Fui espancada pela minha parceira e hoje trato de mulheres abusadas

Tentei me suicidar duas vezes e ainda faço terapia para entender que a culpa não foi minha; eu não devo perdão àquela mulher

Reportagem: Gabriella Gouveia

Ela começou a me bater, me jogar contra a parede e me dar vários socos. Quebrou minhas costelas e deixou meu corpo completamente roxo | <i>Crédito: Redação Sou Mais Eu/ Divulgação
Ela começou a me bater, me jogar contra a parede e me dar vários socos. Quebrou minhas costelas e deixou meu corpo completamente roxo | Crédito: Redação Sou Mais Eu/ Divulgação

Era março de 2015 e eu estava envolvida em um projeto social para recuperar a autoestima de mulheres que tinham sofrido algum tipo de abuso. A iniciativa contava com voluntárias de diferentes profissões e, na época, eu trabalhava como consultora de moda. Fui escalada para produzir o ensaio fotográfico do projeto. Precisávamos de uma fotógrafa para fazer as imagens. Foi aí que uma amiga sugeriu a Ana*, uma advogada que fazia das fotos seu passatempo. 

Marquei uma reunião com a Ana para explicar o projeto e ela topou na hora. Trabalharia sem ganhar nada, assim como todas as voluntárias. Nosso contato começou no âmbito profissional, mas logo percebemos que estávamos nos envolvendo além daquele trabalho. Nos apaixonamos perdidamente. É difícil precisar o que me atraiu nela, mas sentia algo muito forte toda vez que estávamos próximas. Podia jurar que era amor.

Mesmo aceitando fazer parte do projeto, Ana passou a agir de maneira estranha. Sem comprometimento algum com a causa, ela sequer ia às reuniões! No final das contas, depois de muitas discussões com as meninas do grupo, ela mesma optou por não fazer as fotos. Uma pena! O fim do trabalho dela com o projeto não foi o fim da nossa relação, foi apenas o começo. E que começo...

Com uma semana de namoro, Ana me traiu

Nossa relação começou toda errada, confesso, mas desde o início ela tinha um poder muito forte sobre mim. Quase sobrenatural. Com ela, nada fluía bem. Era como se uma energia ruim vivesse por perto. Ela me dominava.

Estávamos namorando há uma semana quando ela me contou sobre uma viagem a trabalho para a Argentina. Ela foi, voltou e seguimos namorando. Um mês depois descobri, por fotos no Facebook, que a viagem tinha sido a lazer, nada de trabalho. E o pior: ela havia embarcado com a ex-namorada! Uma traição escancarada. Coloquei Ana na parede e ela negou sem parar. Graças ao poder de persuasão dela, acabei perdoando. Ela disse que tinha sido apenas uma despedida daquele namoro falido e eu, tonta, acreditei. Na verdade elas nem tinham terminado. Perdoei mesmo assim e continuei no relacionamento. Pouco tempo depois fomos morar juntas em São Bernardo (SP), no apartamento dela. Minha semana passou a ser assim: de quinta a domingo ficava com ela e de segunda a quarta dormia em São Paulo, na casa dos meus pais.

Maldita hora que perdoei aquela mulher

A cada dia que passava, Ana se mostrava pior, um monstro! Ela mentia diariamente e por motivos banais. Para comprar pão na padaria ela precisava inventar uma história, dizia que tinha demorado porque havia rolado um assalto e por aí vai. O esporte preferido dela era me criticar, me colocar pra baixo. Ana falava que eu não era nada e nunca iria ser. Enquanto se enaltecia por conta da profissão, me desvalorizava por eu não ter completado a faculdade. Foi assim durante oito longos meses.

Com o tempo passei a desconfiar dela. A angústia da falta de confiança também trouxe outros sintomas: fiquei doente! Tive crises de ansiedade, ataque cárdia, suava frio e para ela não passava de encenação minha. Para tratar minha depressão, fui me consultar com um psiquiatra. Meu doutor sabia o que eu passava com a Ana e aumentava a medicação a cada crise. Mas parecia que nada era suficiente para me curar daquele mal.

Tentei suicídio duas vezes

Em agosto de 2015, tomei as medicações em alta dosagem para dar um fim na minha vida. Conversando por mensagem com meu médico, comentei que estava deprimida e só via solução para aquele relacionamento na morte. Imediatamente ele ligou para os meus pais e os alertou do que já era previsto: minha tentativa de suicídio. Mamãe e papai me levaram ao pronto-socorro para fazer lavagem gástrica e me livrar daqueles comprimidos. Lembro do meu coração batendo lentamente. Meu corpo estava se esvaziando de vida. Foi quando colocaram um tubo do meu nariz até o estômago e, aos poucos, voltei a mim. Foi uma sensação horrível. Vi a cara da morte.

 Parecia um recomeço, mas foi minha ruína

Fui para a casa dos meus pais e me recuperei. Eles imploraram para que me afastasse dela, mas minha promessa durou só um mês. Eu achava que a culpa era minha. Desbloqueei a Ana das redes sociais, depois de receber um e-mail dela pedindo para conversar comigo. Aceitei. Ela confessou que sentia muito minha falta e implorou para que eu voltasse para a casa. Aceitei de novo. Ana disse que estava se tratando, mas era outra de suas mentiras e eu caí! Voltaram todos os insultos e enganações. Entrei mais fundo no relacionamento e tentei o suicídio novamente. Dessa vez, cortei o pulso. Estava na casa dos meus pais e eles me socorreram de novo. Tomei seis pontos. Hoje tenho uma tatuagem para cobrir a cicatriz.

