Fui vendida por 10 mil euros

Fui traficada quando era bebê e vivi uma mentira por 29 anos

Reportagem: Luiza Schiff

Eu nunca desisti de entender a minha história! | <i>Crédito: Redação Sou Mais Eu
Eu nunca desisti de entender a minha história! | Crédito: Redação Sou Mais Eu
Nem o Oceano Atlântico, nem 29 anos no tempo conseguiram me impedir de resgatar a verdade cruel por trás da minha adoção. Vivi até os 29 anos uma história que não era a minha. Meus pais adotivos pagaram por uma filha que eles não respeitavam. Lembro de rolar na cama quando pequena, pensando “o que estou fazendo aqui?”. Minha casa era um ambiente violento para uma criança. Não fazia sentido. Então fui atrás da verdade. Descobri que era para eu ter sido a brasileira Isabella. Mas fui comprada e me transformaram na francesa Charlotte.

Meus pais adotivos eram terríveis
Fui levada do Brasil para morar em Paris, na França, em 1987. Eu tinha tão somente três meses de vida. Meus pais adotivos, franceses, na minha infância, inventaram uma história mal contada de heroísmo. “Nós salvamos você das ruas”. Me convenceram de que uma amiga deles, a Cristiane, tinha viajado para o Brasil e encontrado eu e um menino na rua, abandonados. Essa Cristiane teria nos levado para a França com a ajuda de uma mulher muito pobre que ‘cuidava’ de crianças, a Dona Guiomar. Veja só, que belo par de heróis. Contavam que Cristiane ficou com o menino, o Rafael, e minha mãe, comigo.
Fui crescendo e questionando essa história biruta. Meu pai era alcoólatra e minha mãe tinha muitos problemas psicológicos. Era bipolar e completamente agressiva. Não conseguia encontrar sentido nessa adoção porque naquela casa não tinha amor algum e eu entendia que pais que adotam deveriam ter amor de sobra para dar. Eu tinha comida, brinquedos, roupas, conforto. Morava em um bairro nobre de Paris. Tinha tudo que era material, mas me faltava um pai e uma mãe. “Como eles conseguiram adotar uma criança naquelas condições?”, pensava.
Já escutei da minha mãe que eu era o número errado no orfanato. Que eu tinha vindo de uma “raça suja”. Ela era má, cruel. Eu gostava mais do meu pai porque sabia que seu alcoolismo se tratava de uma doença. Ele era uma vítima que tinha seus momentos de carinho mas, mesmo assim, eu vivia com medo das suas facetas agressivas. Lembro de uma vez que meu pai estava muito bêbado e eu tinha apenas cinco anos. Eu implorei para minha mãe não sair de casa naquele dia, para eu não ficar sozinha com ele. Ela nem sequer me escutou e me deixou pra trás mesmo assim. Ele me botou no banheiro, amarrou minhas mãos e começou a jogar baldes de água muito fria em mim. Eu chorava e tremia muito. Como é que chamam isso de amor?

Morar com eles se tornou um inferno
Eu me sentia muito só. Não tinha irmãos, primos, tios ou avós naquela família fracassada. Quase não tinha amigos na escola porque sofri preconceito: “O que você está fazendo aqui? Volta para o seu País”, me torturavam com essas perguntas sem respostas no colégio. A solidão me trouxe muita dor, mas também me brindou com tempo de sobra para ler e refletir muito. Eu era uma criança muito esperta e amadureci muito rápido na porrada, para lidar com questões tão complexas sobre quem eu sou. Aos 14 anos comecei a enfrentar a minha mãe. Uma guerra se instalou em casa e ela me tirou tudo. Não me dava dinheiro para comprar coisas básicas como absorvente, pasta de dente e sabonete. Meu pai, nessa época, estava medicado com antidepressivos, então andava meio fora do ar, perdido. Essa guerra domiciliar ia me consumindo e minha intuição começou a falar cada vez mais alto: eu não pertencia àquele lugar.

