Fiquei cega do nada e construí uma vida vitoriosa!

Sozinha e com um bebê no colo, quase surtei. Mas resolvi reagir: reencontrei o amor, criei mais três filhos, abri uma loja e fiz faculdade.

Reportagem: Luiza Furquim (com colaboração de Luiza Schiff)

A cegueira me ensinou que ninguém vive sozinho no mundo e há muita gente boa por aí. | <i>Crédito: Redação Sou mais Eu
A cegueira me ensinou que ninguém vive sozinho no mundo e há muita gente boa por aí. | Crédito: Redação Sou mais Eu
Quando eu era criança, amava brincar de cabra-cega. Mesmo vendada, descobria onde todos meus amiguinhos tinham se escondido, porque prestava atenção nos barulhos e tinha paciência. Nem imaginava que um dia essas habilidades salvariam minha vida! No dia 2 de janeiro de 1995, cheguei do serviço (era doméstica) e fiz o de sempre: limpei a casa, cuidei da minha filhinha, Sande Bianca, comi sopa de macarrão e fui para a cama. Dormi bem, nem sonhei. Quando acordei, abri os olhos e... continuava noite?! Tateei meu caminho até a janela e pus a mão no vidro, que estava quente. Abri a porta do quintal e senti o calor do sol em mim. Senhor, eu estava... cega! Esfregava os olhos e nada. Não havia dor, coceira... Só escuridão. Tanta coisa passou pela minha cabeça! Por que aquilo tinha acontecido? Seria passageiro? Lembrei da minha filha, de apenas 3 meses. “O que vou fazer da vida?!” Eu ainda não sabia, mas a cegueira era definitiva e a causa dela, bem, só Deus sabe.  
 
Por dois anos, fiz exames que não deram nada  
Voltei para dentro de casa o mais rápido que pude, peguei minha filha e fui pedir socorro à vizinha - eu era separada e vivia sozinha. Andei de ré até o portão. Assim, se batesse em algo, não machucaria o bebê. Deixei a menina na vizinha, que nem se preocupou tanto, pois achou que meus olhos logo se normalizariam. Sozinha, andei até à casa de mamãe, a duas quadras dali. Fui tateando o chão com os pés e, na esquina, gritei: “Mãe, me ajuda!”. Ela veio e perguntou o que eu estava fazendo parada ali. “Estou cega!”, disse.   

Desisti de achar a cura e tratei de voltar a viver.
No mesmo dia, começaram as idas aos médicos. Larguei o emprego e fui morar com meus pais. Passei a viver tão focada em tentar achar minha cura que isso acabou me impedindo de enlouquecer de vez. Também ajudou muito pensar que tinha de ficar bem para cuidar da Sande. Durante os dois anos seguintes, minha vida se resumiu a exames de vista. Fiz mais de 30, mas doutor nenhum descobriu o que eu tinha. Meus exames não apontavam nada. Cheguei a dar entrevista para o jornal local e uma família rica me “adotou”, bancando exames caros em outras cidades, como Campo Grande e Goiânia. Os doutores não tinham resposta para o meu caso, só hipóteses: descolamento de retina, falta de vitamina A... Até virose eles chutaram! Quando notei que ninguém descobria o que eu tinha, fiquei preocupada. Vivia à custa dos meus pais e estava perdendo os primeiros anos da minha filha. Cansei daquela vida de exames, alguns dolorosos. Resolvi deixar na mão de Deus. Desisti mesmo de encontrar uma cura, porque o estresse não valia a pena. Fui atrás de uma aposentadoria pelo INSS enquanto pensava em que rumo dar à minha vida. Eu tinha um vazio no peito, porque ainda estava apegada à minha visão. Me sentia inútil. Para “ajudar”, uns babacas do bairro colocavam objetos no meu caminho para que eu esbarrasse e eles tivessem certeza de que eu estava cega. Nem quando conheci o Isaac, meu marido, as coisas melhoraram. Eu conseguia, sim, ser uma boa dona de casa. Mas não me queimar no fogão e deixar o chão brilhando - mesmo sem poder ver se ele tinha ficado limpo - não era o bastante para fazer eu me sentir bem comigo mesma.   

