"Sou a Supernanny dos cães e dos gatos!"

Iracema adestra pets terríveis em poucas horas e educa também os donos. Já tomou um monte de mordida e evitou um divórcio!

Reportagem: Christiane Oliveira

Iracema Gil | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
Iracema Gil | Crédito: Arquivo Pessoal
Visito casas de pais desesperados toda semana. O motivo: filhos desobedientes e malcriados. As casas deles, coitados, estão sempre num estado que só vendo pra acreditar. É brinquedo espalhado por todos os lados, comida no chão, sofá rasgado e o maior clima de estresse. Meu trabalho é corrigir essas crianças, que deixam os lares de ponta-cabeça. Demoro só quatro horinhas para conseguir a façanha. Sou tão boa no que faço que me intitulei como Supernanny. Só que, em vez de lidar com crianças, adestro cães e gatos! 

Meu cachorro já quase me deixou pelada na rua 

Minha história como adestradora começou em 2002, quando ganhei o Billy, um golden retriever filhote. Só que eu já tinha quatro gatos e fiquei com medo de eles se estranharem. Dito e feito: os gatos ficaram com ciúme e foram pra cima dele.

Com medo de o Billy revidar, passei um mês dormindo com ele no chão da cozinha, isolado do resto da casa por um portão. Carente como uma criança mimada, meu golden queria tudo pra já. Ele precisava de atenção demais! Aí, li sobre adestramento e testei alguns comandos básicos. O Billy reagiu tão bem que comprei um livro sobre o tema e ensinei meu cachorro em apenas duas horas! Não era possível. Eu devia ter um dom. 

Meu talento foi testado logo no começo. Aos 8 meses de idade, Billy teve um distúrbio de comportamento conhecido como dominância, ou seja, ele queria me dominar. Tentava me morder quando não fazia o que ele queria. Era quase impossível passear com ele, porque eu tinha que ir sempre para o lado que ele queria e ai de mim se não fosse! Uma vez, tentei outro caminho e o Billy começou a puxar minha blusa até rasgá-la e me deixar só de top na rua! Morri de vergonha. Foi uma prova de fogo. Além de adestrá-lo de novo, passei a ter mais paciência ainda com o Billy. Deu certo. 

Educo os donos também: nunca se grita e diz “não”

Nessa época, eu era fabricante de bijuterias. Mas o mercado não ia nada bem e minha conta bancária também não. Precisava de um plano B. Na época, minha amiga me pediu para adestrar o cachorro dela e resolvi adotar a prática como profissão. Eu sabia que existiam outras pessoas que já faziam isso e tinham mais experiência do que eu, resolvi ser esperta. Aí, adotei o apelido de Supernanny dos cães e dos gatos! Só me faltava o dinheiro para bancar panfletos e cartões para a divulgação. E, como estava devendo ao banco, empréstimo não ia rolar. Tive que me virar nos 30. Passei uma semana vendendo mousses deliciosas de limão, maracujá e goiaba que eu mesma faço. Juntei R$ 450, o suficiente para bancar o material de propaganda e ainda um uniforme. Assim nasceu o Super Nanny Dogs & Cats, meu novo negócio. 

Escolhi o nome Supernanny porque uso métodos parecidos com a babá da televisão. Quando chego a uma casa, trabalho o comportamento dos animais e também dos donos. Ensino que não adianta gritar, falar “não” toda hora ou bater neles, porque isso só os deixa mais estressados e desobedientes. Sempre pergunto qual é o problema que os donos desejam resolver e crio sinais para educar o animal. Por exemplo: se a pessoa reclama que o cachorro pede comida toda vez que ela se senta à mesa, fazemos uma simulação da situação e sinalizo como o cão deve agir para ser recompensado pelo dono. Se ele fica apenas sentadinho e não pula, ganha palmas e carinho. Nem sempre uso petisco como recompensa para não deixar os bichos reféns de comida. Resumindo: traduzo o que o dono me fala em cachorrês e gatonês e assim todo mundo da casa se entende! 

Já evitei um divórcio e adestrei cães-babás! 

Não sigo livros porque cada animal é diferente. A única regra que sigo é nunca gritar ou falar “não”. Adestro qualquer raça, bichos surdos e até cegos! Também os ensino a obedecer a qualquer pessoa da casa, até as faxineiras. É claro que não faço milagres. Por isso, antes de ir embora, deixo um guia com as estratégias que os donos devem seguir para que o animal continue obediente. E prefiro fazer apenas a primeira parte do treinamento, que dura quatro horas, porque é mais fácil para o pet se acostumar aos comandos se o dono participar do processo. 

Já atendi vários casos marcantes. No dia 31 de dezembro de 2014, adestrei 53 cães que já havia educado no passado porque haviam mudado de casa. Levei 75 mordidas! Algumas delas foram fortes e rasgaram minha pele e outras só pinçaram a pele. E, como isso sempre pode acontecer, sou vacinada contra qualquer doença. Também já ensinei cães a serem como babás para crianças pequenas. Um deles dormia ao lado do berço do bebê e, toda vez que ele chorava, corria para o quarto dos pais e latia para avisar que o filho precisava de alguma coisa. Demais! 

O caso que mais me chamou atenção foi o do Sansão, um labrador. Ele tinha sido adotado por um casal que já tinha outra labradora, mas virou a vida de todos de cabeça para baixo. O Sansão era supermimado. Ele não deixava ninguém chegar perto da cadela por causa de ciúme. Pegava-a pelo pescoço e a arrastava para dentro da casinha para ficar com todos os carinhos. Vê se pode! Se algum dos donos tentava acariciar a outra, ele avançava sobre ela e rosnava. Mal dava para ver televisão, de tanto amor que o Sansão exigia. Quem me chamou foi o Henrique, filho do casal, que não sabia mais o que fazer. Para você ter noção, o caso era tão sério que os pais dele estavam discutindo direto e pensando em se separar. Tudo isso por causa de um cachorro rebelde! Em poucas horas, adestrei o labrador e ensinei o Henrique a corrigir a postura dele. Um mês depois, recebi um telefonema do casal agradecendo. Eu havia salvado o casamento deles! Adestramento é coisa muito séria! - IRACEMA GIL, 53 anos, publicitária, São Paulo, SP

“Ela adestrou meus 64 cachorros de uma só vez!”

“Crio todos os meus cães como seu fossem meus fi lhos. O problema é que são muitos e, antes de a Supernanny entrar em nossa vida, sempre brigavam pra tudo: receber carinho, comer, brincar... Até latir virava disputa pra ver quem fazia mais barulho. Não sabia mais o que fazer para acalmá-los até que vi a Iracema num programa de TV. Ela tinha adestrado o cachorro da apresentadora em apenas duas horas. Liguei para ela e a danada colocou ordem em casa! Adestrou todos eles ao mesmo tempo em apenas sete horas! Acompanhei tudo e aprendi as estratégias. Agora, consigo separar brigas antes mesmo que comecem e faço meus pets se organizarem na hora de comer. A sinfonia de latidos acabou! Meu dia a dia está muito mais fácil graças ao trabalho incrível dela!” - NADIA MAIA, 57 anos, cliente da Iracema, Caucaia do Alto, SP



18/09/2015 - 09:00

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