Catava papelão e hoje sou maratonista profissional

Uma bermuda e uma regata me transformaram; fui de carroceiro analfabeto à vice- campeão da São Silvestre

Reportagem: Letícia Gerola

Comecei a correr com o que tinha, um tênis bem velhinho que não aguentou o tranco e ainda me fez perder três unhas do pé | <i>Crédito: Arquivo pessoal/Redação Sou Mais Eu
Comecei a correr com o que tinha, um tênis bem velhinho que não aguentou o tranco e ainda me fez perder três unhas do pé | Crédito: Arquivo pessoal/Redação Sou Mais Eu

Sou baiano da cidade de Nova Soure, mas moro em São Paulo desde que me entendo por gente, na favela do Real Parque. Tentei frequentar a escola lá pelos meus 7 anos, sem sucesso. Vivíamos em seis: minha mãe e cinco irmãos – bocas demais pra alimentar. Sem tempo pra sonhar com um futuro melhor, todo mundo ajudava em casa. Uma irmã trabalhava de doméstica, um irmão de ajudante de açougueiro e assim a comida quase não faltava, mas era pouca. Fazíamos bicos aqui e ali pra pagar as contas. Aos 22 anos comecei a catar lixo. Era a minha maneira de contribuir com o orçamento. Consegui uma carroça e passei a coletar tudo que pudesse render algum dinheiro: papelão, latinhas, recicláveis... Era difícil saber quanto ia conseguir naquele mês, às vezes chegava a R$ 400, muitas vezes não batia nem os R$ 150.
  Três anos depois, aos 25, casei com a Jacileide, minha grande paixão. Finalmente saí da casa de mamãe quando fomos morar juntos na favela, só tínhamos nosso amor e a renda da carroça pra sustentar o lar. Um ano depois nasceu minha primeira filha, a Maria, e logo em seguida veio o Jonathan. Puxava minha carroça o dia inteiro para alimentar quatro pessoas no fim do dia. Também recebia algumas doações por onde passava, sempre otimista e sorridente, nunca deixei a tristeza entrar. No meu coração, só a alegria fazia morada. Até que um dia, uma senhora que não sei o nome e nunca mais vi, me deu um shorts e uma regata de corrida usados. Na hora eu não sabia, mas aquelas peças de roupa mudariam a minha vida para sempre!

A doação de roupas de uma senhora me transformou

Foi tudo muito rápido. Eu puxava a minha carroça quando a tal senhora me ofereceu o conjunto de shorts e regata de corrida. Aceitei, agradeci a doação e ela sumiu. Achei que seria um desperdício não aproveitar um conjunto daqueles e comecei a correr para ter onde usá-lo - na época, com 30 anos de idade, eu fumava três maços de cigarro por dia e achei que seria uma boa ideia juntar os dois hábitos. “Não tenho nada a perder, por que não tentar?”, pensei.
  Vou confessar que não foi nada fácil. Comecei a correr com o que tinha, um tênis bem velhinho que não aguentou o tranco e ainda me fez perder três unhas do pé. O cansaço também não era fácil, cheguei a desmaiar nas primeiras tentativas. Mas não desisti, a sensação de poder correr com as minhas pernas sem uma carroça pesada pra puxar era incrível, uma liberdade que eu ainda não havia experimentado. Minha esposa me apoiou nessa loucura, acho que ela viu como aquilo me fazia feliz. As contas estavam menos apertadas desde que ela havia começado a trabalhar como doméstica. Então, dedicar algumas horinhas do dia à corrida não afetaria nossa família.

Intercalei a carroça com os treinos

Decidi dividir meu tempo entre a nova paixão e a profissão. Mantive o mesmo trajeto de antes, mas dessa vez as atividades mudavam dia após dia: ora passava puxando a carroça, ora passava correndo. Os moradores das ruas ficaram intrigados com a mudança, até que Dona Madalena perguntou: “que diabos o senhor está fazendo!?”. Retomei o ar e contei do shorts que ganhei, das corridas que tinha começado a praticar... até que engatamos numa conversa sobre maratonas e metros rasos. Ela falou de mim pra filha dela, a Lana, que também corria e conhecia treinadores na área. Lana ficou sabendo da minha dedicação na corrida e me levou pra conhecer aquele que se tornaria meu técnico: Wanderlei Oliveira, um profissional conceituado que treinava algumas pessoas sem cobrar nada, por amor ao que faz! Fiquei encantado com a ideia de ter um acompanhamento. Com a ajuda de Dona Madalena e sua família, consegui fazer todos os exames necessários pra saber se poderia mesmo correr. Com tanta adrenalina correndo pelas minhas veias, eu já tinha largado o hábito de fumar. Uma das grandes vitórias que viriam a seguir. Também parei de puxar a carroça pra me dedicar totalmente à corrida.

Corri a São Silvestre pela primeira vez

Os treinos eram pra valer: toda segunda e quarta encontrava o Wanderlei e outros corredores às 6h da manhã no Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Essa rotina permanece até hoje, treinamos cerca de duas horas e, durante os outros dias da semana, eu me dedico a corrida por conta própria. Naquela época dedicava os finais de semana às provas de corrida de rua. Quando não tinha competição, o Wanderlei levava a gente pra treinar em outras cidades: no Guarujá, por exemplo, correndo na praia, ou em Cotia, pra correr na montanha – hábito delicioso que mantemos até hoje!
  Com tanto treino e tanta dedicação, estava pronto para encarar minha primeira São Silvestre em 2007. Alguns amigos da corrida se juntaram e pagaram a minha inscrição, sempre generosos comigo. Consegui completar a prova em 1h20 minutos, meta que, descobri depois, só 18% dos participantes atinge. Me senti um atleta de verdade!

