Levei um tiro do meu ex e fiquei paraplégica

Vivia um relacionamento doentio. Tinha medo. Quando rompi, levei um tiro nas costas e fiquei paraplégica

Reportagem: Taís Helena Amaral (com colaboração de Luiza Schiff)

Agradeço a Deus por estar viva! | <i>Crédito: Redação Sou Mais Eu
Agradeço a Deus por estar viva! | Crédito: Redação Sou Mais Eu
Quando o João* começou a me paquerar, em 1988, eu estava frágil e carente. Tinha apenas 19 anos e estava viúva havia mais de um ano do meu primeiro parceiro, com quem tive três filhos. Fiquei muito abalada. João morava no mesmo condomínio e passou a dar em cima de mim. Aonde eu ia, ele ia atrás. Aí, acabei não resistindo e me entreguei a esse novo amor. Que mal tinha recomeçar a vida? Ah, se eu soubesse que esse seria o meu pior pesadelo, nunca teria me envolvido com ele...

Ele me batia e me chutava quando eu estava grávida! 
Foi só começar a conhecer o João melhor para ver que ele não era exatamente quem eu pensava. Era do tipo ciumento, que não deixa nem olhar para o lado. Além disso, ele bebia muito e estava envolvido com drogas. Só que engravidei três meses depois que começamos a sair e aí já não tinha como deixá-lo. E foi então que o João começou a ficar agressivo. Quando discutíamos, ele vinha pra cima de mim tentando me dar chutes ou me empurrar, mesmo grávida. Como pode?! 
As brigas eram muito frequentes, quase sempre por causa do ciúme dele. Quando eu saía na rua, ficava olhando para o chão. Assim, ele não podia me acusar de estar paquerando outras pessoas. Isso sem falar que eu não podia chegar perto de homem nenhum, nem dos meus amigos.
Nossa filha nasceu e nada melhorou. Ele continuava agressivo, me ameaçando, me batendo e me perseguindo por todos os lados. A situação ficou tão grave que eu tinha que cobrir os hematomas do meu corpo com base para poder sair na rua. Ele morava com a mãe na frente da minha casa. Eu não podia sair na rua nem para comprar um pão. Tinha medo. É obvio que eu já tinha tentado terminar com o João diversas vezes. Mas ele me ameaçava e eu não sabia o que fazer. Era assustador. Ele já chegou a deixar na minha casa uma boneca da nossa filha toda esfaqueado, junto com um bilhete que dizia que o mesmo aconteceria comigo. Cheguei a denunciá-lo para a polícia duas vezes, mas também não adiantava. Naquela época, ainda nem existia a Lei Maria da Penha, que protege as mulheres. Só percebi a gravidade da situação no dia em que estava indo para a padaria com meu sobrinho pequeno no colo e o João tentou me dar um tiro da sacada do seu apartamento, sem o menor motivo! 

Graças a Deus, ele errou o alvo!
Para piorar, em agosto de 1991, descobri que estava grávida novamente. Quando contei para o João, ele estava tão fora de si que não acreditou que o filho fosse dele. Isso o deixou ainda mais agressivo. Eu não sabia mais para onde correr! Só que, quando nosso segundo filho nasceu, juntei minha coragem e disse que queria pôr um ponto final no nosso relacionamento. Por uma semana, ele me deixou em paz. Achei que finalmente ia conseguir ter sossego. Que inocência... 

Não aceitava minha nova realidade e desejei morrer 
Na semana seguinte, estava caminhando pelo condomínio, onde o João também morava, quando o vi com outra mulher. Me senti aliviada por ele estar seguindo com sua vida. Mas, quando virei às costas, ouvi um barulho e perdi a consciência. Ele tinha atirado em mim! 
Acordei no hospital. Os médicos disseram que eu estava tetraplégica. Não sentia nada do pescoço para baixo. Tive que ser operada para tentar recuperar ao menos parte dos meus movimentos. Eu não conseguia acreditar naquela tragédia! Eu tinha apenas 23 anos e cinco filhos para criar. Como iria dar conta disso tudo? Os dois filhos que tive com o João foram levados para a casa da mãe dele - que me ajudou muito na época. Uma comadre e minha mãe se revezavam para cuidar dos outros três, todos crianças. E o João fugiu! Os três meses que passei no hospital foram horríveis. Eu não conseguia aceitar minha nova realidade. Não queria sair na rua e, de tão deprimida, cheguei a desejar a morte. Mas busquei forças não sei de onde e decidi lutar. Voltei para a casa da minha mãe e, graças a Deus, com a cirurgia e a fisioterapia, recuperei os movimentos dos braços. Fiquei paraplégica.
Fui descobrindo como lidar com a minha nova condição de vida, em cima da cadeira de rodas. Assim, voltei a tomar conta dos três filhos do meu primeiro companheiro – os outros dois permaneceram com a mãe do João. No ano seguinte, engravidei acidentalmente de um antigo namorado com quem tive um caso rápido e meu sexto filho. Um casal de tios meus se ofereceu para criar o bebê, pois sabia que eu estava sem condições. Foi muito triste, mas melhor assim!
Em 1998, outro rapaz do condomínio começou a me paquerar. Era o Nelson, um homem que eu já conhecia. Ele insistia para sair comigo. Só que, como eu ainda estava com a autoestima abalada, cheguei a pensar que ele estava caçoando da minha situação. E, mesmo assim, Nelson sempre foi gentil. Parecia sincero, era calmo, me tratava bem e se mostrou disposto a fazer de tudo para me conquistar. Ainda bem que topei sair com ele! A gente deu tão certo na época, três meses depois, já compramos uma casa para morarmos juntos! Era uma delícia finalmente ter ao meu lado um homem que me amava de verdade! Hoje, não moramos mais juntos, mas o carinho e consideração permaneceram. 

Criar meus netinhos faz minha vida valer a pena. 
Dez anos depois, consegui descobrir o paradeiro do João. A justiça foi feita e ele foi preso. Muitos me perguntam se eu sinto raiva, mas não. Estou viva e isso é o que importa! 
Infelizmente, dois dos meus filhos acabaram se envolvendo com drogas e desapareceram. Mas me deixaram dois anjinhos para eu cuidar. O Juninho, que já tem 14 anos, e Lucinha, que está com 3. Eu e o Nelson cuidamos deles como se fossem nossos filhos. Eles são a razão da minha persistência, a importância da minha vida. 

Ganhei uma cadeira de rodas elétrica da Xuxa 
E fui à luta: me aposentei e para complementar a renda, arranjei outros empregos. Há menos de um ano, comecei a comentar na página da Xuxa, resumindo a minha história e pedindo ajuda. Eu precisava de uma cadeira de rodas elétrica, porque já não aguentava mais as terríveis dores nos meus braços. Foi então que diversas pessoas comentaram também e conseguimos chamar a atenção dela. Em agosto do ano passado, abri minha porta e lá estava a Xuxa, pronta para realizar o meu sonho. Foi emocionante. As dificuldades diminuíram muito e eu fico muito grata. 
Hoje sei que adaptei minha vida da maneira que pude e com todos os obstáculos que tive. Tenho seis filhos e nove netos, contando com o Juninho e a Lucinha. Agradeço a Deus por estar viva e rezo para que nenhuma mulher passe por tudo que eu passei. Rezo também para que não se calem, denunciem.

Silvana Augusto – 49 anos – aposentada e recepcionista – Rio de Janeiro, RJ. 

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22/05/2017 - 14:59

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