Fui impedida de ser professora pública por ser gorda

Passei num concurso e fui considerada inapta para exercer o cargo porque era obesa mórbida

Reportagem: Thais Helena Amaral (com colaboração de Carolina Almeida)

Passei num concurso e fui considerada inapta para exercer o cargo porque era obesa mórbida | <i>Crédito: Arquivo pessoal
Passei num concurso e fui considerada inapta para exercer o cargo porque era obesa mórbida | Crédito: Arquivo pessoal

Tenho orgulho de dizer que, desde pequena, sempre tive uma saúde de ferro. Sou uma pessoa ativa que gosta de se exercitar e se cuidar. Só que isso não me impediu de começar a engordar na adolescência e de me tornar uma adulta obesa. Afinal, como todo mundo, também gosto de comer. Mesmo assim, consciente de que a obesidade é uma doença, todos os anos faço exames para garantir que eu seja sempre uma mulher muito saudável. Por isso, nunca tive nenhuma enfermidade além das que todo mundo tem, como gripe, conjuntivite, essas coisas. Então como poderia aceitar que me considerassem inapta para exercer um cargo de professora na rede pública – que conquistei com muito esforço passando em um concurso – apenas porque meu IMC (índice de massa corpórea) indicou obesidade mórbida?

Minha família é obesa

Desde que comecei a perceber que estava engordando, lá pelos 17 anos de idade, passei a travar uma luta contra a balança. Vivia fazendo dietas e até conseguia emagrecer um pouco à custa de muito esforço, mas sempre acabava engordando de novo. Além do gosto pela comida, havia também o fator genético: os dois lados da minha família têm tendência à obesidade. Aí fica difícil, né? Mas nunca deixei de me cuidar, até porque sabia que não podia dar chance para as doenças oportunistas que atacam as pessoas obesas, como diabetes e problemas do coração. Por isso, sempre frequentei a academia para fazer musculação, exercícios aeróbicos e natação. Isso sem falar dos checkups anuais no médico. Quando cursei a faculdade de biologia, aprendi mais sobre o funcionamento do meu corpo e a importância de me cuidar. Aí, em 2011, já formada, prestei uma prova e consegui uma vaga para atuar como professora contratada eventual em uma escola pública da minha cidade, para dar aulas de química, biologia ou ciências sempre que algum professor faltasse. A experiência foi tão boa que me apaixonei pelas salas de aula e me descobri nessa profissão!

Ralei muito para passar na prova

Passei três anos trabalhando como professora eventual. Só que a cada fim de ano meu contrato com a escola vencia e eu precisava prestar uma nova prova para continuar trabalhando no ano seguinte. Era sempre um transtorno. Para piorar, eu não tinha direito a férias, fundo de garantia, estabilidade financeira, nada... Por isso, em novembro de 2013, quando já estava dando aulas numa universidade, resolvi prestar um concurso público que poderia me dar o cargo de professora efetiva na rede pública de ensino. Tive que me desdobrar para me preparar para a prova. Sempre que tinha um tempinho livre, mergulhava nos estudos! Isso tudo sem deixar de me dedicar aos meus alunos e às minhas aulas. Na véspera de Natal, veio a surpresa boa: eu tinha me classificado em 15° lugar e podia escolher meu cargo entre as vagas disponíveis para professores efetivos na região. Que felicidade! Em janeiro, optei por trabalhar em Matão, uma cidade vizinha. A única coisa que faltava era fazer a perícia médica, que seria no mês seguinte. Era aí que meu pesadelo ia começar...

Descobri que poderia ser reprovada por causa do IMC

Fiz hemograma, exame de urina, Papanicolau, eletrocardiograma e levei para a perícia. Lá, fizeram um exame de vista e mediram minha pressão. Como estavam sem balança, me perguntaram minha altura e peso. Sem hesitar, informei: 1,65 m de altura e 117 kg. Anotaram e disseram que eu estava liberada para ir embora. Fui tranquila, achando que tinha dado tudo certo. Só que, alguns dias depois, comecei a ler sobre casos de pessoas que tinham sido impedidas de assumir os cargos por estarem com IMC de obesidade mórbida. Fiz os cálculos da forma como a Organização Mundial da Saúde estabelece (o peso dividido pelo quadrado da altura) e o resultado foi 42,98. Acima de 40, a pessoa tem obesidade mórbida. Não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. Nunca imaginei que um concurso público pudesse ter o descaramento de fazer uma discriminação ridícula como essa. Qual era o problema de eu estar acima do peso? Eu já era professora do estado, uma pessoa superativa, e não tinha absolutamente nenhum problema de saúde. Me cuidava demais e podia provar que era saudável, apesar da obesidade. Que absurdo!

Minha gordura não influencia minha competência!

Quinze dias depois, foi publicado no Diário Oficial da União que eu não estava apta para exercer meu cargo. Quando vi, não me surpreendi. Mas não deu para conter a raiva. Na mesma hora já pesquisei o que precisaria ser feito para recorrer daquela decisão absurda. Então entrei com uma reconsideração no Departamento de Perícias Médicas do Estado. Apresentei atestados de todos os médicos que me atenderam nos últimos anos provando que eu tinha uma saúde perfeita. Argumentei que nunca tinha pedido uma única licença na escola estadual em que trabalhava havia três anos. Dois dias depois, fui chamada para o Departamento de Perícias Médicas do Estado para refazer os exames. Além de ter sido muito mal tratada pelos médicos que me atenderam, a tentativa acabou não dando em nada. Fui novamente considerada inapta. Disseram que, além da obesidade mórbida, eu tinha outras doenças relacionadas que não podiam ser reveladas por ética médica. Só que eu não ia desistir! Entrei com um pedido de recurso na Secretaria de Gestão Pública, mas também foi negado. Só me restava recorrer à Justiça. Pedi ajuda para minha prima, que é advogada e, em junho, entramos com uma medida judicial. O juiz não quis conceder a liminar que me faria tomar posse do cargo imediatamente porque julgou que eu não tinha urgência. Ele preferiu esperar o Estado se pronunciar para só então dar a sentença do caso. Ainda estou esperando isso acontecer. Realizei minha cirurgia bariátrica em Março de 2015 e eliminei 40kg. Com isso, minha advogada entrou com um novo recurso e o juiz solicitou novos exames no Instituto de Medicina Social e Criminologia de São Paulo. Fui muito bem atendida pela médica que me examinou. No laudo, a resposta que eu já sabia: estava apta pela função. Assim sendo, o juiz liberou a minha vaga, porém o Estado entrou com um novo recurso para rever a decisão, só para me complicar. Eles julgam a liberação como uma nova chance, porém, sabemos que isso foi somente uma constatação do que já sabíamos. Desde fevereiro de 2017 aguardo o novo posicionamento do Estado para que liberem a minha vaga. Caso ele decida não me dar razão, vou entrar com outros recursos em instâncias superiores da Justiça. Vou lutar por meus direitos até o fim, porque não há absolutamente nada no edital do concurso que fale sobre pessoas obesas não serem aptas para o cargo de professor. Tenho direito a ele porque o conquistei com meu esforço, passando em um concurso público. Não há nada de errado com minha saúde! Meu peso não me impede de subir escadas, de continuar dando aulas e de prestar consultoria como bióloga. Minha gordura não afeta minha competência!

Ana Carolina Buzzo Marcondelli, 33 anos, professora, Araraquara, SP

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10/05/2017 - 12:38

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