Fui mendiga e hoje tenho um salão todo chique

Até os 29 anos de idade, eu vivia nas ruas e era analfabeta. Bastou uma única oportunidade para mudar o meu destino

Reportagem: Paula Brandão (com colaboração de Luiza Schiff)

Dei a volta por cima! | <i>Crédito: Redação Sou mais Eu
Dei a volta por cima! | Crédito: Redação Sou mais Eu

Quem vê minhas bem-cuidadas mãos modelando cabelos de madames nem sonha o quanto elas já foram judiadas pelo cabo das enxadas; o quanto já pediram esmola. Até os 29 anos, eu vivi na miséria. Primeiro, nas lavouras do Maranhão, onde nasci e cresci. Depois, nas ruas de São Paulo, onde virei mendiga. Até que um dia decidi sair daquele inferno. E fiz isso com minhas próprias mãos.

Éramos seis pessoas no chão de um quarto mofado

Sou de Balsas, no sertão maranhense. Órfã de pai e mãe, até os meus 26 anos só tive a companhia da minha vó materna, Joana. Era com ela que eu saltava da rede às 4 h para suar nas plantações de algodão, milho e feijão até as 17 h. Tudo em troca de um prato de comida para cada uma. Estudar, namorar, passear, ir a uma festa? E eu lá sabia o que era isso?! Eu só sabia que aquilo não era vida, não...

Por isso, quando ouvi que uma família vizinha ia tentar a vida em São Paulo, pedi para me levarem junto. Em troca, eu ajudaria no trabalho doméstico. Eles aceitaram e até pagaram minha viagem. Em questão de dias, me despedi de vovó e parti.

Depois de seis dias de viagem num pau de arara, chegamos a São Paulo. Fomos morar num porão. Éramos seis dormindo no chão de um quartinho mofado com apenas um banheiro! De madrugada, quando o pai saía para trabalhar como pedreiro e a mãe como diarista, eu já ia lavar roupa, limpar o porão, cuidar das crianças. Percebi que talvez não tivesse feito bem em deixar o sertão: era analfabeta e estava numa cidade gigantesca. Como ia sair para procurar emprego?

Passado um ano, a família me expulsou da casa. Alegaram precisar de espaço. Implorei por ao menos um tempo para achar outro lugar e o que ouvi gelou minha espinha: "Se vira!". Pus minhas coisas numa sacola de plástico e caminhei por duas horas até avistar um viaduto. Embaixo dele, moradores de rua disputavam um lugar para dormir. O jeito foi passar a noite ali. Mas, para ser aceito, você passa por um interrogatório. Quiseram saber de onde eu era, o que fazia ali, o que tinha me acontecido... Como miséria acolhe miséria, me deixaram ficar.

Naquela época, não havia muitas ONGs ou instituições cuidando da população de rua. Para comer, era preciso sair pedindo de porta em porta. Banho? Enchia um balde com água e jogava por cima da roupa, na calçada mesmo. Perdi a conta das vezes em que peguei piolho! E o inverno paulista? Não sei como não tive pneumonia!

Para não ser violentada ou até assassinada, adotei um vira-lata, o Sansão. Era só um estranho vir na minha direção para ele latir e eu acordar, pronta para me defender com garrafa, pau... Fazer o quê? Voltar derrotada para o sertão? Nem pensar!

O conselho de um pastor mudou minha vida

Um dia, desesperada por comida, caminhei até uma igrejinha. O pastor João me atendeu. Disse que infelizmente não tinha nada a me oferecer além de uma palavra de conforto. E falou: "Não peça mais por comida ou dinheiro. Peça emprego. Ele será o começo de uma grande virada na sua vida". Voltei para o viaduto determinada a seguir à risca a orientação que havia recebido.

Durante dois dias, implorei por uma oportunidade de emprego de porta em porta. Até que o dono de um bar falou: "Venha lavar a calçada amanhã que lhe dou um trocado". No outro dia, deixei a calçada brilhando. Recebi elogios e combinei de repetir a tarefa. Quando dei por mim, estava ali todos os dias e já ajudava na limpeza da cozinha. Os proprietários ganharam tanta confiança em mim que me ofereceram um quarto nos fundos do local. Nunca vou esquecer da minha primeira noite naquele colchão de palha. Como foi bom dormir sem medo, sem frio, sem gritaria!

