Vira-lata avisava dona sobre crises de hipoglicemia e evitava desmaios

Durante anos o cachorro farejava e a avisava a dona que ela estava prestes a desmaiar por causa da diabetes

Sou Mais Eu Digital

Negão | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
Negão | Crédito: Arquivo Pessoal

Eu estava tranquila sentada no quarto e lá vinha o Negão, meu vira-lata, e começava a me encarar. A princípio não dava bola, mas ele ficava agitado e não parava de olhar pra mim. “Aí tem...”, pensava. Na hora, pegava meu medidor de glicose e picava o dedo. Batata: estava entrando em hipoglicemia! A quantidade de açúcar no meu sangue estava baixando a níveis perigosos mais uma vez e eu precisava ser rápida. Tomava uma solução de glicose própria para isso e ficava tudo bem. Aquele era o jeito que o meu cachorro, hoje já falecido, tinha de dizer que eu estava prestes a desmaiar por causa da diabetes. Perdi as contas de quantas vezes ele me salvou desse jeito.

Antes dele, eu apagava do nada e ia parar no hospital. Que perigo!

A primeira vez que isso aconteceu foi em 2001, quando eu estava fazendo o café da manhã. Na época, estava na faculdade e era bem cedo, porque minha irmã mais velha, a Rafaela, ainda dormia na cama.

Quando sentei à mesa para comer, não vi mais nada. Tinha desmaiado. O Negão, que geralmente ficava no quintal, já tinha vindo para o meu lado antes mesmo do desmaio. Mas eu estava zonza e nem desconfiei. Aí, ele subiu as escadas latindo, entrou no quarto da Rafa e faz um escarcéu até que ela acordasse. Quando ela viu o que tinha acontecido, percebeu que o Negão era um cachorro especial.

Precisei desmaiar algumas vezes antes de entender que o Negão já sacava que isso aconteceria antes de todo mundo. Ninguém sabia como, mas ele sempre adivinhava. Isso foi muito importante pra mim, porque hipoglicemia é coisa séria, ainda mais quando não tem sintoma nenhum, que é o meu caso. Quando o meu nível de açúcar do sangue cai muito, chego a ter convulsões e desmaio, o que pode ser desastroso se estou com o fogão ligado ou no alto de uma escadaria. O Negão funcionava como meu sistema de alerta e impedia que eu sofresse acidentes, por que conseguia evitar as crises. Deus o tenha!

Meu cãozinho adivinhava a crise pelo meu cheiro e me salvava

Adotamos o vira-lata ainda filhote e ele sempre foi meu fiel companheiro. Ele nunca foi adestrado, mas agia como se fosse. Às vezes, meu cãozinho também tinha crises de hipoglicemia e ia parar na veterinária. Tanto que a gente achava que era por isso que ele conseguia adivinhar as minhas crises e soar o alarme antes de a coisa ficar feia. Hoje, sei que os cachorros podem ser treinados para farejar a variação de cheiro do dono quando isso acontece porque têm um olfato poderoso, mas ainda não sei como o Negão desenvolveu essa habilidade sozinho. Ele era meu anjo da guarda. Quando ele não estava comigo e eu desmaiava acordava em casa com o Negão ao meu lado. Muitas vezes ele avisou minha mãe e minha irmã que algo estava errado. O jeito dele era fazer barulho: latia, corria, punha as patas nelas... As duas entendiam os sinais e ficavam espertas. Uma vez, quando só minha tia e afilhada estavam em casa, ele armou o barraco todo, mas elas não entenderam o que estava acontecendo até ser tarde demais. Cheguei a convulsionar, mas, felizmente, não tive nenhuma sequela.

Outro sinal de alerta do vira-lata era encostar o fucinho gelado em mim. Quando ele fazia isso, sabia que não podia ignorar o recado e tomava glicose. Sempre checava meu nível de açúcar com o aparelhinho para confirmar a hipoglicemia e o Negão nunca falhava. Hoje, que ele já não está entre nós, dependo de uma bombinha que monitora meu sangue o tempo todo e faço vários testes ao longo do dia. Esse dispositivo é novo e funciona, mas não se compara ao meu antigo companheiro, que me dava amor e proteção. O Negão morreu nos meus braços em 2012, por causa da idade, e deixou saudades. Pra mim, ele era um herói. - RAQUEL BATISTA DOS SANTOS, 36 anos, estudante, Rio de Janeiro, RJ

Pets apegados identifi cam odores estranhos

O Negão passou a vida ligado aos sinais que sua dona dava antes das crises de hipoglicemia. Como ele, bichinhos de estimação podem aprender a reconhecer indícios de que algo está errado com o dono, principalmente se existe uma grande ligação entre os dois. “Os cachorros aprendem por repetição e pelo apego ao dono. O relacionamento entre cão e tutor tem que ser muito forte”, diz o adestrador e especialista em comportamento animal da ComportPet, Cleber Santos. Ele explica que cães e gatos têm olfato bastante aguçado e conseguem identifi car algo estranho com os donos através de odores que são liberados em situações de estresse ou problemas de saúde. Os animais não sabem qual é o problema, mas notam que algo está diferente. Por instinto, os pets reagem chamando atenção de outras pessoas, latindo e correndo para que possam ajudar os seus donos, assim como fazia o Negão! 

23/03/2015 - 12:28

Conecte-se

Revista Sou mais Eu