A babá abusou de mim durante quatro anos...

Ela dizia que era uma brincadeira e eu acreditava. Descobrir que foi uma violação me deixou tão chocada que desenvolvi uma fobia e precisei até de remédio

Reportagem: Stephanie Celentano (com colaboração de Luiza Schiff)

Demorei muito para conseguir falar sobre isso... | <i>Crédito: Redação Sou mais Eu
Demorei muito para conseguir falar sobre isso... | Crédito: Redação Sou mais Eu
Quando eu tinha seis anos, minha mãe contratou uma babá para cuidar de mim enquanto ela trabalhava. Era uma menina de 17 anos, branca, loira e meio tímida. Como ela era muito simpática e prestativa, ninguém poderia imaginar o que estava por vir. A gente brincava de pular corda, casinha, boneca...Mas depois de quatro anos meses lá em casa, ela começou a propor brincadeiras diferentes. 
Essas eram mais íntimas. Inocente, eu fazia tudo feliz sem saber o que realmente estava acontecendo. Até descobrir que tinha sofrido abuso sexual. A Fernanda* ficou com a gente quatro anos. Ela tomava conta do meu irmão mais novo de manhã e de mim à tarde, depois da escola. Se minha mãe confiava nela, porque eu não iria? Assim, achava que os jogos que ela propunha divertidos e inocentes, como brincar de boneca. E até gostava. 
Na primeira vez que algo aconteceu, a babá veio até mim e disse "Vamos brincar que você era meu bebezinho e eu sua mamãe". Ela me pegava no colo e colocava o seio dela na minha boca, me pedindo para mamar. Hoje isso é assustador, mas na época, não sabia nada sobre sexo! A única referencia que eu tinha sobre ter a boca no peito de uma mulher era das mães que davam leite para os filhos mesmo. Por isso, nem estranhei. 

Quando ela me tocava, não via maldade

Essa "brincadeira" rolou por várias semanas, até que a babá começou a me acariciar também. De olho na porta, ela só sorria e dizia "Meu bebê. Minha filhinha...". Com o passar dos meses, ela foi subindo pelas minhas pernas e, vendo que eu tinha me excitado com a situação, passou às coxas e chegou às minhas partes íntimas. 
A partir daí ela passou a me masturbar. Até sexo oral ela fazia. E eu não via maldade nisso. Era ingênua, só não entendia por que ela dizia que, se eu contasse para alguém, meus pais iriam me bater. No ano seguinte, Fernanda me ensinou a fazer as mesmas coisas nela. Foi aí que comecei a achar estranho. Além de ser uma brincadeira que eu só fazia com ela, tinha que manter segredo. 

Descobri a verdade numa aula sobre sexualidade

A Fernanda começou a querer muito. Tinha dia que eu ficava com medo de voltar da escola porque eu queria. Ela nunca me bateu, mas forçava a barra pra gente brincar. Comecei a ter pesadelos à noite e ficar incomodada. Quando fiz dez anos, minha babá disse para mamãe que conseguiu um emprego melhor e foi embora. Fiquei aliviada. 
Só entendi o que tinha acontecido quando fiz 12 anos. Estava na quinta série e tive aulas de educação sexual. Um dia, a professora explicou como acontecia o sexo. Senti que sexo era que a babá fazia comigo e fiquei com muita vergonha. Eu já tinha noção do que era abuso e, nessa hora, liguei uma coisa com a outra: a Fernanda tinha feito aquela barbaridade comigo durante quatro anos. 

Me culpava por ter gostado e sofria calada 

Passei o resto do ano com culpa. Me sentia suja, indignada e inferior porque sabia que tinha participado de algo errado. Só que, em vez de me colocar como vítima, achei que era culpada. Afinal, tinha gostado! O conflito me deixou tão angustiada que me fechei, voltei a fazer xixi na cama, passei a ter insonia e, quando dormia, sempre tinha pesadelos. 
Por incrível que pareça, não pensei no assunto dos 13 aos 19 anos. Acho que reprimi tudo. Tive até um namorado. Mas o abuso e a culpa continuavam no cantinho da minha mente. E a história, que ficou entalada na garganta, ainda voltaria pra me assombrar. 
Um dia, aos 19 anos, voltei de uma aula e dormi. Quando acordei, estava enjoada e com muito medo de vomitar. Nas semanas seguintes, parei de comer e vivia no banheiro, ao lado da privada. Médico nenhum, sabia o que estava acontecendo comigo. Perdi 10kg. 

Descobri que meu problema tinha fundo psicológico só aos 22 anos, quando um terapeuta me falou sobre a emetofobia, nome técnico do meu medo, e disse que tinha tudo a ver com o abuso. Ele explicou que o enjoo vinha porque eu queria por para for a, mas não o vômito: o segredo! E o medo de "vomitar" isso para o mundo existia porque eu achava que tinha feito algo ruim.
Na mesma época, comecei a frequentar uma igreja. A fé mostrou que às vezes temos que passar por coisas ruins na vida para ajudar ao próximo. Também comecei a tomar antidepressivos e entendi que pedófilos, como a Fernanda, são pessoas doentes. Como ainda tinha culpa, meu médico me explicou que as crianças sentem prazer quando têm estímulos lá embaixo e que isso é natural. Eu não tinha nem sabia o que estava fazendo.

A terapia ensinou que crianças têm prazer

Há quatro anos, quando casei, contei a história para meu marido e minha mãe. Eles ficaram chocados. Mamãe chorou muito e sugeriu ir atrás da babá, mas eu não quis. Ela vai se acertar com Deus. Me expor foi sofrido, mas bom. Parte da culpa vinha da ideia de que as pessoas iriam me recriminar se soubessem do abuso e veriam a sujeira dentro de mim, o que não aconteceu.
Desde então, o fantasma do abuso se enfraquece. Meu medo de vomitar está controlado e sou tão feliz no casamento que quero ser mãe. Será difícil deixar meu bebê com alguém, claro, mas existem creches de confiança. Meu filho vai saber que ninguém pode pôr a mão lá embaixo!
A culpa por gostar de ser tocada quando criança ainda me dá remorso. Mas hoje sei que a sexualidade nasce com a gente. É uma coisa instintiva. A malícia está em quem sabe que está manipulando uma pessoa inocente. Essa sim é a culpada.

Da redação 
Criança tem sexualidade sem malícia

Apesar do senso comum acreditar, as crianças têm prazer sexual. Quem explica é o sexólogo Alessandro Ezabella. No entanto, ele diz que "elas entendem o prazer de outra forma" porque não têm malícia.
Os pequenos encaram o prazer como forma de descobrir o corpo e não com carga erótica. Nem por isso sai ilesa quando acontece algo como o que Lorayne passou. "Ainda que essa experiência seja menos invasiva do que quando há penetração, quase sempre se revela como trauma no futuro", como diz Alessandro. Esse trauma pode se manifestar de várias formas. Uma delas é o medo de vomitar ou emetofobia. "Isso surge como gatilho do trauma. Quase todos os emetofóbicos sofreram um incidente traumático entre os 6 e os 10 anos", explica Leonard Verea, psiquiatra especializado em medicina psicossomática.

30/06/2017 - 21:07

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