Estraguei meu corpo com tatuagens para tentar fugir da depressão

Desejei a morte e acabei encontrando na dor da agulha uma maneira de me sentir viva

Reportagem: Gregory Prudenciano

Fazer tatuagem é a minha droga, sob o efeito dela não penso em suicídio | <i>Crédito: Redação Sou Mais Eu
Fazer tatuagem é a minha droga, sob o efeito dela não penso em suicídio | Crédito: Redação Sou Mais Eu
Fazia um tempo que a ideia do suicídio passava pela minha cabeça. Eu ficava o dia inteiro em casa, sem fazer nada, e estava tentada a dar fim àquele sofrimento. Certo dia resolvi dar fim à minha dor, depois de uma semana juntando forças e pensando como protagonizar uma morte instantânea. Foi quando lembrei daquela passarela alta em frente ao shopping perto de casa. É uma avenida grande, movimentada, seria impossível pular de cara no chão e sair viva. Cheguei por volta das 23h no local. Estava me segurando pelo lado de fora, olhando para os carros em alta velocidade e pensando em como seria bom acabar com a depressão que me abatia. Me projetei para frente, determinada a pular de cabeça. Fechei os olhos e decidi saltar. Foi quando os braços daquele desconhecido me agarraram pela cintura e frustraram meus planos de morte. 

Sofria bullying na escola
Desde os meus 15 anos tenho lutado contra a depressão. Eu tenho um corpo do tipo “pêra”, sempre engordo do quadril para baixo. Eu era magra na parte de cima e tinha coxas muito grossas. Minha altura, 1,62 m, não ajudava a disfarçar a silhueta e eu me tornei alvo de muitas piadas na escola. Por causa disso fui diagnosticada com anorexia. Eu me recusava a comer qualquer coisa sólida, vivia de shakes e depois que tomava essas batidas ficava muitas horas sem ingerir nada. Essas dietas malucas me faziam muito mal; meus cabelos caiam aos montes e meu corpo ficava cheio de furúnculos horríveis. 
O ambiente na minha casa não ajudava muito. Tenho dois irmãos mais velhos que sempre brigaram demais, era infernal. Aos 19 anos eu já tinha uma estabilidade financeira graças aos trabalhos como modelo e decidi sair de casa para morar numa pensão. Precisava me livrar daquelas brigas... Qualquer lugar era melhor do que ver minha mãe aguentando o caos que era viver com meus irmãos. Foi logo depois de sair de casa que conheci o Rodrigo. 

A frustração no amor foi a gota d’água
O Rodrigo já era um homem. Tinha 40 anos e trabalhava muito. A jornada diária dele sempre era de 15 a 18 horas de trabalho, o que eu odiava. Queria mais atenção dele só pra mim. No começo foi tudo tranquilo, um relacionamento bom, mas com o tempo eu já não conseguia vê-lo na frequência que desejava e era consumida por ciúmes. Eu me sentia deixada de lado e cobrava a presença do cara, mas acho que exagerei; ele foi se afastando cada vez mais. Era comum passar muitos dias sem que eu o visse. Três anos depois do começo do namoro ele finalmente terminou comigo, em janeiro de 2016. Não aguentou minha cobrança e só queria saber de trabalhar. Eu amava aquele homem e não podia deixá-lo ir, mas ele não queria mais saber de mim. Tentei ligar para ele. Foi inútil, ele nunca mais me atendeu. 
Eu nunca tinha me sentido tão sozinha na minha vida. Já não vivia com a minha família há anos e agora tinha perdido o namorado que eu amava. Virei novamente um alvo fácil para a depressão e foi nesse momento que resolvi tentar o suicídio. 

Tentei dar fim à minha vida
Não tinha ânimo para mais nada, estava triste, invadida por um profundo sentimento de solidão. Não havia qualquer motivo para seguir em frente. A morte foi parecendo uma opção cada vez melhor. Dois meses do fim do meu relacionamento, eu acordei decidida a acabar com o sofrimento. O melhor lugar para dar cabo da minha vida era a passarela do shopping. Eu passava sempre por ali. Sabia que depois das 9 da noite o lugar era bem vazio. Quer dizer, vazio em cima da passarela, porque embaixo dela o trânsito intenso e frenético não deixaria qualquer possibilidade de sobreviver. Era exatamente isso que eu queria.   
Não tive medo nem dúvidas. Subi naquela passarela determinada a pular. Seria rápido e fácil: um verdadeiro mergulho na morte. Cheguei na metade da passarela, pulei a grade de segurança e me sentei no corrimão, de frente para a avenida. Diante dos meus olhos somente os carros, sempre muito rápidos. Segurei a respiração e me concentrei no pulo, naquele que seria o último momento da minha existência. Decidi projetar o corpo pra frente e saltar para o mistério da morte quando, de repente, aqueles braços me envolveram e eu ouvi um grito: “Que merda você está fazendo, menina?!”. 
Eu nunca tinha visto aquele homem na vida. Na hora, tive raiva. Que direito ele tinha de me impedir de acabar com minha angústia? Aquele era o meu momento final, eu estava decidida e ninguém teria o direito de interferir na minha escolha. Mas aquele desconhecido, de uns 40 anos, não ia me deixar voltar para cumprir meu plano. Ele não parava de falar, queria saber o que estava acontecendo, qual era meu nome, o porquê de eu fazer aquilo, mas eu não queria conversar, nem o nome dele eu perguntei. Ele ficou do meu lado e chamou um táxi pra mim. Entrei no carro bastante contrariada, mas já sem coragem para retomar o plano mortal. Cheguei em casa com a cabeça mil, repassando o que tinha acontecido e pensando no que fazer a seguir. Naquele ponto eu tinha perdido a vontade de me matar, mas ainda não havia encontrado algo que me fizesse querer viver. A depressão continuou minha companheira sombria...

