Até uma mãe de 5 filhos pode se viciar em crack

Jamais imaginei que alguém com o meu perfil poderia cair nas drogas. Mas com o crack isso não existe!

Reportagem: Mariana Gomes (com colaboração de Carolina Almeida)

Jamais imaginei que alguém com o meu perfil poderia cair nas drogas. Mas com o crack isso não existe! | <i>Crédito: Redação Sou Mais Eu
Jamais imaginei que alguém com o meu perfil poderia cair nas drogas. Mas com o crack isso não existe! | Crédito: Redação Sou Mais Eu

Parecia mágica. Eu estava leve e satisfeita. Flutuava. "Ei, Jeane, tá tudo bem?", escutei, ao longe. Era uma voz preocupada. "Claro, nunca estive melhor", respondi, sem pensar em nada. Foi minha primeira vez com o crack.

Naquele instante, me esvaziei de todos os problemas. Não lembrei da angústia que vivia para tirar meu namorado do vício, da minha luta como mãe de quatro filhos e do amor que sentia por meus pequenos, na época com 1, 2, 5 e 7 anos. Parecia que o crack era o caminho mais rápido para a felicidade. Quanta ilusão...

O convite para a decadência

Eu era uma mulher equilibrada. Mesmo quando me divorciei, tudo aconteceu amigavelmente e consegui conciliar minha profissão de vendedora bem-sucedida com os cuidados de mãe. Bebia socialmente e fumava cigarro. Só! Mas, em 2006, mudei de emprego e conheci o Bruno*, um rapaz charmoso que tinha um grave problema: era dependente de crack. Ele trabalhava apenas para sustentar o vício. Passava noites fumando pedra.

Namorei um viciado

Um dia, cedi às investidas do Bruno e, sem que eu notasse, me apaixonei. Namorar dependente químico não é fácil. Eu queria salvá-lo e não conseguia. Sentia muita raiva. Ele marcava encontros comigo e não ia, me largava sozinha nos lugares... Nosso primeiro ano juntos foi assim: ele abusava da droga enquanto eu tentava tirá-lo do vício.

O começo do fim

Até que, em mais uma daquelas festas nas quais o Bruno me largava pelos cantos, saí à procura dele. Ao encontrá-lo fumando a pedra, soltei: "Preciso entender como funciona essa droga que é melhor do que a minha companhia". Bastou um trago para que eu logo quisesse outro. E outro... Ali começou o meu fim. Eu não imaginava que aquilo era tão fulminante. Depois da primeira vez, já não pude mais viver sem a droga.

Eu trabalhava de manhã para sustentar meu vício noturno. Conseguia esconder de amigos e colegas de trabalho. Na família, achavam que a falta de cuidado e atenção com minhas crianças era desleixo. Eu só pagava as contas em casa, e mais nada.

Porém, depois de dois anos de uso, a droga tomou conta da minha vida. As pessoas foram sacando meu problema. Larguei o trabalho e abandonei meus filhos com minha tia. Não parei mais em nenhum emprego. Pra piorar, fui morar com o Bruno. A gente fumava dia e noite.

Nossa casa ficava num bairro de classe média onde viviam traficantes. Certa manhã, sentada na calçada, na depressão do pós-droga, vi a cena mais triste da minha vida. Uma mãe, aos prantos, procurando seu filho de 13 anos viciado em crack. Ele tinha desaparecido havia dias. Ela gritava: "Cadê meu filho? Ele é só uma criança!".

Esse foi apenas um dos inúmeros episódios deprimentes que o crack me ofereceu. Me envolvi com traficantes de armas e policiais usuários. Morei na rua e conheci viciados pobres e playboys que gastavam o dinheiro dos pais com droga. Muita gente insuspeita cai na armadilha do crack: advogados, executivos, professores universitários, diretores de escola. Vi pais que, no desespero, negociavam carros com traficantes para livrar seus filhos das dívidas.

