Eu sou transexual e dirijo uma escola

Ter adequado meu sexo me deu tanta força para vencer preconceitos que hoje sou diretora de um colégio inclusivo

Reportagem: Helena Bertho (com colaboração de Luiza Schiff)

Eu nunca vou parar de lutar pelos meus direitos! | <i>Crédito: Redação Sou mais Eu
Eu nunca vou parar de lutar pelos meus direitos! | Crédito: Redação Sou mais Eu
Ele - e me recuso a revelar seu nome - era simpático e inteligente. Dava aulas de história num colégio de freiras na pequena Guarapuava, no Paraná, era produtor numa rádio local e ainda fazia teatro. Estudava e trabalhava tanto que quase não tinha vida social. Melhor assim. Com a agenda cheia, não sobrava tempo para lidar com o drama que o atormentava dia e noite: ter nascido mulher, mas num corpo de homem. Quem era ele? Bem... Ele era eu!

Mamãe me fez um pedido cruel em seu leito de morte

Desde que me dei por gente já me sentia menina. Tinha trejeitos femininos, adorava vestir os shorts curtinhos da minha irmã, usava o cabelo comprido e morria de vergonha do meu pênis. Mamãe não ligava. Já meu pai ficava louco. Chegou a raspar meu cabelo quando eu tinha 7 anos enquanto eu chorava descontroladamente.
Minha família era muito pobre, vivíamos numa invasão de terra. Eu fazia das tripas coração para não abrir mão dos estudos e dar conta de ajudar a botar comida na mesa, fosse pegando restos do lixo do mercado ou fazendo bicos de jardinagem. Éramos bastante católicos e, quando eu me confessava, o padre dizia que aquilo era coisa de criança, que ia passar. Acreditei nisso até os 14 anos, quando me apaixonei pela primeira vez.
Ele era um garoto e também vivia lá na ocupação. Escrevi uma carta me declarando. O idiota saiu mostrando pra todo mundo, tirando sarro. Minha mãe, que já estava bem mal dos rins, piorou horrores ao saber da história. Abatidíssima, me fez prometer: eu pararia de me portar como menina e nunca mais vestiria roupas de mulher. Um ano depois, ela morreu. Achei que a culpa era minha. E decidi fingir que era homem.
Após a morte de mamãe, meu pai, super preconceituoso me expulsou de casa e uma ONG me acolheu e me levou para viver com um padre. Yulius era um alemão muito bondoso. Me deu abrigo, comida e educação. Graças à ajuda dele, fiz faculdade de história e me capacitei a dar aulas - sempre encenando o papel de homem. Ao mesmo tempo, comecei a trabalhar no rádio e descobri o teatro, único lugar onde eu podia ser eu mesma.
Só que essa válvula de escape não foi o suficiente e, aos 22 anos, tive uma crise de estresse. Passei dois dias inconsciente num hospital. Quando acordei, recebi a visita de um psiquiatra, que deixou claro: eu tinha cérebro de mulher e havia me estafado de tanto reprimi-lo. "Você é transexual", falou ele.
Rejeitei aquela incômoda verdade - me sentia sem forças para enfrentar tudo e todos - e voltei à minha vida masculinamente atarefada. Até que, aos 23 anos, num baile, me apaixonei por um rapaz. Fui correspondida e me entreguei de corpo e alma.

Mudei de cidade e inventei que era hermafrodita

Aquele relacionamento me fez acordar. Mudei da casa que o padre havia me dado ao deixar o Brasil três anos antes, comecei a terapia e, em pleno Ano-Novo, me assumi mulher. Saí de vestido e maquiada. A cidade inteira viu e, quatro dias depois, fui demitida do colégio de freiras onde lecionava. Em seguida, a rádio me dispensou.
Tentei refazer minha vida ali, só que o preconceito não deixava. Então, em abril de 2000, mudei para Curitiba. Cheguei à nova cidade já como Laysa, o nome que escolhi para identificar quem realmente sou! Por um tempo, só banquei isso na vida pessoal. Profissionalmente, precisei continuar sendo "o homem". Mas, em 2003, comecei a abrir o jogo: dando aula num supletivo, me assumi Laysa. Para justificar, inventei que era hermafrodita (pessoa que nasce com os dois órgãos genitais) e cativei a solidariedade de todos. Enquanto estive lá fui muito bem acolhida, podendo ser eu em tempo integral!
No fim daquele ano passei num concurso público para dar aula numa escola estadual. Porém, fui considerada inapta para o cargo: um exame mostrou que, apesar dos documentos de homem, eu tomava hormônios femininos. Tive que provar para a justiça que eu tinha condições mentais de poder dar aula. Tive de contratar um psiquiatra forense (cujo parecer serve como prova para a Justiça) para redigir um laudo, o dizendo que eu tinha condições de assumir o posto. Em paralelo, continuei com acompanhamento psicológico e o tratamento hormonal.
Quando me liberaram para trabalhar, vendi tudo o que tinha. E, em julho de 2004, fui para Jundiaí, em São Paulo, onde me livrei do que me afligia desde sempre: meu órgão masculino.
A cirurgia é complicada e a recuperação, dolorosíssima. Fiquei uma semana de repouso e voltei para Curitiba, ainda com muita dor - minha irmã foi meu apoio, pois meu namoro havia terminado. Tudo bem: estava tão feliz!
Um mês após a cirurgia virei professora de história no colégio onde estou até hoje. A receptividade foi zero! Professoras cochichavam e riam pelas minhas costas. Alunos faziam abaixo-assinados para que demitissem a "professora travesti". Era muito difícil, achei que não aguentaria!

