Superação: "Superei a morte do meu cão com o vet-psicólogo"

Perder seu companheiro de forma tão trágica deixou Raquel em choque. A dor era muito forte. Ela só conseguiu aceitar a situação e passar pelo luto com a ajuda de um especialista

Reportagem: Gabriela Bernardes

RAQUEL SILVESTRE | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
RAQUEL SILVESTRE | Crédito: Arquivo Pessoal
Entardecia num final de semana de tempo gostoso enquanto voltávamos pra casa depois de um passeio. O Tony era muito agitado, qualquer coisa que via de diferente já queria sair correndo. E naquele dia também foi assim. 

Nem sei dizer o que o assustou, foi muito rápido. Ele olhou para a outra calçada, começou a ficar bem agitado e fugiu. Quando vi, ele estava ali, no meio da rua, machucado, sangrando. Não tinha desmaiado, mas estava debilitado. Fiquei em choque! Paralisei. Na mesma hora, meu pensamento voou para um outro dia ensolarado, só que há dez anos atrás.

Ele tinha só 3 meses quando chegou aqui 

Sempre gostei de bichinhos. Em 2005, depois de insistir com meus pais, eles me deixaram ter um cachorro. Diziam que nosso apartamento era pequeno e implicavam com a sujeira que ele iria fazer. Com a autorização, fui feliz da vida até o pet shop que ficava do lado de casa e realizei meu sonho: comprei um poodle branco – pequeno para caber no apartamento, mas enorme, capaz de conquistar o coração de toda a minha família. 

Semanas antes, eu já havia passado por lá e ele tinha me chamado a atenção. Tony tinha só 3 meses de vida quando veio pra casa. 

Ele chegou correndo pra todo lado! Latia, mas ao mesmo tempo era bonzinho, sempre ficava feliz quando via as pessoas. Só não saíamos muito com ele, pois era bem agitado. Em pouco tempo tomou conta da casa. Era como alguém da família. Por isso foi tão difícil superar sua perda.

O motorista não teve tempo de frear... 

Apesar de vê-lo naquele estado, me recusava a acreditar que o Tony fosse me deixar. O moço que o atropelou vinha numa velocidade normal, mas não deu tempo de frear. Ele parou o carro e tentou ajudar. Percebi o quanto estava nervoso. Pedi que nos levasse até em casa e de lá fui com minha mãe e minha irmã a um hospital veterinário. Coloquei o Tony numa toalha com cuidado e fiquei com ele no colo. Fomos recebidas por um veterinário que o levou imediatamente para fazer os exames. 

Enquanto ele era examinado, nós ficamos do lado de fora. Foi aí que apareceu um anjo: o doutor Marcelo, veterinário treinado para dar apoio emocional aos tutores. Ele logo nos disse que o Tony precisaria ficar lá por uns dias. Explicou que estava ali para ajudar e que deveríamos ficar calmos, pois a equipe de médicos faria o possível para salvá-lo. 

No hospital, vi que a coisa era séria mesmo 

O Hospital Veterinário Sena Madureira virou o centro da minha vida naquele momento. Durante os 14 dias de internação do Tony, fui em quase todas as visitas, que geralmente eram no final da tarde. Ficava ao lado da maca, fazendo carinho, conversando. Ele ficava feliz, abanava o rabinho. Nos dias em que não conseguia sair do trabalho para vê-lo, ligava e procurava saber como tinha passado o dia. 

O problema é que o quadro não era nada animador. A patinha quebrada nem era muito preocupante, mas havia ferimentos graves nos órgãos. O veterinário dava 50% de chances de ele sobreviver.

O apoio emocional me ajudou a aceitar 

A hora da visita era uma confusão de sentimentos. Eu me alegrava em ver o Tony, sofria por ele estar daquele jeito e, ao mesmo tempo, me aliviava com o que o dr. Marcelo dizia. Santo homem, me ouviu por longas horas. 