Virei locutora de rádio!
Conheci o Isaac em 1998, na casa de uma amiga. Eu sabia andar e me portar tão naturalmente que ele nem notou que eu era cega! Nunca fui das mais vaidosas, mas continuei me cuidando direitinho. Roupa, por exemplo: sei todas que tenho. Memorizo o que combina com o quê e distingo uma peça da outra por detalhes, tipo uma renda, uma costura, um botão a mais... Depois de poucos meses de namoro, fui morar com o Isaac. Para ter renda, vendia perfumes pelas ruas do bairro e em casa, para gente da região. Também vendia tapetes de retalho que eu mesma costurava. Tive mais três filhos: uma menina (Sindel Micaelli, 18 anos) e dois gêmeos (Serraniqui Sanei e Sanlei Saxua, 14 anos). Isso me ajudou a desenvolver a audição e o tato, porque era dureza fazer mamadeira para três (Sande ficou morando com meus pais) enquanto preparava o banho dos caçulas. Uma vez, pisei num carrinho que estava no chão, caí e quebrei a clavícula. Em 2005, por causa da minha misteriosa cegueira, fui dar entrevista na Rádio Clube de Dourados. Gostaram tanto da minha voz que me convidaram para trabalhar lá. Virei locutora de um programa de música sertaneja! Todo sábado, das 8 h às 10 h, eu tocava canções pedidas pelos ouvintes, abria espaço para declarações de amor, decorava e recitava mensagens de otimismo. Ganhava R$ 400 por mês.
 
Passei no vestibular  
Fiquei quatro anos na rádio - durante o programa, Isaac cuidava das crianças. Para me locomover mais rápido, pagava R$ 100 para um sobrinho me servir de guia. Aos poucos, fui “vendo” que tinha capacidade de ser mais do que mãe e esposa. Comecei a dar valor para as habilidades que estava desenvolvendo, como a audição e a capacidade de saber o humor das pessoas só pelo tom de voz. Com a autoestima reconstruída, decidi terminar o ensino fundamental e o médio. Voltar a estudar foi difícil porque as escolas não tinham condições de acomodar bem uma cega. Eu precisava que as pessoas lessem tudo para mim, aí memorizava e fazia prova oral. Até aprendi a ler em braile, mas assimilo mais rápido quando leem para mim. Passei num “provão” que eliminava as matérias da 7 ª e 8ª séries - eu tinha até a 6ª - e fui para o ensino médio. Como meu objetivo eram os estudos, saí da rádio e passei a vender cosméticos em casa. Até maquiagem eu vendia. No 3º ano, fiz o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), ditando as respostas para um fiscal. Tirei 8,7, o que me garantiu bolsa integral para o curso que escolhi: ciências contábeis. Adoro fazer contas! Faço tudo de cabeça. Calculo raízes quadradas, faço divisões com números de até oito dígitos... Acerto mais do que muita gente que enxerga!  

O sexo ficou ótimo!
Às vezes, é ruim não enxergar. Outro dia arrumei os gêmeos para uma festa junina e um disse: “Mãe, você não pode me ver, mas eu tô lindo”. Doeu. Porém, a cegueira tem suas vantagens. Fiz curso de massagem e acho os pontos de pressão com rapidez, saco de cara o estado de espírito das pessoas, sei “ver” a beleza delas tocando seus rostos com a ponta dos meus dedos, tenho ótima memória e audição e o sexo ficou bem melhor do que quando eu enxergava. Sinto cada carícia com uma intensidade imensa! 

Dei a volta por cima
A cegueira me ensinou que ninguém vive sozinho no mundo e há muita gente boa por aí. Recebi tanta ajuda e apoio... Terminei a faculdade e fiz a minha pós-graduação depois de muito esforço. Hoje tenho uma loja de roupas e cosméticos. Minha filha Sindel, de 18 anos, me ajuda. Fica no caixa para não me enganarem no pagamento, e me ajuda a escolher as roupas que revenderemos. Faturo uns R$ 700 por mês e vivo bem com isso Ah, e ainda sirvo de inspiração para os clientes, que dizem: “Se ela consegue, eu também consigo”. Tanta coisa boa que nem quero mais curar minha cegueira.  
Jusselene Ferreira da Silva, 42 anos, vendedora, Dourados, MS

Da redação 
Quando alguém fica cego do dia para a noite, é comum que tenha acontecido uma hemorragia no fundo do olho, onde fica a retina. “É um sangramento, como se fosse um derrame”, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO), João Alberto de Freitas. Esse sangramento pode ocorrer por causa de uma pancada - como em um acidente de carro - ou por doenças, como diabetes e pressão alta. No caso do diabético, os vasos sanguíneos da retina ficam frágeis e se rompem com maior facilidade. Já no hipertenso, a pressão nesses vasos é tão grande que eles podem estourar. Felizmente, ambos os casos podem ser resolvidos por meio de cirurgia. Outro problema que causa a cegueira súbita é o descolamento da retina, que pode acontecer em quem tem muita miopia, como 10 graus. “Existem também os casos de doenças inflamatórias oculares, como a toxoplasmose, em que uma lesão na retina provoca a cegueira. E ainda as doenças que afetam os nervos, como a esclerose múltipla. Muitas vezes, o primeiro sintoma é a perda instantânea da visão”, explica a professora Cristina Muccioli, da Unifesp. Ela diz que, assim que a pessoa sofrer a perda da visão, deve correr para um médico! Muitas vezes, tratar rapidamente o quadro é o que garante a recuperação do paciente, que volta a enxergar como antes. Cegueira repentina pode ter recuperação!

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06/06/2017 - 17:14

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