O amor transforma: "Ele chegou preto e pelado. Era sarna negra"

Paula encontrou o Lelo sem nenhum pelo, como se ele estivesse com o corpo coberto por uma crosta de sujeira. Mas era uma doença grave que poderia matar

Reportagem: Christiane Oliveira

PAULA CANAZZA | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
PAULA CANAZZA | Crédito: Arquivo Pessoal
Quando vi a foto daquele cãozinho todo preto no Facebook, pensei: “Se eu não trouxer esse cachorro pra casa AGORA ele vai morrer!” O Lelo, como o batizei mais tarde em homenagem à amiga que o encontrou, a Lela, estava vivendo numa cabana improvisada por moradores do bairro dela na zona leste de São Paulo. Ele mal comia. Estava tão maltratado e magro que dava dó. O corpo do coitado estava enegrecido de um jeito esquisito. Parecia sujeira, mas tinha cara de ser algo mais grave. Ele não tinha quase nenhum pelo no corpo! Eu precisava fazer alguma coisa por ele urgentemente.

A pele dele era grossa e ressecada, como se fosse a de um elefante!

Isso aconteceu há uns dois meses. A foto me deixou muito preocupada, mas não sabia onde poderia colocar mais um cachorro em casa. É que trabalho resgatando animais das ruas e cuidando deles na minha casa no interior de São Paulo e, na época, já tinha 76 bichos sob minha responsabilidade, 62 cães e 14 gatos. Mas não me aguentei. O Lelo parecia estar tão desnutrido que, se eu não fizesse nada, com certeza ele acabaria morrendo. 

Ignorei a superlotação do meu canil porque sou apaixonada por animais desde criança. Quando pequena, morava com meus avós e fiz com que vovô, que não gostava de gatos, mudasse de opinião. Anos mais tarde, minha família também abraçou a causa e me apoiou quando quis sair de São Paulo para ter uma casa grande no interior, com espaço para cuidar de muitos bichos. Peguei o dinheiro do seguro-desemprego do escritório financeiro onde trabalhava e criei um espaço para dar todo o suporte de que vira-latas judiados e outros animais abandonados precisavam. O Lelo não ficaria fora dessa. 

O problema é que o Lelo estava tão arisco que ninguém conseguia chegar perto dele. A Lela bem que tentou. Por isso, pedi a dois amigos que também atuam como protetores de animais que tentassem capturá-lo. Para caras experientes, como o Juca e o João, não foi problema. Eles usaram um cambão, uma espécie de vara com um laço na ponta que é passado pelo pescoço do cachorro para impedir que ele fuja. Aí, os dois o trouxeram para a minha casa. Menina... Ele estava só o pó. 

O Lelo não era o bicho mais maltratado que já peguei pra cuidar, mas chegou perto. Além de desnutrido, ele tinha pouquíssimos pelos no corpo. Os que tinha – e eram ralos – cobriam só parte da cabeça, costas e rabo.

Nem parecia um cachorro. A pele dele estava grossa e ressecada, como se ele fosse um elefante em miniatura! Pra piorar, o coitado não parava de coçar e tinha os olhos tão assustados... Era de cortar o coração. 

Com muito amor e comida boa, ele recuperou seu pelo caramelo! 

A primeira coisa que fiz foi preparar uma refeição reforçada para o cãozinho. Misturei arroz, fígado e coração de boi, beterraba, peito de frango, cenoura e batata. É minha receita especial para bichos desnutridos! O Lelo tinha tanta fome que devorou o prato em poucos minutos. Aí, bebeu muita água e dormiu. Aproveitei que ele estava concentrado na comida para observá-lo. Como já tenho alguma experiência, notei logo que aquilo na pele dele não era sujeira. Poderia ser sarna negra que, como o nome sugere, deixa os bichos pelados e com a pele negra. 

No dia seguinte, levei o bichinho ao veterinário e confirmei minhas suspeitas. Os exames apontaram que ele estava com anemia, bactérias, sarna comum, sarna negra e um fungo chamado Malassezia. Com tudo isso, não era de espantar que ele estivesse tão debilitado. A situação era tão séria que, se ele não recebesse cuidado, teria uma morte lenta. Acabaria morrendo de fome, sede ou cinomose, um vírus mortal que afeta principalmente cães com baixa imunidade. 

Durante um mês, o Lelo tomou injeções para o fungo e a sarna, e banho com xampu especial. Tratava dele com todo o cuidado, sempre dando muito amor e demonstrando que ele estava seguro. Os pelos começaram a aparecer em cerca de 15 dias. Só aí conseguimos ver a cor natural do bichinho. Ele não era preto, mas caramelo! Uma gracinha... 

Com todo esse carinho e comida boa, o Lelo engordou 6 kg dentro de um mês e recuperou a força e a saúde. Parte do focinho e da pata dele ainda está um pouco pelada, mas agora ele parece um cachorro de novo. Já tem dois meses que o Lelo está comigo e sua transformação é chocante. Castrado, vacinado e quase recuperado, ele passou a ser um cãozinho dócil, brincalhão e sociável. Um doce. Meu objetivo agora é colocá- -lo para adoção. Sempre me apego um pouco aos bichinhos, mas em breve levarei o Lelo à feira de adoção da qual participo no Alto de Pinheiros, em São Paulo, a cada 15 dias. A família que ficar com ele não vai se arrepender! - PAULA CANAZZA, 36 anos, cuidadora de animais, Mairiporã, SP

11/09/2015 - 09:00

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