Perdi tudo que tinha num incêndio

Passei por um momento muito difícil três anos depois, em 2010. Um incêndio gigantesco atingiu a favela do Real Parque, onde eu morava. As labaredas quentes destruíram mais de mil casas, desalojando centenas de famílias, inclusive a minha. Perdemos tudo que havíamos conquistado com tanto suor. No momento do fogo eu estava fora de casa, treinando, e a Jacileide trabalhando. Graças a Deus as crianças ainda estavam na escola, então ninguém se machucou. Quando voltamos pra casa juntos, loucos pelo aconchego do nosso humilde cantinho, não tinha sobrado absolutamente nada. Saímos de lá arrasados, só com a roupa do corpo e o coração em pedaços. Moramos de favor na casa de amigos da corrida e outros grandes amigos; outros corredores também me ajudaram com fogão e geladeira pra reconstruirmos nosso lar. Serei eternamente grato a essas pessoas. Alguns anos depois consegui um apartamento da prefeitura, ali na região mesmo, e é nele que moro hoje em dia.
  Perder a nossa casa foi desolador. Nos viramos com o salário de doméstica da Jacileide enquanto eu fazia bicos aqui e ali pra reconstruir nossa vida. Mesmo nos dias mais sombrios eu jamais parei de treinar. Quatro anos se passaram depois do incêndio até que eu consegui um emprego como porteiro na Dreamkids Berçário e Educação Infantil, trabalho que nos ajudou a reconstruir a vida e onde estou até hoje. Nesse período, meus tempos na corrida melhoraram bastante e, ano passado, aceitei o desafio do Wanderlei: correr todos os dias do ano. Completei 6.020 quilômetros de dezembro a dezembro, um número do qual me orgulho muito!

Posso dizer: sou corredor de elite!

Em 2015 fiquei em quinto lugar na prova anual da Track & Field. Os quatro primeiros tinham entre 18 e 20 e poucos anos, e eu já estava quase na casa dos 40! Me senti um vencedor. No ano passado fiquei em segundo lugar na minha categoria da São Silvestre (de 40 a 44 anos), completando o percurso em 55 minutos e ficando em 79º lugar no ranking geral. De acordo com a minha colocação em determinadas provas posso faturar a inscrição para a próxima de graça. Não tenho patrocínio, então dependo do meu treinador e de amigos para conseguir tênis e dinheiro para bancar tudo. Minha família fica muito feliz com as medalhas que ganho e o Jonathan está até começando a correr comigo!

Correr não me dá dinheiro, mas transformou a minha vida. Eu era analfabeto, carroceiro e não tinha muita esperança em mudar. Graças à corrida, conheci pessoas incrivelmente solidárias, que me estenderam a mão em momentos difíceis. Parei de fumar, minha saúde melhorou e voltei a estudar, hoje não sou mais analfabeto. Tirei carta de motorista, hoje moro em um apartamento e conheci cidades do Brasil inteiro e até de outros países por causa das provas, coisa que nem nos meus sonhos mais otimistas achei que aconteceria. Corri, literalmente, atrás de uma nova vida: e daqui do pódio a vista é linda!

José Cassio de Oliveira, 40 anos, corredor amador, São Paulo, SP


DA REDAÇÃO: o treinador

Ele é um dos melhores atletas do Brasil na faixa dos 40 anos

“Tenho 57 anos; 52 deles passei correndo. Atleta máster, corri mais de 120 mil quilômetros, o equivalente a três voltas ao redor do planeta Terra. Minha história se mistura com a história do atletismo e da corrida de rua no Brasil: fiz parte da fundação do Corpore (Corredores Paulistas Reunidos) em 1982. Ajudei a criar o primeiro clube empresa do país, o Pão de Açúcar Clube, autor da Maratona de Revezamento Pão de Açúcar – que até hoje é a que reúne mais competidores no país (cerca de 40 mil).
  Em média são consumidos, por ano, 10 pares de tênis – cada um aguenta 500 quilômetros. Um tênis apropriado custa R$ 600 reais, é muito dinheiro. Apesar de ser feito na rua, é um esporte que é caro. Já treinei a família Diniz, dona do Pão de Açúcar, atletas de elite e até campeões. No início dos anos 90, comecei a treinar voluntariamente pessoas que não tinham condições financeiras para bancar um treinador, mas que se interessavam pela corrida”.

Subnutrido e sem dinheiro, o José começou a treinar

Conheci o José Cassio em 2006, quando a Lana, uma grande amiga, o levou até o ginásio com todos os exames em mãos. Completamente analfabeto e com algumas questões de saúde – como a subnutrição, por exemplo – ele começou a treinar. Sua dedicação sempre me impressionou; eu sabia que tinha um atleta ali.
  Todas as segundas e quartas, pontualmente às 6h da manhã, ele melhora seus resultados na pista. O esforço valeu a pena: na faixa etária dos 40 anos, ele é hoje um dos melhores atletas do Brasil. Quando sugeri o desafio de correr todos os dias durante um ano inteiro, ele aceitou na hora – e cumpriu. Isso mostra o comprometimento que ele tem, é uma pessoa de extrema confiança, organizada e disciplinada. Esse ano ele completa 11 anos de corrida sem nunca ter parado ou sofrido uma lesão.
  Quando me lembro do Cassio analfabeto, com a saúde debilitada e sem lugar pra morar porque tinha perdido tudo naquele incêndio, percebo como o esporte faz diferença na vida de uma pessoa! Graças a corrida ele conheceu pessoas muito boas que o ajudaram nessa empreitada, voltou a estudar, conseguiu apoio da Nike, e já até viajou pra competir... É um vencedor do começo ao fim!

Wanderlei Oliveira, 57 anos, corredor e técnico, São Paulo, SP

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24/03/2017 - 15:22

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