Fui pastor e tentei curar gays... Até que saí do armário!

Após 18 anos de luta contra meus desejos, percebi que não se deixa de ser gay. Me assumi e parei de doutrinar outros homossexuais

Reportagem: Luiza Furquim (com colaboração de Luiza Schiff)

Me aceitar do jeito que sou me fez ver beleza na vida e nas pessoas. Sinto como se vivesse num canto iluminado do mundo. | <i>Crédito: Reportagem: Luiza Furquim (com colaboração de Luiza Schiff)
Me aceitar do jeito que sou me fez ver beleza na vida e nas pessoas. Sinto como se vivesse num canto iluminado do mundo. | Crédito: Reportagem: Luiza Furquim (com colaboração de Luiza Schiff)
Não existe cura gay. Ex-gay é uma coisa tão real quanto vaca que voa. Vai por mim! Lutei contra o meu desejo por mais de 18 anos, tempo que dediquei à obra de Deus. Sim, eu sou gay. Mas também estudei teologia e virei pastor. Dei meu tempo e dinheiro à Igreja evangélica. Sempre que achava que estava curado, o desejo voltava. Fui até conselheiro de um grupo de “reversão de homossexualidade” por sete anos e nunca vi nenhum gay virar hétero. Muito pelo contrário: vários homens lá de dentro acabavam se envolvendo.
É sério. Já houve vários casos em que membros do Moses (Movimento pela Sexualidade Sadia), do qual eu fazia parte, confessaram ter transado com outros. E hoje eu sei que isso não é prova de devassidão. Imagina um grupo cheio de homens belos, abrindo sua vida e chorando. Eles acabavam criando intimidade, um dia se abraçavam e rolava... Aconteceria o mesmo se fosse um grupo de homens e mulheres.

Tentei me curar por 18 anos
Claro que, na época, eu tentava separar esses casais. Isso foi nos anos 90, quando eu ainda me debatia contra minha própria homossexualidade. Nasci em uma família católica tradicional e cresci acreditando que ser gay fazia de mim uma pessoa de segunda categoria. Achava que iria para o inferno. Por isso, fiz o que estava ao meu alcance para me reprimir e cumprir o que se esperava de mim: casar e ter filhos. 
A verdade é que sei que sou gay desde criança. Eu não sabia o nome que isso tinha, mas já achava os meninos muito mais interessantes que as meninas. E não tinha nada de sexual nisso, porque aos 9 anos de idade eu nem sabia para que servia meu pintinho. Era só para fazer xixi mesmo. Com medo do meu comportamento, meus pais me levaram para a terapia e acabei me entregando num dos jogos da sessão. Na hora, percebi que a terapeuta sabia e também soube que ela ia contar para a minha mãe.
Fiquei com medo porque desde criança sabia que era feio ser gay. Que bicha era tudo pervertida, moralmente degenerada. Toda minha educação foi machista e homofóbica: em casa, na escola e na igreja. E, se dependesse disso, eu seria hoje o macho alfa. Mas não dá para lutar contra o desejo.
Minha primeira experiência sexual foi aos 12 anos. Estava brincando com amigos e, de repente, vi um garoto. Era como olhar um tesouro. Que menino lindo! Quando ele me chamou para brincar separado, senti que ali tinha alguma coisa, que eu não sabia o que era, mas queria. A gente transou. Foi consensual e muito gostoso.
Aos 16 anos, abandonei o catolicismo e fui para a igreja evangélica. Trabalhava como office-boy numa empresa com vários evangélicos e começou a doutrinação. Gostei do entusiasmo que eles tinham com a palavra de Deus. Conheci um pastor e fiquei maravilhado com sua educação. Aquilo tudo me encantou.

Evangélico, fiquei dois anos sem ligar para sexo
Cheguei à igreja evangélica carregando o fardo de ser gay, mas não revelei meu “problema”. Os irmãos me ofereceram conforto e acolhimento. “Deus vai cuidar de você. Ele perdoa.” A partir do dia da minha “conversão” à igreja evangélica, vivia atarefado, e até meus pais se juntaram ao culto. Por dois anos, fiquei tão envolvido com a obra que parei de pensar em sexo. Achei que estava curado. Mas meu desejo não deu trégua por muito tempo. Conheci um rapaz na igreja e ficamos. Tentei me afastar, mas estava apaixonado. Chorava toda noite perguntando a Deus por que tinha nascido assim e, já que tinha, por que isso era errado. Ficamos outra vez, mas eu achava que tinha que me esforçar mais para virar heterossexual.
Na minha cabeça da época, essa “recaída” se devia ao fato de eu ser novo na igreja. Acreditei que o que me faltava era uma relação sexual adequada, ou seja, com uma mulher. Mas, pelas leis da igreja, eu não poderia transar namorando. “Tenho que casar”, pensei. Pouco tempo depois, comecei a namorar a mulher que viria a ser minha esposa. Para mim, era a redenção. Eu ficaria livre da “tentação da carne”, da “abominação” que era ser gay.
Casei antes dos 20 anos. Minha esposa também era da igreja, uma mulher ótima.
Eu a amava e conseguia, sim, me excitar e ter relações com ela. Nós dois chegávamos ao orgasmo, inclusive, porque não sou besta. Sabia como dar prazer a ela. Achei que estava livre da homossexualidade. Curado, como se diz. Mas, aos poucos, fui percebendo que o tesão que eu sentia por ela era diferente do que eu sentia por homens.
Entrei para o seminário aos 22 anos e fui estudar teologia para virar pastor da igreja batista – diferentemente da católica, ela permite que os pastores/padres se casem. Trabalhei para a congregação de graça por anos, porque achava que aquilo dava sentido à minha vida. Recusei ofertas de emprego e até aumento de salário para conciliar meu trabalho como professor com a vida religiosa. Não falo isso para me vangloriar, mas para mostrar que tentei, de coração, seguir os princípios da religião.