Descobri que fui comprada
Era março de 2001, quando aos 14 anos, esperei meus pais dormirem e fui atrás das minhas respostas. Sempre achei estranho eles trancarem o escritório da casa. Nunca me deixavam entrar. Em uma das vezes em que entrei, vi uma pasta com meu nome e tive uma sensação forte de que precisava abri-la. 
E a minha intuição acertou naquela noite: ao abrir a tal pasta dei de cara com o processo de adoção na França, meu passaporte de bebê, uma xerox do passaporte da minha suposta mãe biológica, Maria das Dores, e um documento que indicava que o Rafael – filho adotivo da Cristiane, era meu irmão gêmeo. Lá também estava uma certidão de nascimento brasileira e dois exames médicos: um trazia escrito o nome Isabella e o outro, o nome Charlotte, à caneta. Ao ler aquilo senti um aperto muito grande. Senti que eu era essa Isabella. E pior ainda: encontrei um comprovante de pagamento. Meus pais adotivos tinham feito uma transferência de 65 mil francos (cerca de 10 mil euros hoje) para a tal salvadora de crianças – a Dona Guiomar – quando eu tinha três anos. Descobri ali que eu tinha sido comprada. Peguei todos os documentos e levei para o meu quarto. No lugar deles na pasta, coloquei folhas em branco.

Enfrentei meus pais “adotivos”
Um mês depois da descoberta, não aguentei mais guardar aquele segredo. Enfrentei minha mãe sobre a adoção. Foi uma baixaria. Ela me xingou de coisas horríveis. Repetiu inúmeras vezes que eu era uma pessoa ingrata. Meu pai chegou, ouviu nossa discussão e me ameaçou com uma faca. As únicas coisas que a minha mãe esclareceu durante todo aquele caos foi que a Maria das Dores não era minha mãe, e sim uma empregada, e que o Rafael não era meu irmão. Ainda disse: “Ele é um negro, vocês não são irmãos”. A insensibilidade dela não tinha limites.

Eles perderam minha guarda
Na mesma noite fugi para a casa de uma amiga da família. Contei tudo para ela e acabei ficando lá por três meses, até a minha mãe ameaçar ir à polícia. Tive que voltar para casa e o retorno também foi um pesadelo. As brigas eram violentas e constantes. Fiquei mais dois anos naquele ambiente inóspito. Em 2003 comecei a dormir durante as aulas da escola porque brigava com a minha mãe madrugada adentro. A direção do colégio me encaminhou para uma psicóloga – foi ela que me salvou. Depois de ouvir toda a verdade sobre quem eu era, em pouco tempo ela constatou o óbvio: eu precisava sair daquela casa. A psicóloga fez contato com algumas autoridades do Estado e em um mês eu fui morar em um abrigo. Meus pais perderam a minha guarda definitivamente.
No abrigo era tudo era muito diferente do que eu estava acostumada, além de precário. Eu morava com meninas pobres que vieram da rua. Mas eu tinha tirado um peso das minhas costas ao sair daquele lar doentio. Não vivia mais com medo. Eu finalmente estava em paz. Fui transferida para uma escola pública de qualidade e comecei a trabalhar numa agência de eventos e numa loja de luxo em Paris para juntar meu próprio dinheiro. As coisas foram se organizando e a dor foi ficando distante por um tempo.
Aos 19 anos, por mérito próprio, consegui entrar na faculdade. Comecei a fazer letras e cinema na Sorbbone, de Paris. Eu sempre gostei muito de literatura e filosofia. Foi muito especial essa conquista e o governo arcou com todos os custos da faculdade. Nesse momento, eu já havia saído do abrigo e estava morando em um lar para moças, era o que o meu salário podia pagar.
Me senti como uma mercadoria; como um bichinho para criar
Eu precisava me sentir pronta e forte para poder ir atrás das minhas origens, então me dedicava a estudar muito. O meu foco não era justiça por ter sido traficada. Eu queria mesmo era saber da minha família. Queria conhecer a minha mãe biológica e encontrar rastros de quem eu verdadeiramente tinha nascido para ser. Meus pais adotivos tiraram tudo de mim: meu nome, minha história e minha família.
Em 2009, consegui a oportunidade de fazer um intercâmbio na Espanha. Para minha surpresa, num intervalo das aulas, uma garota, a Bruna, veio na minha direção falando em português. Quando ela viu que eu não respondia, ficou impressionada. Disse que estava certa de que eu era brasileira, porque eu parecia uma irmã dela. Foi coisa do destino. Conversamos em espanhol e a Bruna me convidou para morar em uma casa com seus amigos, também brasileiros. Isso me ajudou muito a aprender português e conhecer mais sobre o Brasil. Além disso, na época, a Bruna garantiu que me ajudaria a vir para cá desvendar minha própria história.
Em 2010, concluí o curso e voltei para a França. Não via meus pais adotivos há um bom tempo e resolvi encontrá-los. Foi o meu último contato com eles. O rompimento é definitivo. Nessa volta, também cruzei com a Cristiane, a amiga da minha mãe adotiva que tinha me trazido do Brasil. Fui atrás de algumas respostas. Ela disse que tinha encomendado um menino para o orfanato e quando foi buscá-lo, a Dona Guiomar ofereceu também uma menina. A Cristiane falava de mim e do filho adotivo dela, o Rafael, como se fôssemos mercadorias. Dois bichinhos que pegou para criar.

