Cura animal: "Meu cachorrinho me livrou da depressão e do pânico"

Que remédio e terapia que nada: foi um vira-lata quem livrou a Nathalie Abud das crises depressivas que ela passou a ter ao perder repentinamente duas pessoas queridas

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Nathalie Abud | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
Nathalie Abud | Crédito: Arquivo Pessoal
Não fazia nem 20 minutos que meus pais tinham saído de casa quando senti meu coração disparar. A respiração ficou curta e eu logo soube: outra maldita crise de pânico estava começando! Desesperada, mal ouvi as patinhas ágeis de Chocolate correndo em minha direção. Eu já estava me desfazendo em lágrimas quando o pequeno vira-lata pulou do meu lado e começou a latir sem parar, como que dizendo: “Fica calma, não vai acontecer nada, estou aqui!”. Aí, apoiou a patinha na minha perna e lambeu meu rosto. Eu ri. Aos poucos, o ar voltou aos meus pulmões, o coração se acalmou e o medo foi ficando distante. Outras crises vieram e Chocolate me socorreu em todas elas. Até que um dia me curou por completo! 

Perder minha vó e logo depois a minha prima me derrubou! Até abril de 2012, eu nem fazia ideia do que era depressão ou síndrome do pânico. Pelo contrário: era bem feliz. Morava com meus pais, minha avó Brasilina, uma tia e uma prima, a Maria Stella, de 37 anos; tinha um namorado parceiro como poucos e estava amando a faculdade de nutrição. Ah, e ainda havia acabado de arrumar estágio numa baita empresa da minha área! 

Essa última conquista havia deixado vovó eufórica. Determinada a celebrar, ela se recusou a ir para o hospital quando, na saída para o aniversário de um priminho, eu percebi um chiado em sua respiração. Só aceitou ser levada ao médico no dia seguinte. 

E aí foi tarde: em questão de duas semanas, ela partiu, vítima de complicações respiratórias. Eu perdi o chão. A mulher que me criou e me dava forças havia morrido. Mesmo assim, em honra à memória dela, decidi que não sairia daquele emprego. Perseverei e ainda segurei a onda da minha família, que não sabia lidar com o vazio enorme que dona Brasilina deixou. Minha prima me pedia que eu não a deixasse só... Não deixei. Mas ela me deixou. 

Exatos 18 dias após a morte da minha avó, fui acordada pelos berros da minha tia numa noite de domingo. “Sua prima está morta!”, ela repetia, desesperada. Levantei sem entender o que estava acontecendo, achando que ela estava pirando. Só quando entrei no quarto da Maria Stella e a toquei que me dei conta: ela também havia partido, vítima de parada cardíaca ou derrame cerebral (não quisemos fazer autópsia). 

Tentei psicólogo, religião... Nada controlava as crises de pânico! 

Logo após o enterro, entrei em estado de choque. Não conseguia falar, beber, comer ou dormir. Era como se eu não estivesse ali. Entrei em depressão e desenvolvi crises de pânico que me davam pavor de tudo: de sair de casa, de ficar sozinha e até de dormir. Chegava a acordar meu namorado várias vezes na mesma noite para ver se ele estava vivo! Com cada crise vinha a sensação de que morreria. Muitas vezes fui parar no hospital! 

De tanto ouvir que precisava de um psicólogo, procurei um. Mas ele só me deixou pior. Depois, me disseram que aquilo era falta de fé. Fui atrás de budismo, espiritismo, catolicismo... Nada ajudou! As crises se tornaram tão recorrentes que comprometeram minha produtividade e, em julho de 2012, fui demitida do tão sonhado trabalho. 

Comecei 2013 destruída. Um dia, no carro com meus pais, falei: “Não tenho utilidade nenhuma. É melhor eu morrer”. Minha mãe estacionou na hora! Estávamos perto de uma feira de adoção de cachorros e, mesmo eu estando aos prantos, ela me fez descer para me distrair com os cães que tanto adoro – na época, tinha oito deles! 

Avistei um filhote lindo, abanando o rabo e me olhando com amor. Peguei no colo e ele lambeu meu rosto todo. Parecia que já nos conhecíamos, a troca de energia foi de outro mundo. Levei ele para casa na mesma hora. Já no caminho escolhi seu nome: Chocolate.

Em dois meses ele me curou. Superamos nossos medos juntos. Bastava eu sair de perto para ele chorar. Só ficava bem em minha companhia. Por isso, precisei enfrentar meus traumas. Às vezes, ele precisava fazer xixi no meio da noite. Para poder acompanhá-lo, era o jeito eu engolir meu pavor de ir no quintal de madrugada. Até hoje não sei explicar como Chocolate pressentia minhas crises de pânico. Ele podia estar do outro lado da casa que disparava para sentar do meu lado até que eu ficasse em paz. 

Claro que eu contei com o apoio da minha família, do meu namorado e de alguns amigos. Mas foi aquele cãozinho que me devolveu a alegria e vontade de viver. Me puxou lá debaixo e disse: “Vem comigo, estamos juntos nessa!”. Hoje, eu estou muito bem, não tive mais crises, mal sei o que é depressão. Muita gente acha exagero, mas eu garanto: não fosse esse amor do Chocolate, talvez eu não estivesse viva. Minha gratidão por ele não tem fim! - NATHALIE ABUD DE JESUS, 24 anos, nutricionista, São Paulo, SP

Pets podem mesmo curar depressão

Quem tem um pet sabe: o amor deles faz nascer sorrisos até em momentos de dor! De acordo com a psicóloga e neuropsicóloga Rosemeire Guimarães da Silva, “alguns hospitais passaram a liberar a entrada de animais em certos casos, tamanho o bem que eles fazem ao paciente”. Foi esse amor que curou a Nathalie. A psicóloga acredita que ela entendeu que o cãozinho precisava dela tanto quanto ela dele, então, o adotou de corpo e alma. “Os outros oito cães da casa já tinham dono, o Chocolate não”, avaliou. “Ela não substituiu as pessoas que perdeu, o que existiu ali foi uma identificação dos dois, pois tinham necessidades similares”. 

Para Rosemeire, os cachorros têm uma relação de endeusamento com o ser humano, adoram os donos e fazem de tudo para agradá-los. A sensibilidade dos bichinhos é tanta que percebem quando seus “deuses” não estão bem. Aí, se viram como podem para ajudá-los a melhorar – igualzinho ao Chocolate!


13/07/2015 - 09:00

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