Fui de catadora de lixo a funcionária pública

Me dediquei para dar a volta por cima e meus filhos, que passavam fome, agora têm geladeira cheia!

Reportagem: Luiza Furquim (com colaboração de Luiza Schiff)

É preciso acreditar! | <i>Crédito: Redação Sou Mais Eu
É preciso acreditar! | Crédito: Redação Sou Mais Eu
Eu era uma reles catadora de latinhas com quatro filhos pequenos para alimentar e um marido desempregado quando resolvi prestar concurso para o Tribunal de Justiça do Distrito Federal, em 2000. Morava num barracão de madeira, num terreno invadido, e ralava para dar o que comer para as crianças com R$ 50 mensais. Até a metade do mês, a gente tinha arroz com feijão. Depois, era só arroz mesmo.

Levava os meninos pra escola em um carrinho de mão 
Só sobrevivi a essa fase porque minha mãe me dava cesta básica todo mês e pagava minha conta de luz. Meu irmão também ajudava com o gás. Eu já tinha trabalhado como empregada doméstica e até como agente de saúde, mas trocaram o governo da cidade e demitiram todo mundo. Meu marido, o Elionor, que varria ruas, também rodou. Sugeri que catássemos latinhas para sobreviver. No começo, ele teve vergonha, mas a necessidade falou mais alto. 
Olha que eu tinha ensino médio completo e dois cursos técnicos – um de administração e outro de enfermagem! Mas, como tenho lábio leporino e voz fanhosa, nunca era chamada. Até tinha me inscrito para cirurgia num hospital público, mas a espera era longa. Levava as crianças pra creche de manhã e, como a diretora não queria ninguém de pé sujo, carregava os quatro num carrinho de mão. Era nesse mesmo carrinho que a gente recolhia as latas para vender ao fim do dia. 
Um dia, indo buscar latinhas no centro, li no jornal de concursos que ficava exposto na banca que estavam abertas as inscrições para técnica judiciária. Como queria ser funcionária pública desde criança, seguindo os passos do meu falecido pai, decidi pegar dinheiro emprestado com cinco amigos para conseguir os R$ 25 da inscrição. 
No mesmo dia, minha mãe ligou avisando que eu tinha sido chamada para a cirurgia do lábio leporino. Que dia! Fui para a casa dela com as crianças, me internei na segunda-feira, operei na terça, e já saí na quarta. E, daí, mergulhei nos livros para estudar!

No nosso grupo de estudos, quem errasse levava um tapão
Minhas duas irmãs, a Ana e a Iara, também se inscreveram no mesmo concurso. Fiquei 15 dias na casa da minha mãe para estudar com elas. Ouvi muita crítica por isso, mas valia o risco: o salário inicial era de quase R$ 1.500! Para mim, era como ficar milionária. Eu e minhas irmãs montamos um grupo de estudos. A gente começava às 8h, parava ao meio-dia (para comer e arrumar a casa), e ia até às 23h. 
O concurso tinha oito matérias, entre elas direito administrativo e direito penal. Eram coisas que nunca tinha estudado. Bolei um cronograma em que a gente estudaria usando apostilas que minha mãe comprou. A gente também tinha três dicionários para fazer a lista de termos jurídicos que não conhecia. Para decorar essas palavras, fazíamos um jogo: quem errasse tomava um tapão no braço. Tomei vários, mas aprendi. 
Às 23h, minhas irmãs iam dormir, mas eu ficava lendo a matéria do dia seguinte até às 2h. É que, por ser a mais velha, eu me sentia na obrigação de explicar o conteúdo para as duas. Aí, acabava estudando tudo duas vezes. Isso e o fato de ter explicado tudo para elas me ajudou a entender bem o conteúdo.

Passei de primeira, mas quase não consegui tomar posse
No dia da prova, até me surpreendi. Sabia váaarias respostas! Entreguei o teste faltando cinco minutos para acabar o tempo e voltei para casa. Preferi não criar expectativas, por medo de me frustrar. Um mês depois, a Iara foi me levar ao hospital e passamos numa banca. Ela comprou o jornal com a lista dos aprovados e pegamos o ônibus. 
Eu estava olhando pelo vidro, preocupada com as crianças – ia voltar pra casa com as dores da operação, a luz estava cortado, o gás tinha acabado... Foi, aí, que a Iara falou: “Lene, você passou!”. “Passei onde, menina?”. “No concurso! Olha aqui seu nome!” Me deu uma emoção tão forte que ficamos, as duas, berrando de alegria no ônibus. O motorista até se assustou! 
O que não sabia é que tinha engravidado numa das vezes em que o Elionor foi me ver na casa da minha mãe. Até ser chamada para tomar posse, oito meses depois, continuei pegando latinhas com ele. Na sexta-feira que comecei a sentir as dores do parto, chegou o aviso que tinha de tomar posse na quarta seguinte. Dei à luz no domingo, de parto natural. O Israel nasceu um pouco febril e eu tive alta, mas ele não. Não podia deixá-lo sozinho no hospital e a médica não queria me deixar sair. 
Aí abri o jogo: - Doutora, se não conseguir esse emprego e meus filhos virarem tudo ladrão, eles vão assaltar a senhora! Mas, se tiver um emprego, os cidadãos vão ficar livres disso!
- Tá, mas volte às 18h30. Ou vou colocar a polícia atrás de você, por abandono de menor!, avisou.
Combinamos assim, e fui para a posse toda feliz. Na volta, até jantei, de tão alegre, e perdi o horário. Cheguei ao berçário e a polícia já estava me procurando. Mas, aí, me viram e ficou tudo certo. Eu era a nova técnica judiciária do Tribunal de Justiça, recebendo mais do que imaginava por causa do auxílio-creche e vale-alimentação. Comecei o serviço de licença-maternidade e recebi uns quatro auxílios de uma vez, uma bolada de mais de R$ 4.000!

Nunca tinha visto tanto dinheiro na minha vida
Até pisquei de tonta quando vi meu saldo no banco. Era muito dinheiro, deu pra reformar e mobiliar minha casa! Os vizinhos acharam que estava vendendo drogas. Pode?! Mas todo mundo fez fila para sentar no meu sofá novo! E, finalmente, pude alimentar e vestir meus filhos como gente decente.
Hoje, já mudei de casa, moro em Brasília, a 15 minutos do Tribunal, e dou tudo o que meus filhos precisam, os cinco. E olha que agora crio a molecada sozinha, porque o Elionor saiu de casa. Ele não soube lidar com a quantidade de dinheiro que a gente tinha. Deslumbrou no começo e, um dia, foi embora. Minha filha mais velha vai se formar esse ano em Direito e chegou a fazer estágio comigo. Os outros estão na escola. A geladeira e o cesto de frutas vivem cheios! 
Finalmente, tenho um teto digno para morar com meus filhos e posso ajudar meus parentes. Inspirados pelo meu sucesso, meus irmãos e irmã continuaram prestando concursos e, hoje, tem gente na polícia rodoviária, na federal e num tribunal de Minas. Estamos todos feitos. Sou uma pessoa realizada, mas não vou parar por aqui. Estou cursando a faculdade de serviços penais para me tornar Secretária de Segurança Pública. E eu acredito que dará certo. A vida me provou uma vez que eu sou do tamanho dos meus sonhos. 

Marilene Lopes, 43 anos, técnica judiciária, Brasília, DF

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18/05/2017 - 15:34

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