Era o momento certo de ir para ‘casa’
Formada e com 25 anos, tinha chegado a hora. Eu estava pronta para ir ao Brasil. Trabalhei em um banco por três meses para juntar dinheiro. Lembro de desembarcar no Rio de Janeiro em 1º de setembro de 2012 e me sentir em casa. Ali estava a minha essência. Minhas raízes. Fiquei por duas semanas no apartamento da Bruna em Ipanema, até encontrar um quartinho de empregada em uma república e me mudar de vez. Fui sobrevivendo e me adaptando. Trabalhei de babá e consegui um emprego no Copacabana Palace. Comecei um curso de português na UFRJ. Com o tempo, tudo foi se encaixando. Eu continuei procurando o orfanato e recebi um e-mail da Guiomar que dizia: “O lar foi desativado, não volte a procurar a gente, tchau”. Ali eu senti a dimensão da coisa. Meus amigos falavam para eu parar. Achavam a busca pela verdade um caminho perigoso.

Minha história foi parar na TV
O destino novamente falou mais alto na minha jornada. Certa noite, cheguei em casa cansada do trabalho e liguei a televisão. Estava passando a novela Salve Jorge, que abordou o tema do tráfico humano. A cena na tela era da personagem Aisha, que assim como eu procurava pelos pais biológicos. Fiquei arrepiada. Aquela era a minha história. Pesquisei na internet e descobri que a direção da novela começou a criar o enredo de Aisha baseado em histórias reais de jovens que foram tirados de suas famílias e vendidos por aí, como mercadorias mesmo. Procurei por esses jovens e encontrei o Lior. De imediato ele me colocou em contato com a ONG Desaparecidos do Brasil, que me apresentou à produção da Rede Globo. Gravei um depoimento que foi transmitido na novela.
Em dois dias, a Polícia Federal de São Paulo me ligou e abriu o meu caso. Chamaram a traficante, Dona Guiomar, e ela sequer quis falar. As empregadas do suposto orfanato foram depor. Só que, na época, a polícia disse que o crime iria prescrever, porque fazia muito tempo e não existia uma lei que pudesse incriminá-los. Era revoltante. Em 2014 obtive uma vitória. O meu caso, e outros parecidos, fez com que a adoção ilegal fosse considerada um crime de tráfico de pessoas. A Guiomar e o marido dela, o Franco, e todos os envolvidos no caso tiveram que prestar depoimento numa audiência no Ministério Público, com a abertura da CPI de tráfico de pessoas. Ela em nenhum momento olhou nos meus olhos, ignorou minha existência do começo ao fim. Em 2016, ainda procurando pela minha família, descobri que outras mães foram manipuladas pela Guiomar e tiveram seus bebês vendidos a contragosto. A mulher se mostrou um monstro insensível.

