Vendi meu carro para resgatar animais de rua

Para cuidar de 245 animais, dei fim no meu único automóvel e não me arrependo. Se tivesse 10 veículos, venderia todos!

Reportagem: Caique Silva

Tenho 245 deles! | <i>Crédito: arquivo pessoal/Redação Sou Mais Eu
Tenho 245 deles! | Crédito: arquivo pessoal/Redação Sou Mais Eu

Meu amor por animais começou na infância. Fui influenciado pelo meu pai, seu Carlos. Ele tinha seis cachorros e amava cada um. Cuido de bichos abandonados desde pequeno e com quase nenhum recurso. Lembro de ajudar dando só um pouquinho de comida e água. Enquanto os via satisfeitos, lambendo as vasilhas, percebi que eu também estava sendo alimentado... De sonhos! Meu desejo era poder fazer mais por eles um dia, mesmo que isso custasse todo meu patrimônio!

Vi um senhor queimar o próprio gato vivo

Moro na Paraíba, em uma região de muita seca. Aqui, os bichinhos de estimação sempre passam sede. Minha maior chateação era não poder cuidar de todos. Sou policial e posso garantir que nunca arrumei confusão com a farda - mas pelos bichos sou capaz de tudo. As piores cenas que presenciei não saem da minha cabeça até hoje. Pessoas sem coração jogando água quente e pedras em seres indefesos. Atendi chamados terríveis trabalhando na delegacia. Um homem jogou álcool e tascou fogo no próprio gato por não ter mais condições de cuidar dele. Dei meu melhor para salvar o pobre felino, vi o bichinho se desfazer nas chamas. O levei às pressas ao veterinário... Sem sorte. Três dias depois ele morreu. Eu me senti tão revoltado que jurei: daqui pra frente, nenhum animal sofrerá nas ruas enquanto eu estiver vivo!

Precisei mudar para uma casa maior

Era 2007 quando resolvi fazer o que o Poder Público nunca fez. Comecei a usar minha casa como abrigo. Em um mês já tinha 52 gatos e cachorros no meu terreno. O barulho era constante e, por isso, os vizinhos ficaram malucos. Por quatro vezes fizeram um abaixo-assinado para me tirar de lá... Pois conseguiram. Para poder acolher meus bichinhos e fugir das brigas com a vizinhança, tive que encontrar outro lar. Aluguei um espaço maior que abrigaria ainda mais animais! Isso me dava um alívio enorme, sabia que lá eles seriam bem cuidados. Mas ainda era pouco...

Virei o “policial do cachorro”

Com o tempo fiquei conhecido como o “policial dos cachorros”. Aproveitei a minha popularidade para alertar as pessoas sobre os maus tratos aos animais. Pedi até que me procurassem em caso de abandono. Comecei a conversar muito com as crianças sobre o tema. Muitos adultos tem a mente fechada e nem dão atenção. Chegaram até a me chamar de louco!

Vivo com o nome sujo

Algumas pessoas acham que faço tudo por interesse pessoal. Mas não é verdade. Já tenho minha profissão e não preciso do dinheiro que peço para mim. Uso tudo para comprar medicamentos pros animais e vivo com o nome sujo. Abri mão e viagens com a minha família e de compras pessoais para cuidar dos bichos. Para me ajudar nas finanças, criei uma campanha de doação de ração em escolas da região e tem funcionado bem. Com tantas dificuldades financeiras acabei atrasando meus pagamentos. As pessoas se comovem com a boa ação e me deixam pendurar as pendências. No final de 2012, precisei apelar. As contas já não fechavam. O aluguel de R$ 300 do galpão onde aloquei parte dos meus animais ficou pra trás. Até hoje devo quatro meses para a proprietária. Se perguntar por aqui para quem eu devo, a fila é enorme!

Resolvi invadir dois galpões da prefeitura que estavam vazios. Por sorte, nunca tive problemas. Fui até conversar com o prefeito, que autorizou a permanência dos animais. Além disso, ele ainda se prontificou a fazer uma doação de dois mil reais por mês. Se fosse para dar tudo que os bichinhos precisam, gastaria entre R$ 6 e R$ 9 mil por mês. Hoje sobrevivemos com R$ 2,5 mil. Muitas vezes já pensei em abrir o portão e soltar todos na rua pois tem dias que não consigo dar nem a ração. Mas nunca tive coragem. Jamais faria isso com os bichanos.

Tive que dar adeus ao meu carro

Em 2015, ou eu pagava as casas de ração, ou não teria mais condição de criar os animais. Ninguém queria vender mais nada pra mim. Eu já tinha muitas dívidas pendentes. Cheguei à conclusão de que teria que dar fim em algum pertence meu para fechar as contas. Não pensei duas vezes, venderia meu único bem de valor: um carro. Fiz o anúncio e consegui R$ 7 mil. Valeu a pena! Zerei as dívidas e alimentei todos.

Hoje só tenho a moto da polícia

Sem carro, hoje me locomovo com a moto da polícia e não me arrependo. Tenho 185 cachorros e 60 gatos ao todo. É impossível adotar mais. Todos eles são vacinados e os machos castrados. Das fêmeas, cerca de 30% são castradas, pois o pós-operatório para elas é muito mais complicado. Apesar das pessoas se oferecerem para ajudar, apenas eu e uma colega, a Gabi, realmente cuidamos de tudo. Sempre apelo às pessoas para que adotem os bichos, mas a maioria só quer animais de raça ou filhotes.

Atualmente, alimentamos eles com o mínimo. O ideal é dar quatro sacos de ração por dia, mas só temos dado um e meio. É o que conseguimos, e já é alguma coisa. Pelo menos posso deitar a cabeça no travesseiro tranquilo e saber que aquela cena do gato pegando fogo diante dos meus olhos não vai se repetir com os meus bichos enquanto eu respirar. Ah, quem quiser e puder me ajudar, pode entrar em contato comigo pelo telefone (83) 98217-1342.

João Carlos Patrian Júnior, 34 anos, policial militar, Patos, PB


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20/01/2017 - 19:47

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