"Eu e meu cão tivemos câncer e ele me ensinou a superar o mal"

O beagle foi diagnosticado com um tumor maligno e os veterinários lhe deram só mais um ano de vida. Pouco tempo depois, sua dona descobriu um câncer no seio

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Teresa Rhyne | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
Teresa Rhyne | Crédito: Arquivo Pessoal
Namorado novo, casa nova... Teresa Rhyne estava tentando reestruturar sua vida após dois casamentos fracassados. Só que, pouco tempo depois de ter adotado Seamus, um beagle totalmente incorrigível, o cãozinho foi diagnosticado com um tumor maligno e menos de um ano de vida. Devastada, Teresa decide lutar e fazer tudo ao seu alcance para dar o melhor tratamento a Seamus. A bem sucedida advogada não tinha como saber, naquele momento, que estava se preparando para o próximo grande obstáculo de sua vida: um diagnóstico de câncer de mama. Na luta pela sobrevivência, batalhando contra uma doença mortal e abrindo seu coração para um relacionamento que parecia fadado ao fracasso, Teresa aprendeu com Seamus a enfrentar o câncer e superá-lo. Confira, a seguir, alguns trechos do livro Os Cães Nunca Deixam de Amar, em que ela conta essa trajetória longa e enriquecedora de peito aberto:

No Centro de Adoção de Animais, o beagle me recebeu com uivos frenéticos, insistentes e ríspidos. (...) Ele correu em direção a mim, pulou nas minhas pernas, esticou o focinho em minha direção e fez “Auuuuuuuuuuuuuuuuu” na minha cara. Eu ri e me abaixei para fazer carinho nele. (...) Ele se virou para mim para que eu pudesse fazer carinho nas suas costas.(...) Na maior parte do tempo, ele estava empurrando meu coração. (...) Ele era fofo e gostava de mim. Naquele momento, nós dois sabíamos que ele iria para casa comigo.

“Me desculpe”, dr. Davis balançou a cabeça e se inclinou em minha direção. “A biópsia chegou, e é um câncer.” (...) Seamus tinha mais duas semanas para se recuperar da sua primeira operação antes que a gente encontrasse o veterinário cirurgião para discutir a possibilidade de uma segunda cirurgia. Eu tinha mais duas semanas para colocar a cabeça no lugar e aceitar que o meu engraçadinho e adorável beagle tinha CÂNCER.

Eu sentei no chão. Seamus imediatamente subiu no meu colo e cheirou meu rosto. Segurei o cachorro e fiz carinho enquanto o dr. Davis explicava sobre outra doença atacando outro cachorro meu. Eu não ouvi muito o que ele me disse. Fiz carinho em Seamus e segurei o rosto dele no meu enquanto eu segurava as lágrimas. Queria chegar à segurança do meu carro e ir para casa, onde eu podia desabar em um lugar privativo.

“A biópsia demonstra um tumor de células mastro, e as margens não estão limpas. Blá, blá, blá... agressivo... blá, blá, mais blá... cirurgia... blá, blá... difícil. Blá, blá, blá, blá... qualidade de vida... blá, blá, blá... quimioterapia... Blá, blá, blá... O prognóstico é de provavelmente um ano.” Eu me apeguei a uma das poucas palavras que tinha entendido. – Quimioterapia para cachorro? – Sim, é um câncer; nós tratamos como trataríamos em um humano. Cachorros toleram a quimioterapia até que bem, na verdade. (...) Ao ouvir isso, eu me perguntava se o cachorro também achava o mesmo...

O caroço de Seamus foi descoberto em um spa de cachorro. O meu foi encontrado no chuveiro. Minha mão esquerda tocou a parte superior do meu seio direito enquanto eu depilava minhas axilas. Algo parecia diferente, grosso. (...) “Desculpe-me, mas os resultados são altamente suspeitos de malignidade. Vou encaminhá- -la a um cirurgião. Você precisa remover esse caroço. Não vamos nem fazer biópsia. Isso precisa ser removido imediatamente”, o médico disse.

Logo comecei a contar os dias antes de começar a minha quimioterapia. Eu não estava dormindo bem. Caí em um hábito de acordar às 2 h da manhã. Eu me levantava da cama, pegava um livro no criado-mudo e ia até a poltrona da nossa biblioteca. Quando Seamus começou a acordar comigo e a me seguir para o outro cômodo, eu achei fofo. Quando ele subiu no meu colo e dormiu lá comigo, eu sabia que meu nervosismo era perceptível. 

Dois dias antes da consulta para a primeira quimio, eu me sentei na minha mesa em casa, olhando fixamente para a tabela de medicação que a enfermeira havia me dado. A tabela era similar à que o Seamus tinha. (...) A tabela era um regime de pílulas com a função de reduzir ou eliminar a náusea e a dor.

No dia da primeira sessão de quimioterapia, Seamus nos seguiu até o jardim, e nós paramos para tirar fotos de mim, a nova guerreira contra o câncer, e Seamus, o veterano. Eu fiz carinho nele para receber boa sorte, beijei o topo de sua testa e então o coloquei na caixa de transporte no banco traseiro do nosso carro.

Pelos dias seguintes, pequenos cabelos caíram em todos os lugares onde eu fui. Eu deixei cair muito mais do que Seamus. Dentro de uma semana, havia somente alguns fios de cabelo fino. (...) Eu estava certamente careca. Depois de mais alguns dias, a careca era quase um alívio. Eu estava cansada demais para cuidar do cabelo.

Lá no sofá, aconchegada com o Chris, mastigando biscoitos feitos em casa, me dei conta de que tinha acabado de ser salva. Seamus tinha conseguido me tirar disso. Ele tinha me ensinado isso antes. Eu precisava lembrar uma lição muito importante: algumas vezes, você só precisa se focar nos biscoitos. E, se eu me focasse nos biscoitos, não poderia deixar de notar o amor do cachorro.

Eu me dei conta de que o câncer tem um jeito de focar a pessoa no que está sendo perdido. Era hora de focar no que eu tinha. Qualquer vontade que tive de cair em lágrimas foi dissipada. Tudo que eu queria fazer era carinho no meu beagle que tinha dado uma lição no câncer. (...) Sim. O cachorro sobreviveu. E eu também sobreviveria.

Sozinha na mesa do procedimento, pensei em Seamus. Cada vez que ele foi levado de mim para o fundo do hospital para suas sessões de quimio, eu me preocupei que ele pudesse estar assustado e se sentindo sozinho ou abandonado – como eu me sentia. Mas todas as vezes ele voltava trotando, feliz e cheio de energia, procurando por um novo biscoito. Eu esperava o mesmo para mim.


Os Cães Nunca Deixam de Amar
Editora Universo dos Livros, R$ 34,90


17/11/2015 - 08:30

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