Estudar teologia me ajudou a acordar. 
Antes, eu lia a Bíblia como uma verdade absoluta, sem contestação. Mas, no seminário, a gente se aprofundava a ponto de saber que a Bíblia não é uma coisa que Deus entregou pronta na mão de alguém. Foram vários textos e alguém decidiu “este serve”, “este não serve”. Um dos livros supostamente escritos por Moisés narra a morte dele. Como é que ele poderia ter escrito depois de morrer? Psicografou?!
Demorei para formular esses questionamentos, porque a pior coisa para o crente é ser blasfemador. E duvidar dos dogmas é pecar em pensamento. Eu dizia para mim: “Não vou pensar nisso. Ainda não sou teólogo formado nem com experiência o suficiente. Depois volto a essa questão.” Mas não conseguia deixar totalmente pra lá.

Os caras do grupo de cura gay se pegavam
O grupo para curar a sexualidade, o Moses, só agravou meu sentimento de que alguma coisa não estava certa. Um dos líderes do grupo era nosso garoto-propaganda, um ex-gay que teria se curado ao entrar para a igreja e arrumado uma noiva. O que pouca gente sabe é que os dois se separaram sem terem tido relações e ele continua solteiro até hoje. Eu via gays de todos os tipos. Uma vez veio um cara trazendo o sobrinho, que era uma bicha daquelas afetadas. Tive pena dele, um alvo fácil para o preconceito. Depois que o tio saiu da sala, ele me contou que tinha sido abusado por todos da família! Depois de sofrer tanto, o “demônio” era ele.

Escondíamos as recaídas dos “ex-gays”
Depois de saber de mais uma de muitas escapadas, uma das organizadoras me disse: “Sergio, será que estamos nos enganando? As pessoas não mudam!”. Nosso discurso era “Deus transforma. Deus te cura”. Só que isso não acontecia! E tinha muita má-fé envolvida, já que o grupo costumava usar como casos de sucesso os gays que se “tornavam” héteros, mas nunca mostrava o contrário. E, de 50 ex-gays que a gente via, 51 voltavam à vida de antes!
Mesmo com todas essas evidências, só resolvi me assumir e abandonar o grupo Moses depois de uma viagem a Cingapura, em 2000, pela igreja. Eu estava tentando reprimir sonhos que andava tendo com homens e só orar e jejuar não estava resolvendo. Passei um mês rezando com líderes da igreja evangélica. Ao fim da viagem, conheci um filipino por acaso e tivemos uma noite intensa. Eu estava cansado de brigar com quem eu era, mas ainda levaria dois anos para me assumir.

Saí do armário e da igreja!
Em 2002, me abri para minha mulher e passei a dormir no quarto do meu filho. Ela não aceitava. Fui à minha primeira boate gay, sozinho, e passei a noite ouvindo Madonna. Eu adorava, mas era outra coisa que eu não podia assumir na igreja. O problema é que me senti desamparado e sem amigos. Todo mundo que eu conhecia era da igreja. Me vi privado de contar histórias para meus filhos à noite antes de dormir. Aí, minha esposa pediu para voltar e topei.
Tentei essa vida hétero por mais dois anos, mas não dava certo. Saí do armário de vez em 2004, após 14 anos de casamento. Meus filhos e meu sogro foram os únicos que encararam a situação numa boa. Dessa vez consegui me adaptar porque encontrei um antigo aconselhado, gay, que me ajudou na transição ao me apresentar pessoas novas.
Vivo fora do armário há dez anos. Tive um casamento com um homem, o Emanuel, que durou sete anos e terminamos em um divórcio amigável. Levei quatro anos para ser tolerado pela minha ex e aceito pelos meus pais. Eles achavam que casa de gay tinha porta giratória, de tanto homem que entra e sai. Também pensavam que as camisinhas usadas ficavam espalhadas no corredor. Tudo bobagem!
Foi difícil superar a separação, mas em fevereiro de 2016 conheci o André no carnaval e renasci. Fui viajar para Belo Horizonte e nos apaixonamos. Em março, um mês depois, ele jogou tudo para o alto e se mudou para o Rio de Janeiro. Foi lindo. Hoje estamos vivendo juntos e muito felizes. Nossa relação é formada por parceria. E não me arrependo. Me aceitar do jeito que sou me fez ver beleza na vida e nas pessoas. Sinto como se vivesse num canto iluminado do mundo. E o melhor é que não tenho que pagar o dízimo para entrar.

Sérgio Viula, 47 anos, professor, Rio de Janeiro, RJ
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18/04/2017 - 17:21

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