Eu era bandida e me achava

Roubei, trafiquei, usei drogas e fui presa. Acabei na solitária de um manicômio judiciário, mas isso é passado, superei essa fase ruim!

Reportagem: Luiza Furquim (com colaboração de Luiza Schiff)

Agora isso faz parte do meu passado! | <i>Crédito: Redação Sou mais Eu
Agora isso faz parte do meu passado! | Crédito: Redação Sou mais Eu
Quando você é pobre como eu fui na adolescência, só tem duas saídas: ser honesta e dar o sangue todo dia para sobreviver ou entrar para o mundo do crime e ter dinheiro na mão. A gente tá ligada que a primeira opção é a certa e que também rola ficar bem na fita desse jeito. Só que dá muito mais trabalho e demora. E por mais que eu não passasse fome quando era jovem, me sentia injustiçada pela vida. Parava na frente da padaria e babava diante daqueles pães doces recheados com caramelo. Por que EU não podia comer aquilo? A carne foi fraca e fiz a opção errada. Comi o pão doce. Depois de roubá-lo. 

Perdi tudo quando meu pai morreu 

Cometi meus primeiros furtos quando tinha 12 anos. Eu havia acabado de me mudar para a cidade porque meu pai tinha morrido. Antes, morávamos numa fazenda em que papai trabalhava e nossa vida era boa. Quando ele morreu, fomos viver numa casa caindo aos pedaços numa favela de Paranavaí. Não tinha nem banheiro: era um buraco no chão ao ar livre. E só fubá para comer. Como mamãe não trabalhava, a gente sobrevivia com o seguro de vida do meu pai, um dos cinco que ele fez e que levamos meses para conseguir receber. 
O dinheiro era tão pouco que a gente comprava tudo fiado, não pagava as contas da casa e emprestava dos vizinhos. Minha mãe passava os dias no fórum ou no INSS para tentar recolher os outros seguros do meu pai. Aí, não tinha ninguém para me vigiar. E eu me achava muito esperta: enquanto meus seis irmãos ficavam no fubá, eu furtava guloseimas. 
Tinha raiva de ser pobre 
Eu achava que morava com um bando de babacas. Na minha cabeça, não havia espaço no mundo para pessoas como eles, que nunca tinham nada. Para que ser honesta? Era muito fácil virar diarista na casa de alguém e, quando a patroa saísse, fazer a rapa. Eu pegava anéis de ouro, roupas boas, sapatos, perfumes... 
Na real, eu tinha raiva de ser pobre. E queria causar. Tinha de ser a única menina de 13 anos do colégio que fumava. Não gostava de cerveja, mas, para pagar de gostosa, tomava um copo e fingia que ficava muito louca. 

Tive uma filha aos 14 anos 

Nessa bandalheira, me envolvi com um cara de 28 anos e engravidei. Dei à luz minha primeira filha aos 14 anos. Foi em 1990. Meu marido era ciumento e chegou a me bater por conversar com outro homem. Depois disso, fugi para São Paulo com a neném, fiquei cinco meses com uma tia até a poeira baixar e depois voltei para Paranavaí. Ao retornar, me envolvi com um rapaz de 17 anos, o Oséas, por quem me apaixonei e me casei. Só que, numa briga, ele matou um cara e foi preso. Quando saiu, era outra pessoa. 
O Oséas deixou a cadeia sabendo todos os esquemas da droga. Virou mula: buscava cocaína e crack no Paraguai e levava para outra cidade. Em 1998, fez uma viagem e nunca mais voltou. Morreu. 
A essa altura, eu já tinha três filhas e não trabalhava. Tive que me virar. Por isso, deixei as meninas com minha mãe e fui para Londrina com o objetivo de trabalhar. Ficaria na casa de uma amiga. Só que, chegando lá, percebi que o dinheiro dela era do tráfico de drogas. Ela era casada com um traficante. Como eu já tinha tendência pra fazer coisa errada, comecei a vender e a cheirar cocaína. 
Como aviãozinho, eu tirava até R$ 1.500 por semana, mas só uma pequena parte ia para as minhas filhas. O resto eu gastava com roupa, restaurante e droga. Nessa época, eu tinha 22 anos e comecei a buscar bagulho no morro. Fiquei conhecendo todo mundo. No começo, pegava uns 30 g de crack na favela para o "cabeça", que dividia entre os aviõezinhos para vender. Fui para o corre: ia de um lado para o outro de uma das maiores e mais mal frequentadas avenidas da cidade oferecendo droga. 
Como muito bandido por aí, eu poderia dizer que só fazia isso porque era pobre. Porque a vida não me deu oportunidade. Ai, coitadinha de mim, sabe? A excluída do sistema. A vida foi dura comigo, sim. Mas foi dura com meus irmãos também e nenhum deles entrou para o crime. O mais velho é sargento da polícia. Sei que a responsa é minha pelo rumo torto que tomei. Mas, com 20 e poucos anos, eu achava que estava arrasando. 

