Lealdade felina: "Meu gatinho não me deixou cometer suicídio!"

"O Negão impediu que eu me matasse e, ao lado dos meus outros bichanos, me ajuda a superar a depressão e levar uma vida mais feliz"

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Rosa Domingues Morini | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
Rosa Domingues Morini | Crédito: Arquivo Pessoal
Era noite de Ano Novo de 2011. Do lado de fora da minha casa, eu ouvia as comemorações, os fogos, a música alta, as pessoas rindo. Mas, pra dentro da minha porta, só tristeza e muitas lágrimas. Eu estava no ápice da minha depressão, não conseguia ver nada positivo na minha vida. Decidi, então, pôr um fim naquele sofrimento todo. Amarrei uma corda no teto e deixei uma escada bem embaixo. Subi os degraus e já estava prestes a me despedir deste mundo quando ouvi pequenos passos atrás de mim... 

Meu bichinho mordia meu vestido e minhas pernas para me deter 

Quem tinha me visto e subido a escada também era o Negão, um dos muitos gatos que tenho em casa. Ele me cutucou com as patinhas nos pés e começou a miar bem alto, sem parar. Meu bichano também mordiscava meu vestido e minhas pernas, como se tentasse impedir que eu fizesse aquilo. A mensagem foi clara: ele queria me salvar. Interpretei que meu gatinho dizia: “Sua covarde! Como vai me abandonar? Seus outros gatos podem sair daqui e sobreviver, mas vou acabar morto sem seu cuidado...”. É que o coitadinho é cego, e mesmo assim conseguiu sentir que eu estava prestes a fazer aquela loucura e tentou me salvar! Quando vi o Negão ali, mesmo sem enxergar e me puxando pra longe da escada, não tive dúvida: minha hora ainda não tinha chegado. Eu precisava viver pra cuidar dos meus gatinhos!

Depois da morte da minha filha, comecei a acumular gatinhos 

Minha filha Dione faleceu há 21 anos depois de ter uma parada cardíaca durante uma viagem. Ela sempre dizia que só se separaria de mim se morresse, e assim foi feito. Não conseguia aceitar ter perdido minha filha, não é justo que nenhuma mãe passe pelo que passei! 

A cicatriz que essa perda deixou em mim nunca se fechou, mas os bichanos que fui juntando desde então me ajudam diariamente a superar a morte dela. Fiquei muitos anos deprimida e sempre pensando em me suicidar, mas, depois daquele episódio com o Negão, nunca mais pensei nisso.

Sempre gostei de gatos e cuido de pelo menos um desde os 8 anos de idade. Depois de me separar do meu marido, há quase 30 anos, e da morte trágica da Dione, meus bichinhos se tornaram o foco de toda minha dedicação e cuidado. 

Hoje já acumulo quase 200 gatos na minha casa e, mesmo não tendo condição financeira de cuidar deles e nem muito espaço aqui, não me arrependo de ter acolhido os bichanos. 

Não é fácil conviver com tantos bichos. Passo o dia limpando a casa e dando assistência a eles. Já tive que vender objetos pessoais como roupas e móveis para conseguir comprar mais ração para os meus queridos, mas não consigo nem pensar em ficar longe deles! 

O gesto do meu gato me fez enxergar minha missão de vida 

As pessoas da vizinhança largam os coitadinhos na minha porta, sem cuidado algum. Não se importam nem um pouco com os pequeninos! Ai se eu vejo quem maltrata um animal desse jeito... Com muita pena, acolho todos e guardo comigo. Faço o melhor que posso para que eles fiquem bem. 

Mesmo com tantas dificuldades, tenho certeza de que, se não fossem meus gatos, eu não teria mais motivos para continuar viva. Apesar de todo o trabalho que tenho, são eles que me trazem alegria e fazem com que eu me sinta útil. O Negão me salvou e abriu meus olhos para minha missão de vida: cuidar dos meus bichanos! - ROSA DOMINGUES MORINI, 68 anos, aposentada, Tatuí, SP

Gatos são afetados pelos donos e vice-versa 

Uma pesquisa realizada pelo psiquiatra dinamarquês Teodor Postolache em 2009 apontou que um parasita presente no intestino dos gatos pode provocar tendências suicidas em seus donos, especialmente quando se trata de mulheres. Mas o comportamento dos donos também pode afetar os felinos, segundo Cecy Passos, especialista em comportamento de gatos: “Os animais são reflexos do dono. Conseguem notar qualquer comportamento estranho e diferenças de humor, pois são extremamente sensíveis.” Para Cecy, o Negão pode ter sentido todo o desespero da Rosa e tentado intervir. “Alguns gatos ficam tristes, deprimidos e sentem se o dono está passando por momentos complicados. Qualquer ação dos donos vai ter um efeito nos felinos e, consequentemente, causar uma reação deles. Os gatos capturam essa energia negativa no ar e podem acabar reagindo das mais diversas formas”. Para a sorte de Rosa, a sensibilidade do seu gatinho pode ter sido crucial para impedi-la de cometer uma loucura.

Criar muitos animais pode ser um perigo! 

Segundo o Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo, é totalmente desaconselhável a criação de dezenas de gatos dentro de casa. O limite tolerado é de dez por residência, mas pode variar a cada município. O excesso de bichos pode ser um perigo à saúde pública local, trazendo problemas para a vizinhança.
 


02/06/2015 - 09:25

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