Eu escutava os conselhos dele – mesmo nos momentos de maior desespero – porque percebia que se colocava no meu lugar. Então, quando dizia para eu ter forças e manter a calma, me sentia realmente capaz e saía do hospital tranquila. Esse apoio me ajudou a superar uma das fases mais difíceis da minha vida. Após duas semanas de muita dor e correria, estava em casa e o telefone tocou. Atendi e achei que fosse qualquer coisa, menos do hospital – pois eles nunca ligavam. Mas eram eles, pedindo que fôssemos para lá imediatamente. Apesar de eu perguntar, eles não disseram o motivo. Então, fui sem entender o que estava acontecendo, mas já imaginando que seria algo ruim. Fiquei bem nervosa, mas ao mesmo tempo tentava manter as esperanças. 

Quando cheguei ao hospital, o doutor Marcelo me deu a notícia da morte dele. Comecei a chorar, abracei minha família e ele disse: “É um momento difícil, mas que será superado”. Já tinha perdido minha avó e a dor era a mesma. Foi um dia difícil, eu não pude nem me despedir. Deixei o Tony aos cuidados do hospital, pois não tinha condições de administrar aquele momento doloroso. 

Chegar em casa e imaginar que nunca mais ele estaria me esperando foi agonizante. Sumi com as fotos para conseguir superar a dor. Percebi que a morte dele não afetou só a gente. A Magda, minha gatinha, também sofria. Parecia que ficava procurando por ele. A gente adotou a Magda depois que o Tony chegou. Eles brincavam bastante. 

O primeiro mês foi bem difícil. Eu não podia ver nenhum cachorro que lembrava dele. Depois, percebi que a dor foi diminuindo. Hoje, quatro meses depois, já me sinto melhor. O luto virou saudade. Dos passeios, de dormir junto, das trapalhadas e da bagunça que ele fazia toda vez que me via. - RAQUEL SILVESTRE, 29 anos, Tradutora, São Paulo, SP

Suporte emocional é essencial para superar a perda

A morte de um pet pode trazer sentimentos como tristeza, incompreensão e culpa. “Algumas pessoas têm ansiedade e quadros depressivos, e precisam de ajuda. Por isso, passei por um treinamento com um psicólogo que me orientou a abordar esse tipo de cliente”, diz Marcelo Conte, veterinário do Hospital Veterinário Sena Madureira (SP). Esse tipo de atendimento é feito em casos mais graves. “Nas sessões, que duram uns 30 minutos, e podem ser semanais ou diárias, dependendo do caso, procuro passar confiança ao dono, mas sempre com a verdade. O tratamento dura até o animal ter alta. Em casos de morte, alguns donos continuam o tratamento por mais algum tempo”, diz o especialista. Segundo a psiquiatra Valéria de Queiroz Pagnin, a duração do luto depende de alguns fatores. Quando a morte é trágica, ele geralmente é mais intenso, assim como quando a ligação entre o dono e o pet era muito intensa. Mas, no geral, o processo dura de um a dois meses. Se a tristeza permanece e compromete as atividades é hora de procurar ajuda médica.

Dicas pra aceitar melhor a situação

1. Não esconda o luto. Vivencie o momento sem sentir vergonha do que os outros irão pensar. 

2. Faça uma cerimônia de sepultamento. 

3. Plante uma flor em memória do bichinho. 

4. Busque ajuda de alguém da família que tenha animais e que entenda melhor a situação. 

5. Para as crianças, organize um álbum de fotos do animal. 

6. Faça uma doação para entidades protetoras de animais. 

7. Tente guardar na cabeça as recordações de momentos bons que passaram juntos. 

8. Não se culpe pela morte do seu companheiro. 

9. Entenda que fez tudo o que foi possível. 

10. Após superar o luto, adote um novo bichinho.

15/03/2016 - 10:31

Conecte-se

Revista Sou mais Eu