“Eu e meu cão vencemos uma briga por todos os cegos do Brasil”

Barrados no metrô, movemos o processo que deu origem às leis que garantem entrada e permanência dos cães-guia em todo espaço público e privado do país

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Imagens Sou Mais Eu | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
Imagens Sou Mais Eu | Crédito: Arquivo Pessoal

Para a advogada Thays Martinez e Boris, seu cão-guia, aquela manhã deveria ser como todas as outras a caminho do trabalho. Mas não foi. Recém-chegados dos Estados Unidos, eles se viram impedidos de embarcar no metrô de São Paulo, sob a alegação de que era proibida a entrada de animais ali. Inconformada, Thays – deficiente visual desde os 4 anos devido à infecção provavelmente causada pelo vírus da caxumba – travou uma disputa jurídica com a Companhia Metropolitana por seis anos. Sua luta levou à criação de duas leis que garantem o acesso e a permanência de cães-guia em qualquer lugar deste país, incluindo transportes públicos. No livro Minha Vida com Boris – A Comovente História do Cão que Mudou a Vida de sua Dona e do Brasil, ela conta detalhes dessa batalha e do seu amor por esse cachorro pra lá de especial.

Ter cachorro era um sonho de infância

“Quando criança, com 5 ou 6 anos de idade, eu tinha três grandes sonhos: ter uma bicicleta, um piano e, por fim, um cachorro grande. Até aí, nenhuma novidade. Crianças de todo o mundo vivem pedindo a seus pais essa espécie de trio supremo do desejo infantil. A bicicleta veio aos 8, o piano aos 12. Porém, para realizar meu terceiro desejo, tive de esperar até meus 26 anos. Em abril de 2000, pouco depois da chegada do novo milênio, ganhei um grande cachorro...

Ele era mais cuidadoso que os outros cães-guia

“Lembro-me de uma vez em que estava sozinha com o Boris, seguindo uma rota predefinida pelos instrutores, que nos acompanhavam à distância e de bicicleta, interferindo apenas em casos extremos. No dia anterior havia chovido muito e, em determinado trecho, o Boris resolveu empacar. Eu o mandava seguir e nada. Ele teimava em pegar um atalho, queria, a qualquer custo, me fazer subir em um montinho de terra e grama que ficava próximo da rua. Daí, resolveu me levar para o outro lado. Foi então que me esclareceram que ali havia uma grande poça de água. Enquanto todos os outros cães passaram pela água, Boris a evitou e ainda me deu uma alternativa.”

Boris roubou a cena do ex-prefeito Celso Pitta

“Daquela época, não ficaram só lembranças ruins do metrô. Alguns funcionários, discretamente, mas sempre que podiam, diziam que estavam torcendo por mim e me davam todo o apoio. Boris, que havia muito tinha ultrapassado seus 15 minutos de fama, sentia-se o próprio superstar de tanto aparecer nos noticiários e programas de rádio e TV. Seu slogan, criado por um dos jornalistas, passou a ser: ‘Boris, de Michigan para o mundo’. Na mesma ocasião, no Ministério Público, em que eu trabalhava, havia uma grande movimentação em torno do exprefeito de São Paulo Celso Pitta, o famoso escândalo dos precatórios. Certa tarde, havia uma concentração de repórteres que estavam acompanhando a entrevista coletiva de um dos envolvidos no caso. Quando o Boris avistou a agitação, flashes, câmeras, luzes, em vez de me levar para o elevador, posicionou-se bem na frente dos cinegrafistas. Roubou a cena.”

“A senhora não pode entrar com o cão!”

 “Naquela manhã de maio, o clima ameno combinava perfeitamente com a satisfação que eu sentia por estar retornando ao trabalho com muito mais liberdade. Boris também estava tranquilo e feliz. O que não poderíamos imaginar é que estávamos saindo de casa para fazer história. Quando o primeiro funcionário do metrô informou que eu não poderia entrar com o Boris, achei quase natural, mas quando ouvi um quarto funcionário dizer que o Jurídico havia mandado o recado de que eu não poderia mesmo entrar com o cão, eu simplesmente não queria acreditar.”

Nossa emoção de entrar no metrô após a vitória

“Boris, que até então andava carrancudo e cabisbaixo, finalmente pôde abanar o rabo à vontade, posar nos mais diferentes ângulos. Ele parecia ter entendido que seu papel no novo país iria muito além de ser um cãoguia, o que já não era pouco. Boris se tornava um verdadeiro embaixador da cidadania, da inclusão e da acessibilidade. Não dá para descrever a hora em que escutei aquele som característico do metrô chegando à plataforma da estação. Boris, concentradíssimo em sua missão, não hesitou em encontrar a porta assim que o trem parou. Foi aplaudido como um craque que acaba de marcar o gol da vitória. Os aplausos, assobios e gritos da torcida só pararam quando a porta se fechou e o trem se afastou.”

Muitas lágrimas e o beijo de despedida

“No aeroporto, foi uma correria e tanto. Boris foi comigo à casa de câmbio e também à farmácia (...). Abaixei para me despedir dele e comecei a chorar. Eu o abracei com força e ele, sempre positivo, deu um beijo em meu nariz. Era algo como: ‘Vá em frente’. E eu não tinha outra coisa a fazer.”



04/12/2015 - 10:06

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