Usei a droga até os três meses de gravidez

Tentei parar, juro. Mas era mais forte que eu. Minha tia chegou a me pegar na rua e me levar à força pra casa dela. Em vão. Minha ficha só caiu quando descobri que estava grávida do Bruno. Mas, acredite, nem isso me fez largar o vício. A culpa só veio no terceiro mês de gestação. Parei de usar a droga quando fui morar com minha mãe numa cidade vizinha e passei a ver meu namorado só de vez em quando.

Por milagre, meu bebê nasceu perfeito. Isso me deu ânimo. Mas assim que ele completou um mês e meio de vida, bastou eu sentir o cheiro da droga para recair. E a desgraça recomeçou. Já não me importava com meu bebê. Eu fumava até ao lado dele, o dia todo, o tempo todo. Às vezes, eu fumava chorando.

Pedi para voltar ao último emprego

Embora minha cabeça estivesse focada na droga, eu sabia que tinha de parar. Então, apesar do pouco tempo trabalhado nos novos empregos, consegui estabelecer um vínculo forte com meu último patrão, o Shyru. Fui funcionária dele de fevereiro a julho de 2009. Depois, sumi. Mas o pessoal da empresa manteve contato com a minha família, por preocupação. Por isso, em novembro, liguei e pedi para voltar: "Claro, Jeane. Gosto muito de você e quero ajudá-la".

Confesso que recaí uma semana depois. Mas perceber minha impotência diante do vício me desesperou. Terminei o namoro que me afundava e pedi novo socorro ao Shyru. Ele, mais uma vez, foi solidário: "Vou te internar, sim, Jeane. Mas vai ser aqui, na nossa empresa".

Um casarão de cuidados

A firma era de São Paulo. Meu patrão mantinha um alojamento para funcionários paulistanos que prestavam serviços no Espírito Santo. E lá, no casarão, eu nunca ficaria sozinha. Eu dormia no quarto com a supervisora e meu gerente, o Durval, me vigiava. Isso me ajudava.

Apesar da fissura, eu conseguia trabalhar. Em alguns momentos, sentia desespero para sair, verdade. Eu precisava de ar, de rua. Mas Shyru era categórico: "Sozinha? Não! À noite? Nem pensar!". Ele racionava meu dinheiro. Só me dava o suficiente para arcar com as contas e guardava o restante.

Eu dormia chorando, triste. Sentia ódio, queria matar alguém. Mas estava me recuperando, com muita força de vontade. E com muita paciência de todos também. Até que voltei a morar na casa da minha tia, onde ainda permaneço com meus filhos.

Hoje sou feliz, mas cautelosa. Sei que a dependência é para sempre. Todo cuidado é pouco. Desde a primeira vez que usei a droga, já tive recaídas. Não é fácil. Mas durante esses anos, tive um encontro com Deus e com ele tenho forças para lutar contra esse vício. Tenho pessoas que caminham ao meu lado e não me deixam enfraquecer. Daqui a alguns dias, o pai do meu caçula virá visitá-lo. Tratarei de estar bem longe. Comecei um novo relacionamento e recebi uma proposta melhor de emprego. Mudei de empresa, mas meu coração e minha gratidão estarão sempre com eles.

Da redação

Por que o crack vicia tanto?

O crack é uma mistura de pasta de cocaína com bicarbonato de sódio. É consumido de inúmeras formas, sendo o cachimbo a mais comum. De acordo com a psiquiatra da Unifesp Ana Cecília Petta, membro do Instituto Nacional de Pesquisa sobre Drogas, qualquer droga estimulante fica mais potente quando fumada. É o caso da cocaína e do tabaco, por exemplo. "Enquanto as inaladas e injetadas demoram cerca de 40 minutos para atingir o cérebro, as fumadas precisam de dez segundos." Há também uma resposta imediata para a liberação de dopamina - substância que causa desinibição e prazer. Portanto, a vontade de repetir a experiência é mais rápida. "É uma doença para o resto da vida. Caso esteja controlada, a pessoa deverá fazer consultas anuais com seu médico, assim como fazemos checapes com cardiologistas ou ginecologistas, por exemplo", explica a especialista.

Jeane Alves, 40 anos, vendedora, Guarapari, ES 

20/07/2017 - 14:59

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