"Para achar e ajudar bichos abandonados, eu e meu marido moramos num carro"

Eleni e o marido pediram demissão e já viajaram por cinco países para ajudar os bichinhos abandonados

Reportagem: Daniel Lopes

ELENI ALVEJAN | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
ELENI ALVEJAN | Crédito: Arquivo Pessoal
Em 2007, eu e meu marido, o Sergio, criamos um projeto social para levar alimentos aos moradores de rua da nossa cidade. Depois de alguns meses, notamos que muitos desses sem-teto cuidavam de cachorros. Então, decidimos que, além dos alimentos, também levaríamos ração para os bichinhos! Afinal, sempre fomos apaixonados por animais e tínhamos um cão que nos acompanhava havia 16 anos. Essa iniciativa nos deixou tão felizes que resolvemos expandir: íamos viajar ao redor do mundo para ajudar os animais abandonados!

Abri mão das mordomias pra me dedicar aos bichos

Para colocar nosso objetivo em prática, precisávamos juntar dinheiro para bancar a viagem e os mantimentos. Na época, eu era dona de uma van escolar e meu marido trabalhava como vendedor de uma indústria papeleira. Você pode pensar que éramos infelizes para querer largar tudo, mas não. Levávamos a vida mais confortável possível: morávamos em uma casa própria num bairro nobre, não tínhamos filhos, o dinheiro dava para pagar as contas e ainda sobrava. Tudo era ótimo, mas a gente sentia que desejava mais da nossa vida. Queríamos nos aventurar, desapegar de coisas materiais, levar uma vida mais simples, mas continuar tão felizes quanto sempre fomos.

Conseguimos fazer nossa primeira viagem para ajudar animais quando o Big, nosso cachorro, morreu, em 2013. Nas férias de final de ano, passamos um mês na Patagônia argentina e na chilena. Foi um teste para ver se conseguiríamos seguir em frente com nosso plano. Fomos e voltamos de carro, mais de 15 mil km de estrada percorridos. Nada de hotéis, nada de avião. Voltamos para o Brasil maravilhados! Tivemos a certeza de que aquele era mesmo o nosso destino.

Então, no início de 2014, começamos a planejar o roteiro da nossa viagem para rodar o mundo ajudando os bichos. Cruzaríamos, de carro, a América Latina, os Estados Unidos e o Canadá até chegar ao Alasca. Não estabelecemos o tempo que nossa jornada duraria, mas definimos a data de saída: 7 de fevereiro de 2015. Continuamos nos nossos trabalhos e passamos o ano passado inteiro juntando dinheiro e cuidando dos preparativos da viagem. Adaptamos o nosso carro, uma Land Rover 4x4, que apelidamos de Mundrunga. Ela aguenta o tranco em qualquer terreno e, com os ajustes que fizemos, temos geladeira, grill para cozinhar e até espaço para dormir!

Alugamos nosso apê para custear a viagem

Em fevereiro deste ano, depois de alugar nosso apartamento, vender a van escolar e meu marido sair do seu emprego, finalmente encaramos a estrada! Começamos a viagem do nosso projeto “Mundo Cão” por Foz do Iguaçu (PR) e de lá já passamos pelo deserto do Atacama, no Chile, pela Argentina, Colômbia, Peru e Equador. Conforme vamos viajando, paramos para oferecer ração e água para cães abandonados – também já ajudamos gatos, cavalos e pássaros. Nessas paradas, temos a chance de conhecer e conversar com pessoas que vivem nos vilarejos e cidades. Sempre dormimos no carro ou na casa de famílias que nos acolhem.

Já fizemos muitos amigos que compartilham do mesmo carinho pelos animais e eles até nos levaram para conhecer projetos voltados para ajudar os bichos em seus países. O caso que mais me impressionou foi o da Fabiola, no Equador. Ela era uma renomada chef de cozinha e largou o emprego para cuidar de cachorros e cavalos numa praia afastada. É tocante seu cuidado e o amor pelos bichos! Quando perguntei se ela se arrependia de ter transformado sua vida pelos animais, ela me garantiu que não. Isso só me fez ter mais certeza da minha escolha!

Passei a valorizar as coisas simples da vida

Ter trocado uma vida de luxos materiais por uma realidade mais simples, sem muito dinheiro ou endereço fixo, com noites dormidas dentro de um carro e muitos quilômetros de estrada percorridos diariamente pode parecer uma loucura para muitos, mas é a decisão mais acertada que eu e o Sergio já tivemos.

Além de poder ajudar os animais abandonados e chamar a atenção para o descaso que eles sofrem, é nossa chance de renovar nossa vida, rever prioridades e valorizar o que realmente importa.

Viver dentro dos padrões é o que esperam de você, mas nem sempre é o que vai satisfazê-lo. Muita gente vem me dizer que tem inveja por eu conseguir viajar tanto sem precisar trabalhar. Digo que o que importa é você se permitir arriscar! Não vamos parar até chegar ao Alasca e só Deus sabe para onde vamos depois. É uma aventura a cada dia! - ELENI ALVEJAN, 43 anos, viajante, São Caetano do Sul, SP






19/08/2015 - 09:00

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