“É frescura sua”, ela dizia

Minhas tentativas de morte não passavam de exagero e frescura aos olhos de Ana. Em novembro, uma semana depois da minha segunda tentativa de suicídio, ela foi para João Pessoa. A desculpa da vez era um concurso na sua área. A tal da ex, a Márcia, também viajaria junto. Ela já não fazia mais questão de me esconder o relacionamento com essa mulher. Aquilo me matava dia após dia. Entrei no fundo do poço, implorei para que não fosse, para que não me deixasse. Fria como de costuma, Ana desligou o celular e sumiu. A partir daí parei de me alimentar. Tinha engordado 30kg desde que comecei a me envolver com ela e no período dessa viagem emagreci 10kg em uma semana de sofrimento. Passei o mês inteiro na casa dos meus pais e ela sequer me procurou de novo. Quando eu ligava, ela nem atendia o celular.

Ela tentou me matar no Natal

No Natal de 2015 a Ana me enviou uma mensagem pelo Facebook dizendo que tinha sido estuprada. Não tive dúvidas, fui correndo para São Bernardo. Surpresa: nada tinha acontecido. Descontrolada, ela começou a me insultar, gritar e me rebaixar. Parecia que estava possuída. Ana tinha cheirado cocaína e fumado maconha naquele dia. Estava muito violenta. Escondeu a chave do apartamento para que eu não fosse embora, arrancou o celular das minhas mãos e apagou minha agenda de contatos. Não conseguia pedir ajuda para ninguém. Peguei a chave dela e corri para a varanda do prédio com a intenção de me jogar e acabar logo com aquilo. Ela começou a me bater, me jogar contra a parede e me dar vários socos. Quebrou minhas costelas e deixou meu corpo completamente roxo. Eu estava em cima de uma banqueta com o quadril para fora da sacada, enquanto ela me balançava, tentando me jogar. Graças a Deus meus pais deram falta de mim em casa e foram até lá com medo do que poderia estar acontecendo. Eles me viram naquela situação assim que chegaram no prédio. Eu estava pendurada na janela, prestes a ser assassinada. Prontamente ligaram para os bombeiros e, em três minutos, um carro me socorreu e Ana me largou. No hospital, quiseram me internar como tentativa de suicídio, mas meu médico não deixou. Ele sabia que a Ana me perturbava e que era ela que causava tudo aquilo. Tentei fazer boletim de ocorrência, mas não funcionou. Ouvi dos policiais que era “normal” duas lésbicas se baterem e que “depois fica tudo bem”. Foi humilhante.

Deixei o passado para trás: a culpa não é minha!

Faz um ano que não a vejo, ela finalmente sumiu. Depois das cenas de horror que vivi naquele Natal, soube que a Ana foi para a Bahia com a Márcia passar as férias de verão. Mas até novembro passado ela mandava mensagens ofensivas. Além de xingamentos, Ana dizia que eu tinha arruinado a vida dela e que me odiava. Estou fazendo terapia para enxergar que a culpa não é minha e que eu não preciso pedir perdão.

Meu maior arrependimento é ter perdoado ela da primeira vez, ali eu deveria ter largado tudo, sem dar outra chance. Sinto que se tivesse ido embora naquela hora as coisas teriam sido muito diferentes. Não teria sofrido o que sofri nas mãos dela.

Sigo me recuperando e tentando superar o relacionamento abusivo que vivi. Comecei a fazer terapia floral e bioenergética. Continuo com acompanhamento do meu psiquiatra e faço meditação. Hoje trabalho em uma casa de reabilitação de mulheres que passaram por algum tipo de abuso. Atendo pacientes com depressão, transtorno de ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, síndrome de Boderline, bipolaridade e qualquer transtorno psicológico. Descobri que ajudando outras mulheres que passaram o mesmo que eu ajuda a me recuperar e encontrei forças apoiando outras vítimas. Aplico terapia floral em todas e as vejo renascer das cinzas.

Annie Donato, 34 anos, terapeuta floral, São Paulo, SP

* nome fictício


DA REDAÇÃO

A Lei Maria da Penha também funciona para mulheres que batem em mulheres

É comum a mulher se culpar pela violência que sofreu, mas o agressor deve ser responsabilizado por seus atos. A denúncia é feita pelo número 180 ou em uma delegacia da mulher e pode ser registrada a qualquer instante, não necessariamente logo após a violência sofrida. De acordo com a advogada especialista de defesas e recursos nas áreas relacionadas ao direito da família, Fernanda Zucare, agressões a homossexuais também se enquadram à lei Maria da Penha “No caso de casais de mulheres e transexuais que se identificam como mulheres em sua identidade de gênero, a vítima sempre precisará ser do sexo feminino. O agressor pode ser do sexo masculino ou feminino”, explica.

Após a denúncia, as vítimas podem sentir-se inseguras. Para isso a Doutora comenta que é possível pleitear uma medida protetiva para que o agressor não se aproxime da vítima, por exemplo. O juiz pode determinar a medida em caráter de urgência para proteger a pessoa agredida e sua família. Caso haja descumprimento o agressor poderá ser preso.

Denuncie pelo 180!

O número é para casos de violência contra a mulher e funciona 24 horas no Brasil todo. Além de orientar a vítima, os atendentes encaminham uma visita da polícia quando necessário. 


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18/01/2017 - 17:25

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