Ser quem eu sou não me torna pior nem melhor

Aí, foi a vez de a minha irmã me obrigar a fazer uma promessa, jurando que venceria o preconceito por meio da minha capacidade de ensinar. Dei as melhores aulas e, em um ano e meio, meus esforços renderam frutos. Os alunos passaram a me tratar bem. Em seguida, foi a vez dos professores. Então, já não havia piadas nem comentários maldosos.
Dei entrada na papelada para retificar meu nome. Dois anos depois, em 2007, todos os meus documentos diziam: Laysa Carolina Machado, sexo feminino! Ninguém mais poderia dizer que eu não era mulher! Mesmo com o documento já retificado e provando quem eu era, em 2017, tive que terminar o meu relacionamento com um rapaz evangélico. Puro preconceito! 
Em 2008, saí candidata à direção do colégio, com mais dois colegas - aqui o cargo é eleito por pais, alunos, funcionários e professores. Foi briga acirrada, mas vencemos! Tão logo assumimos, começamos uma transformação pedagógica. O lugar que me recebeu com preconceito por eu ser transexual se tornou um colégio inclusivo. Receptivo a transexuais, homossexuais, negros, deficientes... Aqui são todos iguais. De verdade!
Hoje levo a vida 100% como mulher. Moro desde 2007 com um homem maravilhoso. Além da minha carreira na educação, sigo na atuação. Já fiz peças de teatro e agora estou sendo protagonista de um curta-metragem e uma WebSérie. Abri um canal no Youtube “Coisa da Laysa”, que foi premiado. 
Sinto-me especial por tudo o que enfrentei, mas sonho com o dia em que ser transexual não vai significar nada além de uma pessoa que nasceu com o sexo errado e opera para adequar seu corpo à sua personalidade. Pois é só isso que eu sou, e isso não me torna melhor ou pior do que ninguém. Eu fui à primeira diretora transexual da América Latina e eu tenho muito orgulho disso! O Brasil é o país que mais mata transexuais no mundo e eu sempre vou lutar pelos nossos direitos, estamos em tempos de ódio, mas eu carrego a ideologia do amor! 

Da redação
Mudança de sexo pode ser feita pelo SUS
A cirurgia que custou R$ 15 mil a Laysa também é feita pelo SUS. Homens que se consideram mulheres podem pleitear mudança de sexo nos hospitais públicos a partir dos 19 anos. Esta é a idade mínima para começar a terapia e o tratamento hormonal. A partir dos 21, tendo corrido dois anos do diagnóstico de distúrbio de identidade de gênero e do acompanhamento psicológico/hormonal, pode ser feita a operação de troca de sexo. Existe uma portaria em discussão no Ministério da
Saúde que muda essa idade para 18 anos, mas ainda não está em vigor. Essa mesma portaria pode tornar disponível o atendimento a mulheres que queiram fazer retirada de útero, ovários e mamas. Porém, por enquanto, o atendimento é oferecido somente para homens, incluindo: acompanhamento psicológico e psiquiátrico, tratamento hormonal e cirurgia para retirada do pênis e construção de uma neovagina. Para conseguir atendimento, o transexual deve procurar um dos hospitais abaixo:
Hospitais habilitados ao processo transexualizador:

" Hospital de Clínicas de Porto Alegre - Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Porto Alegre, RS

" HUPE Hospital Universitário Pedro Ernesto - Universidade Estadual do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro, RJ

" Fundação Faculdade de Medicina HCFMUSP - Inst. de Psiquiatria Fundação Faculdade de Medicina MECMPAS - São Paulo, SP

" Hospital das Clínicas - Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás - Goiânia, GO

Laysa Machado, 46 anos, diretora escolar e atriz, Curitiba, PR

16/06/2017 - 10:00

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