por isso, achava que estava bem. Mais tarde os médicos contaram que se meu menino desse cinco passos naquele momento, seria o suficiente para não estar aqui hoje. Ele ainda teve a chance de dizer para qual hospital gostaria de ser levado minutos antes do socorro chegar, temia ser levado pra um hospital público. Caio teve traumatismo cranioencefálico (TCE), uma agressão ao cérebro causada por forte impacto físico. Ao chegar ao hospital desacordado, foi levado às pressas para a sala de cirurgia, precisava ser operado. Meu filho estava em coma e tinha apenas 6% de chances de sobreviver.

Um sábado para não esquecer

Eu estava em casa quando recebi uma ligação às 8h da manhã de sábado. Foi como um tiro no peito. Uma enfermeira me informou sobre o acidente e disse que o Caio precisava de uma cirurgia de emergência. Ela também me pediu para assinar os documentos da internação. O hospital fica a duas quadras da minha casa, me arrastei até lá com as pernas bambas e o coração na boca. Quando cheguei, minha primeira pergunta foi se meu filho estava vivo. Disseram que sim, mas que o estado dele era gravíssimo. Fiz tudo que precisava de maneira automática. Entreguei os papéis assinados e me senti dopada.  Liguei para o meu ex-marido e pai do Caio, o Nando, e ele chegou em três minutos. Nossos filhos não estavam em São Paulo. Fernando, o irmão mais velho e maior parceiro do Caio, estava no interior e a Alessandra estudando no Canadá. Os dois não pensaram duas vezes antes de largar tudo e vir correndo apoiar a família.

Só permiti que boas energias chegassem perto do Caio

Deixei o Nando cuidando de alguns tramites da internação enquanto nosso filho era operado. Liguei para uma amiga e contei o que tinha acontecido. Ouvindo meu desespero, ela pediu que fôssemos a uma igreja ali perto. Quando chegamos fiquei arrepiada ao ver um casal de idosos casando. Aquilo me trouxe esperança e muita fé. Rezei pelo meu menino e pedi a Nossa Senhora da Aparecida que intercedesse por ele. Ela é mãe também e poderia imaginar minha dor.

O Caio passou por cinco cirurgias na tentativa de salvar seu cérebro. Vivemos por dias em função do estado da pressão intracraniana dele (PIC), ora subia, ora baixava. Quando sobe compromete a oxigenação cerebral. Uma agonia sem tamanho! Os médicos tentaram de tudo, mas foi necessário retirar 45% do lado direito do cérebro pois estava muito prejudicado. O tempo todo ouvíamos que era grave, que ele tinha chances de não sobreviver, que teve febre, convulsão e por aí vai, era sempre uma notícia ruim. Meus filhos sentaram comigo e decidimos não levar mais em conta as opiniões médicas. A partir daquele momento nos agarramos ao otimismo e às boas energias. O Fernando dizia que tínhamos duas opções: sofrer ao acreditar nos diagnósticos precoces ou ignorar tudo e focar em nossa crença e esperança.

Para poder trabalhar, eu me revezava com eles e o pai na UTI. Não deixava ninguém negativo entrar lá. Optei por ter fé. Pela primeira vez na minha vida eu entendi o que era acreditar e confiar. Por só deixar pessoas positivas visitarem meu filho, muita gente boa veio vê-lo! O Caio tem amigos incríveis. Mesmo desacordado ele conseguiu ajudar o próximo. Ele precisou de sangue e recebeu tanta doação que serviu para ele e mais 600 pessoas.

Busquei a cura reconectiva, uma prática que acontece através do movimento das mãos de uma profissional. Ela as aproxima do paciente para conectá-las com seu interior. É tudo questão de energia. E eu sabia que meu filho precisava de motivos para retornar. Era impressionante, ele sempre melhorava após a energização. Além das sessões, nós meditávamos ao som da música “Cure seu corpo”. Passava horas com ele assim. Para mim, o Caio não tinha certeza se queria voltar. Ele sabia das dificuldades que teria que enfrentar. Mais uma vez ele optou por lutar. Meu filho é guerreiro.

Pedi para ele voltar pra casa

Diariamente vinham me contar que sonharam com o Caio. Aquilo me intrigava, só eu não sonhava com ele... Eu pedia tanto por isso e ficava chateada por não encontrar com a alegria dele quando me deitava. Um dia minha filha me disse que o sinal dele para mim poderia ser diferente. Lembrei de quando ele tinha três meses de vida e ficou internado na UTI por 10 dias, eu pedi no ouvidinho dele insistentemente para não me deixar. Com isso na cabeça fui às 4h da manhã para o hospital vê-lo. Sentei ao lado dele e pedi para ele voltar. O primeiro sinal foram os olhos, a pálpebra trêmula como quem sonha com algo agitado. Chamei as enfermeiras que cuidavam dele como se fosse filho delas. Esses anjos me davam força e brigavam entre elas para ver quem ficava com ele. Avisei que ele estava mostrando sinais. Depois dos olhos, meu filho mexeu as mãos e a cabeça. Eu filmei tudo com um nó na garganta, mas dessa vez graças a uma felicidade que não cabia em mim. Todo mundo caiu no choro, foi emocionante. Ele acordou reconheceu todos e não lembrava como tinha chegado ali.