Aprendi a ler, a escrever e virei cabeleireira

Cheia de autoestima, me matriculei num supletivo. Fiz da 1ª à 8ª série em cinco anos. Enquanto isso, engravidei da minha filha, Alessandra. Estava casada com o pai dela, o Paulo e quando a minha filha fez três anos, nos separamos. Ele sempre está presente quando precisamos. Mesmo entre discussões, nós matemos uma boa relação.

Apesar de ser eternamente grata aos meus patrões, comecei a sentir falta de uma carreira que eu amasse e me fizesse prosperar. Foi quando me indicaram um curso profissionalizante de cabeleireira, bem perto de onde eu vivia. Passei a frequentar as aulas no período noturno - minha menina, então com 6 anos, já ficava sozinha!

Foram dois anos aprendendo o máximo. Fiz ótimas amizades ali. Tanto que, quando nos formamos, me juntei com três colegas e alugamos a garagem de uma casa antiga. Lá, montamos um pequeno salão. Tudo na base da dívida, se virando para pagar as prestações mês a mês. O local era tão simples que só tinha uma cadeira de cabeleireira.

Entrei numa rotina louca de trabalhar no bar de manhã e correr para o salão à tarde. Era supercansativo, mas fiz um pé de meia. O salãozinho foi crescendo e, oito anos depois, garantimos uma boa clientela. Um dia, soube de um sobrado de três andares que um cara tinha começado a construir no bairro do Morumbi, mas que precisava passar para a frente. Fui até lá e as ruas nem asfaltadas eram ainda! Quem diria que a região se tornaria uma das mais chiques de São Paulo? Fechei o negócio e passei mais um ano e meio esperando a obra ser concluída. Sempre dando duro no salão e no bar.

Torrei todas as minhas economias na construção. O jeito foi fazer um puxadinho nos fundos - quarto, cozinha e banheiro sem revestimento - para viver com minha filha. Tudo bem! Para quem havia vivido debaixo de um viaduto... Mais uma vez, comecei com o mínimo: duas cadeiras de cabeleireira e uma moça me ajudando. Só fui aumentando o quadro de funcionários, que hoje são oito, à medida que ia firmando a clientela. Para expandir minha renda, aumentei o prédio e construí algumas salas para alugar. Hoje, além do salão, tenho várias lojas e salas comerciais.

Ampliei o prédio e fiz salas comerciais que hoje alugo

Nunca quis me mudar do andar de cima do salão. Vivo até hoje nos fundos do salão com minha filha, que me ajuda a administrar nosso patrimônio. Que ironia do destino, não? De sem-teto malcheirosa, virei uma especialista em beleza! Nunca mais vi a família que me trouxe para São Paulo - só quando me procuraram na rua para contar que vovó havia morrido. Mas sem ressentimentos. Em vez de guardar mágoas, prefiro guardar lições. E a principal é: mais do que dar esmola ou dinheiro, dê uma palavra amiga. Encher o peito de alguém com esperança é a maior dádiva que se pode oferecer a um ser humano.

Da redação

Estudar é o 1º passo

Deuza não tem dúvida: estudar foi sua iniciativa mais importante para mudar radicalmente de vida. Para seguir o mesmo caminho, você pode procurar a escola pública mais próxima e se informar sobre as aulas do EJA (Educação de Jovens Adultos), o popular supletivo. Basta levar seu histórico escolar ou então fazer um teste aplicado pela própria instituição para descobrir a partir de que série sua educação começará. Dá para concluir a segunda metade do ensino fundamental (da 5ª à 8ª série) em apenas três anos " a primeira metade precisa ser feita dentro de outro programa, de Alfabetização de Alunos Adultos. Já o ensino médio (do 1º ao 3º ano), você também faz pelo EJA, em dois anos. Tudo de graça, mas com material próprio! Outras informações: http://abr.io/supletivo

Deuza Gomes Coutinho, 59 anos, cabeleireira, São Paulo, SP


 

08/06/2017 - 19:01

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