As tatuagens viraram minha droga 
No dia seguinte eu estava matando o tempo e tentando fugir dos meus pensamentos depressivos navegando na internet. Lembro de ter lido alguns posts de um blog quando vi algo sobre tatuagem. Olhei para o meu braço esquerdo e vi aquele gatinho tão bonito que eu tatuei, escondida dos meus pais, quando tinha 17 anos. Eu gostava tanto daquela imagem! Desde criança eu sou fascinada por gatos, mas minha mãe não me deixava ter nenhum. Depois que saí de casa comprei uma gatinha, minha companheira nos momentos difíceis. O nome dela é Meu Amor. Será que não seria hora de fazer outra tattoo? Procurei um estúdio de tatuagem e mandei ver num desenho do Mickey e da Minnie. Via os dois ratinhos da Disney como um casal incrível, era meu ideal de relacionamento, mas nunca alcancei algo assim. Ah, eu adorava aquilo! A agulha fazia com que eu me sentisse viva, mas era só chegar em casa que a depressão me engolia de novo. A dor existencial me fazia ter mais vontade de voltar para o estúdio no dia seguinte e usar a agulha como remédio.
De repente, as tatuagens agiam em mim como se fossem drogas. Eu tinha que estar “sob o efeito” da agulha perfurando minha pele para ter pelo menos alguns momentos de prazer. Eles que faziam a vida valer a pena. Eu passei a ir todos os dias no estúdio de tatuagem. Ligava e perguntava se alguém tinha desistido, se haveria um encaixe para mim. Eu só procurava uma imagem na internet e pronto, o tatuador a pintava na minha pele. Ao final de três semanas insanas, indo quase que diariamente ao estúdio, havia gasto R$ 7 mil me tatuando! 
Ninguém mais sabia do meu vício, era um segredo. Mas é claro que um segredo desses não ficaria oculto por muito tempo. Apesar disso, escondi o quanto pude. Minha mãe só descobriu as tatuagens quando viu fotos minhas na internet. Ela, que é evangélica, ficou horrorizada e muito brava, não falou comigo por dois meses. Ela dizia “você não fez nada do que eu te ensinei, Giliane! Você fez tudo ao contrário!”. Para ela, as tatuagens eram pecaminosas. Resolvi então pedir ajuda. Procurei uma psicóloga e uma psiquiatra que têm me ajudado a lidar com a depressão e a ter uma vida normal. Entender e aceitar a doença é o primeiro passo para o fim desse sofrimento.

Decidi “me limpar”
Em agosto do ano passado fui convidada para fazer um ensaio fotográfico sensual. Fiquei completamente chocada quando vi as fotos. Aquela mulher não era eu! Era como se eu tivesse me tornado outra pessoa, as tatuagens me traziam de volta os sentimentos ruins que me deprimiam. Foi quando percebi que a melhor coisa a fazer seria arrancar da minha pele aquelas más lembranças em tinta. No mesmo mês eu procurei ajuda especializada e comecei o longo processo de remoção. 
Das 17 tatuagens que fiz, eu só vou manter quatro: o gatinho, que é minha primeira tatuagem feita aos 17, minhas rosas, que vão das costelas até a coxa direita, uma borboleta que fica no ombro esquerdo e um filtro dos sonhos pequenininho, embaixo da minha orelha esquerda. 
Antes de retirar as tattoos, decidi fazer outro ensaio fotográfico. Eu não quero relembrar na minha pele o que eu passei, mas quero ter o registro da minha trajetória para poder sentir orgulho de quem eu sou e encontrar forças na superação. É uma forma de lembrar que estou continuamente vencendo a depressão e que eu tenho que me dar valor. Nunca mais quero cair na tentação de me matar novamente, quero e vou lutar pela minha vida e ajudar outras pessoas enquanto isso. 
Mal espero pelo dia em que vou poder me olhar no espelho e não ver aquela história de sofrimento na minha pele, mas sim uma tela branca de superação e vitória. O processo de remoção deve durar uns dois anos, mas eu vou aguardar ansiosa. Estou na melhor fase da minha vida. Hoje posso garantir: eu amo viver!

Giliane Rodrigues Bonheur, 23 anos, modelo, Rio de Janeiro, RJ

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14/04/2017 - 08:00

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