Agora é um dia de cada vez

O acidente aconteceu há oito meses e meu filho cresce e renasce a cada conquista e evolução do quadro. Ele não consegue falar, ou andar, não mexe muito bem o lado esquerdo do corpo, mas faz toda a programação de médicos e tratamentos. Ele escreve bastante, não sai do WhatsApp e tem um blog que funciona como uma espécie de diário, onde fala sobre álcool e direção, a soma responsável por seu acidente. Ele é muito independente e detesta dar trabalho para as pessoas. Caio se esforça ao máximo, até o limite. Duas vezes por semana faz fonoaudiologia e fisioterapia e já come sozinho, uma conquista e tanto! Eu fui atrás de tudo pesquisei e busquei as melhores alternativas e tratamentos para meu filho.
Mas hoje o que meu filho mais precisa é do Therasuit, um tratamento realizado em crianças com paralisia cerebral. Infelizmente o custo do procedimento é bastante caro. A principal função é retomar os movimentos motores do Caio. A mecânica seria a parte esquerda assumir o papel do lado direito do cérebro.

Além disso, o tempo está passando e ele precisa de uma reorganização neuro funcional. É necessário reaprender a planejar e realizar os movimentos. Para isso, precisamos de uma equipe de multiprofissionais especializados em reabilitação neurológica. Temos que intensificar as sessões de fisioterapia e fonoaudiologia, que têm custo bastante elevado. O tratamento completo do meu filho custa mais de R$ 257 mil.

A força do Caio sempre me impressionou muito. Ele é determinado e tem a sorte de conquistar tudo o que quer. Sorte não, energia, luz, o que for. Ele é especial. As coisas simplesmente fluem para ele, pode ser no último minuto, mas elas acontecem. Foi assim com os estudos, trabalho, lazer, vontades e agora com o acidente.

Tenho o maior orgulho dele, é uma escola para mim. O tanto que ele me ensina diariamente é fantástico. Chego em casa e a primeira coisa que faço é ir pro quarto dele. O melhor lugar do mundo para todos nós. O Caio tem sempre uma palavra boa para mim e os irmãos. Ele tem mesmo uma alma muito iluminada. Acredito muito na força do meu filho e sei que ele pode chegar onde quiser. Falavam que o Caio demoraria seis meses para respirar sozinho e isso demorou apenas um! Para mim não tem prova maior de superação!

Ele estava participando de um processo seletivo para trabalhar em uma empresa do mercado financeiro, mas com o foco em sua recuperação, decidimos priorizar os tratamentos. Afinal, o tempo está passando e cada minuto é precioso para a melhora do Caio. E ele consegue, mais do que isso, ele tem curiosidade de descobrir tudo de novo. Ele insistiu e quis voltar à vida. Sei que meu filho vai cada vez mais longe e isso enche meu coração de alegria.

Marcia Branco, 52 anos, decoradora, São Paulo, SP

Ajude o Caio a retomar os movimentos e sua vida de volta. Qualquer quantia é bem-vinda: somostodoscaio.com.br/

DA REDAÇÃO

Contusões do lado direito do cérebro afetam o lado motor esquerdo

O cérebro é o principal órgão do corpo humano e o centro do sistema nervoso. Além da compreensão linguística, ele também responde pelas funções de aprendizado, pensamento, memória e nossa capacidade motora. Sua importância é primordial para o funcionamento de todas as nossas atividades corporais. Esses controles são divididos entre os hemisférios direito e esquerdo.

Porém, um fato curioso é que as lesões de um lado afetam o lado oposto. Como no caso do Caio, que teve as funções motoras mais prejudicadas no seu lado esquerdo.

De acordo com o Neurologista e neurocirurgião Amauri Godinho, o sistema nervoso não é regenerativo e, por isso, existe uma série de procedimentos que são realizados antes da retirada do tecido prejudicado.

Godinho acredita que a recuperação e retomada dos movimentos e atividades dependem bastante da força de vontade do paciente. “A sequela é determina após seis meses do acidente. Um momento crucial para buscar fisioterapia e tratamentos específicos”, explica.

Apesar do quadro do jovem Caio apresentar perspectivas positivas, também estimula a reflexão das causas de suas condições atuais. O índice de acidentes envolvendo álcool é bastante alto.

Segundo levantamento do Ministério da Saúde (MS) de 2013, uma em cada cinco vítimas de trânsito atendidas nos prontos-socorros de hospitais públicos brasileiros ingeriram bebida alcoólica. De acordo com o estudo, as principais vítimas são homens com idade entre 20 e 39 anos.

Em 2015, mais de 40 mil pessoas foram flagradas pela PRF (Polícia Rodoviária Federal) dirigindo embriagadas. Em 2016, até junho, foram 14,2 mil. 

Em novembro do ano passado entrou em vigor a lei que alterou o Código de Trânsito Brasileiro. Agora a lei estabelece como infração específica a recusa aos testes de alcoolemia, tornando a infração tão grave quanto dirigir sob influência de álcool. Beber e dirigir está entre os cinco principais fatores de risco para a mortalidade nas vias.

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27/04/2017 - 18:05

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