Nasci pela segunda vez
Em nenhum momento pensei em desistir de encontrar a verdade. Em novembro de 2016, consegui encontrar, num banco de dados de São Paulo, o prontuário do dia em que eu nasci, 30 de abril de 1987. Constava um bebê com tipo sanguíneo B negativo e a casa da Guiomar como o endereço de uma mulher chamada Jacira dos Santos, de 21 anos. Mais uma vez, um milagre. Minha intuição dizia que eu era esse bebê. Consegui encontrar minha suposta irmã, a Lucélia, pelo Facebook, e mandei uma mensagem. E ela me respondeu: “A minha mãe realmente teve uma filha em 1987 que foi arrancada dela. Ela trabalhava na casa da dona Guiomar. Você se chamava Isabella”, ela disse. Fiquei arrepiada. Havia encontrado minha identidade que andava escondida.
Lucélia contou que, quando eu nasci, a dona Guiomar disse para a minha mãe que ela não teria tempo de me criar. “Você tem que fazer faxina, deixa esse bebê comigo por um tempo e vê quem da sua família pode criá-lo.” Jacira morava na casa dos patrões e não era vista como ‘moça direita’ pela sua família, por ser muito nova e já ter engravidado duas vezes. A minha avó já cuidava da minha irmã mais velha, então minha mãe encontrou uma vizinha para ficar comigo enquanto trabalhava. Quando voltou para me buscar na casa da patroa, a Guiomar disse que já tinha conseguido uma família melhor para mim. Lucélia conta que se lembra da minha mãe chorando muito depois disso. Lembra dela contando para a minha avó que não tinha conseguido me pegar de volta. Que eu já não estava mais lá e que Guiomar a ameaçou. Jacira foi assassinada em 1991, aos 25 anos. Só se sabe que ela foi espancada por quatro pessoas. Jogaram um paralelepípedo em cima dela. Não há provas. Mais um crime sem solução. No dia 24 de março de 2017 fiz um exame de DNA com a minha irmã e minha tia. Confirmamos a verdade. Deu positivo e, ali, eu nasci pela segunda vez.

Agora posso começar a sonhar e ser quem realmente sou
Sou filha de uma mulher jovem, negra, periférica e injustiçada. Uma mulher que não tinha voz, como tantas no nosso país. Julgada com base no machismo. Eu resgatei minha dignidade. Hoje respiro aliviada porque tenho uma história completa. Tenho as respostas que por 29 anos foram escondidas de mim.
Quero escrever um livro contando essa trajetória. Relatando a história das ‘Jaciras’ do Brasil que são sufocadas diariamente. Não posso fazer minha mãe voltar à vida novamente, mas posso fazer com que as pessoas a conheçam. Para mim, ela sim é uma heroína. Minha missão agora é lhe dar a voz que nunca teve. Eu estou em paz. Agora é a hora dessa Isabella, que teve sua vida vendida, sonhar alto.

Isabella dos Santos, 30 anos, professora, São Paulo, SP
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Da redação: 

Tráfico Humano é a 3º maior modalidade criminosa do mundo
 
            O tráfico de pessoas é caracterizado pelo recrutamento, transporte ou alojamento de pessoas em condições de violência, controle e cárcere privado. Os principais objetivos dessa grave violação dos direitos humanos são manter em funcionamento os mercados de trabalho escravo, remoção de órgãos, casamento forçado, exploração sexual e adoção ilegal de crianças – caso da Isabella. Uma realidade tão hedionda que muita gente acredita ser mera lenda urbana. Não é. E, para conscientizar a sociedade da necessidade de criar políticas públicas voltadas à questão, as ativistas Clara Charf , 92 anos, e Vera Vieira, 62 anos (respectivamente diretora e presidenta da Associação Mulheres pela Paz - que tem como missão a busca pela equidade de gênero e o combate da violência contra mulher), coordenaram a pesquisa Percepção da Sociedade sobre Tráfico de Mulheres.  Feito em parceria com o Instituto Data Folha de Pesquisa, o estudo foi publicado em 2016 e revelou:
 
- O tráfico de pessoas é a 3ª modalidade criminosa do mundo, superada apenas pelo tráfico de armas e drogas;
- Calcula-se que a prática renda US$ 32 bilhões por ano (cerca de R$ 102 bilhões);
- A maioria das vítimas é pobre e tem baixa escolaridade;
- Cerca de 2,4 milhões de pessoas são traficadas por ano no mundo - aproximadamente 83% delas são mulheres. 
- A Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta como causas principais a ausência de oportunidades de trabalho, discriminação de gênero, a instabilidade política, econômica e civil, a violência doméstica, a emigração indocumentada, o turismo sexual, a corrupção de funcionários públicos e as leis deficientes. 
 
Caso suspeite de qualquer situação de tráfico humano, disque 180 e denuncie. O número é válido para todo o Brasil, o atendimento é 24 horas. Sua denuncia também pode ser feita pela internet, através do email disquedenuncia@sedh.gov.br. Em ambos os casos o Ministério da Justiça garante sigilo na identidade do denunciante.


04/05/2017 - 13:27

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