Aos 73 anos, virei atriz de filmes de terror

Já atuei em alguns filme alternativos dirigidos pelo meu neto e encenei até com o Luciano Huck!

Reportagem: Helena Dias (com colaboração de Luiza Schiff)

Ja interpretei zumbi, morta e até uma senhora tarada. Mas longe das câmeras faço meu tricô como trabalho voluntário! | <i>Crédito: Redação Sou mais Eu
Ja interpretei zumbi, morta e até uma senhora tarada. Mas longe das câmeras faço meu tricô como trabalho voluntário! | Crédito: Redação Sou mais Eu
Às vezes acordo no meio da noite assustada, com medo de ser puxada por uma mão sinistra que vai me levar dessa vida. Não é para menos: foi na minha cama que eu morri. Calma, não foi uma morte de verdade! Foi uma cena de um filme de terror gravada no meu quarto. É que, desde 2003, atuo como atriz nas produções alternativas do meu neto Felipe. Aos 73 anos, iniciei uma nova "carreira" e já interpretei uma vovó zumbi, uma falecida e até uma velhinha tarada! 

Fiquei em depressão com a morte do meu marido 
Antes de começar a atuar em filmes de terror, eu já tinha virado uma morta-viva. Depois que meu marido faleceu, em 1995, perdi a vontade de viver e entrei em depressão. 
Mas aí, como no roteiro de um filme de superação, fui surpreendida com uma motivação inesperada para recuperar o prazer de estar viva. Alguns meses depois, recebi do nada um convite para participar como figurante no filme O Quatrilho, por indicação de conhecidos. Foi incrível! Vi a Patrícia Pillar, aquele monte de máquinas, câmeras grandes... Foi uma experiência muito marcante, que me fez renascer. 
Essa filmagem também mostrou para o meu neto, o Felipe, que a avó dele podia ser uma atriz. Ele produzia filmes de terror e em 2003 me convidou para atuar num curta-metragem que faria com o Luciano Huck, chamado Mistério na Colônia. 
Eu seria a dona da casa que oferecia hospedagem para o viajante interpretado pelo apresentador. Foi difícil. Tinha uma cena em que eu precisava falar só uma frase. Mas quem disse que eu conseguia? Decorar falas com 73 anos não é fácil, não! Regravamos essa cena umas sete vezes! Mas o Luciano foi muito simpático e paciente comigo. No final, deu tudo certo e minha participação ficou muito bonita. 

Fazer filmes me devolveu a alegria de viver 
De lá para cá, já atuei em seis filmes e fui pegando o jeito. Agora consigo improvisar quando esqueço o que deveria dizer. Aprendi a fazer cara de zumbi e uns barulhos assustadores. Sei até parecer morta! Também fiz o papel de uma velhinha religiosa que toma afrodisíaco sem querer e fica tarada... Falta o quê?! Só me recuso a aparecer pelada! 
Atuar nesses filmes, gravar, me ver na tela... Tudo isso resgatou a minha disposição para a vida. Virei uma pessoa animada, cheia de alegria! Entre uma gravação e outra, passei a ter uma vida social agitada. Entrei para o coral da cidade e também faço trabalho voluntário. Quando não estou gravando uma cena sangrenta, fico tricotando xales para as crianças de um hospital. 
Me emocionei quando me vi no cinema 
Apesar de ser bem conhecida na minha cidade, sou mais famosa fora dela. Em 2010, por exemplo, fui a um festival de filmes alternativos em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Depois da exibição do filme em que eu aparecia, várias pessoas quiseram tirar foto comigo e me abraçar. Fiquei muito comovida. E, para melhorar, meu neto me deu um Oscar feito por ele, como homenagem por todo o meu trabalho. Todos me aplaudiram. Foi lindo! Fico arrepiada só de lembrar. 
Esse reconhecimento das pessoas é muito importante para mim, mas meu maior prêmio é ter conquistado a admiração dos meus cinco filhos. Eles estão muito orgulhosos de mim! 
E não parou por aí. Em 2012, fui a um festival em São Paulo onde todos os meus filmes foram exibidos em um cinema. Assisti a todos! Me ver na telona depois dos 80 anos de idade foi uma experiência única. É muito mais do que imaginei que faria nessa vida! 

Meu sonho é filmar com a Fernanda Montenegro 
Faço tudo isso por prazer. Não ganho nada para participar dos filmes. Nem seria capaz de cobrar do Felipe, meu tesouro. Mas, se fosse para fazer um filme de outro diretor, eu cobraria - e caro! Tenho que me valorizar. Mas quero mesmo é fazer mais trabalhos com o meu neto. Só que ele precisa ser rápido para eu não ter que atuar de bengala, né? Também tenho o objetivo de interpretar uma prostituta. Sou ousada, sim, senhor! 
Mas meu grande sonho mesmo é atuar ao lado da Fernanda Montenegro "dos ricos". É que costumo brincar dizendo que sou a "Fernanda Montenegro dos pobres". Tudo bem que ela começou jovem, mas hoje é uma atriz velhinha, como eu. Já que no mundo do cinema tudo é permitido, não custa nada sonhar, não é? 

Oldina dos Montes, 87 anos, aposentada, Carlos Barbosa, RS 

"Escrevo os papéis especialmente para ela" 

"Quando o Luciano Huck me pediu para fazer um curta-metragem de terror, em 2003, li o roteiro e vi que havia uma personagem velhinha. Logo pensei na minha avó para fazer esse papel. Ela já tinha participado do filme O Quatrilho como figurante, em 1995. Eu não sabia se ela ia topar, mas minha avó não só aceitou como fez tudo com maestria! Depois disso, ela atuou em vários outros filmes meus, arrasando nos papéis de morta, de zumbi e até de tarada! Criei a personagem, do filme Canibais e Solidão, de 2006, especialmente para ela. Como estava com receio de que ela ficasse travada, coloquei um pouco de vodca na sua bebida. E ela se saiu muito bem! No mundo dos filmes alternativos, Dona Oldina tem fama. Quando vai para os festivais, sempre tem alguém querendo tirar foto, pegar autógrafo... Ela é ótima!" 

Felipe M. Guerra, 36 anos, cinegrafista, Carlos Barbosa, RS 

12/07/2017 - 19:02

Conecte-se

Revista Sou mais Eu