De traficante respeitada, virei noia 

Fiquei ainda mais arrogante quando consegui uma boca para mim e, pouco depois, me tornei mulher do chefe de outra boca. Como ele era muito temido e respeitado, virei uma espécie de primeira-dama do crime. Tinha a vida que pedi a Deus. A gente morava num apart-hotel, sempre comia fora, ia para as baladas, vestia as melhores marcas e só andava de carrão ou táxi. Mas digo uma coisa: não existe um traficante que não será noia um dia. 
Passei poucas e boas com esse marido. Nunca matei nem mandei matar ninguém, mas ele... Uma vez, ele ordenou que apagassem uma prostituta por causa de dívida de droga. Antes de matar, eles zoaram a mina. Bateram muito nela, estupraram e quebraram o pescoço. Meu marido foi preso por isso. Eu ia visitá-lo, mas, depois de uma briga feia, resolvi deixá-lo lá. Abandonei mesmo. E aí me envolvi com o braço direito dele, um viciado em crack que era liiiindo! Me apaixonei pra valer. E aí experimentei crack e me viciei na primeira bola. 

Fui presa e meu mundo caiu 

Daí em diante, meus dias se resumiram a fazer assaltos a mão armada com revólver de brinquedo, faca ou cano de PVC e fumar. Assim, a grande traficante, toda importante, virou uma noia. Vivi assim durante quase um ano. Com 1,59 m, cheguei a pesar 37 kg. Não escovava os dentes, não tomava banho, não transava... 
Mas a vontade de parar só veio depois de um assalto em que meus "amigos" acertaram um motorista na cabeça com um paralelepípedo. Ver o homem cheio de sangue no chão me assustou. Rezei a Deus que me desse uma segunda chance. E fui atendida, mas não do jeito que esperava. Em abril de 2004, fui caguetada e presa com 102 g de crack. 

Passei três anos dopada no hospício 

Eu não era louca, mas a abstinência do crack na cadeia me deixou meio pinel. O juiz determinou que eu precisava de tratamento psiquiátrico. Eu ficaria três anos internada num manicômio judiciário. Meu queixo caiu. Deus tinha que estar de brincadeira comigo. Foi mais um tiro que saiu pela culatra... 
No manicômio, não tem como apelar para advogado nem para juiz. Sua liberdade depende dos médicos. Eu tinha que tomar um coquetel de remédios todo dia. Eles me deixavam dopada, lesa, sem ânimo. Eu tinha entrado na cadeia com 37 kg e, nessa época, cheguei aos 90 kg. A única parte boa do manicômio era a psicóloga, a dona Julita. Ela abriu meus olhos. 
Eu conversava muito com a Julita. Ela me colocou no meu lugar quando recebemos uma presa que tinha judiado de uma criança. Maldade. Eu disse que colocaria a outra "no serviço": ela ia me dar suas coisas boas, fazer minha comida etc. Aí a Julita me disse: "E se nós resolvermos cobrar a saudade que suas filhas sentiram de você? E se cobrarmos que você abandonou suas filhas para usar drogas?". Foi aí que percebi como eu era arrogante. 

Não tem final feliz no crime 

Foram seis anos presa, aprendi que o que o crime dá, o crime toma. Perdi muito. Hoje minhas filhas só me chamam de mãe quando querem algo. Mãe mesmo é a avó. Costurei várias bonecas de pano para elas na cadeia e, quando saí, elas riram de mim. Estavam todas crescidas. Meus irmãos, que tentaram me ajudar enquanto puderam e depois desistiram, se reaproximaram e temos uma boa relação. 
Para ajudar na minha readaptação, trabalho como costureira e dou palestras em escolas e igrejas, onde conto minha história para adolescentes. Eu me converti e agradeço a Deus pela minha mudança. Sempre falo que bandidinho que se acha esperto mora em periferia, favela. Não em condomínio de luxo. Ele tem dinheiro? Tem, mas não sabe usá-lo para melhorar de vida. E, com o tempo, se acaba. A vida no crime não dura muito. Quase todas as pessoas que passaram pela minha vida na fase bandida estão mortas ou tão drogadas que vão morrer. Não tem final feliz. E eu aprendi essa lição. 

Zanandréa Rosa da Silva, 37 anos, costureira, Paranavaí, PR 

23/06/2017 - 18:11

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