"Cãotratei um pet que fez da firma um ambiente melhor"

Apesar de vira-lata, o Mark é um funcionário diferenciado. Tem crachá, vale-refeição e plano veterinário. Desde que ele foi contratado, todos da empresa estão mais felizes!

Reportagem: Daniel Lopes

NILDA ROSSO | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
NILDA ROSSO | Crédito: Arquivo Pessoal
Procura-se candidato para preencher nova vaga da empresa. Porte médio, pelo fofinho e bem cuidado, orelhas compridas e focinho bem gelado são características desejadas. Latido fluente é essencial e manchinhas pelo corpo serão vistas como diferencial. Saber se comportar direitinho, fazer as necessidades no jornal e não mastigar os papéis da firma são requisitos importantes, mas a companhia oferece adestramento. Se você é animado, brincalhão, tem ótimas habilidades sociais e gosta de carinho, tem o perfil ideal. Salário depositado diariamente na hora de amor e biscoitos!” 

Se eu fosse fazer um anúncio de emprego para a vaga que meu patrão abriu na firma em novembro do ano passado, seria mais ou menos assim que teria feito. Naquele dia, o presidente da Cerâmicas Portinari, empresa na qual trabalho com outros 2 mil funcionários, me incumbiu de uma missão muito especial: recrutar um candidato capaz de reduzir o estresse e melhorar o humor dos funcionários. Um terapeuta? Não... um cachorrinho! Eu me lembro que, quando o telefone tocou e fui até o escritório da chefia, achava que tinha feito alguma coisa errada. Mas que surpresa boa: havia sido promovida a headhunter de bichinho! 

Ter um bichinho na firma deixa o ambiente relaxado 

A ideia do meu chefe é tudo de bom. Ele tinha visto uma reportagem sobre como a presença de pets melhora o clima na firma e quis fazer igual. Como faço parte de uma ONG que cuida de animais de rua, adorei a iniciativa! Afinal, por melhor que seja o ambiente corporativo, sempre rola um estresse no fim do dia, um problema inesperado de última hora... Os funcionários precisam de um bom jeito de aliviar a tensão! E eu, que tenho seis cachorros e sete gatos, todos resgatados do abandono, sei como os bichinhos são especiais. 

Propus ao patrão adotar um vira-lata da ONG e ele gostou da sugestão. Aí, fui atrás do cãodidato ideal. 

Entrei em contato com a ONG no mesmo dia e passei as especificações da chefia: o cachorro perfeito seria de porte médio para grande e sociável. Já havia pensado no Mark, um vira-lata de cerca de 3 meses de idade que fora resgatado fazia dois meses. Quando o encontramos, estava só pele e osso: subnutrido, muito fraco e magrinho de dar dó. Só que, mesmo assim, os olhinhos dele brilhavam... Dava pra ver que ele era um cãozinho especial, com muita garra e disposição para melhorar. Além disso, o Mark era carinhoso por demais e conquistava qualquer pessoa com seu olhar manso. Não tinha dúvidas: ele era o cão certo para a vaga! 

O Mark arrebatou a vaga por causa do jeito dócil

Passei o fim de semana com o Mark e, na segunda-feira, levei o vira-lata para ser “entrevistado”. Foi um sucesso. Tanto meu patrão como os outros funcionários ficaram encantados com ele, que arrebatou a vaga sem esforço ou concorrência. A partir daquele momento, Mark virou o novo empregado da fábrica de cerâmica, chefe do departamento de recreação canina. Até crachá com foto ele ganhou! Como a vaga incluía dormir no local de trabalho, arrumamos uma casinha bem confortável. As tigelas de água e ração faziam parte do valerefeição. O pet da firma também ganhou uma portinha de acesso a uma área descoberta para fazer ginástica laboral. 

O Mark foi logo designado para ficar com a equipe de criação da empresa, que costuma ser a mais estressada da firma. É que, como eles precisam ter muita atenção e criatividade, é comum que fiquem tensos, cansados e sem paciência. A chegada do Mark mudaria esse cenário completamente, mas todos precisaram se adaptar. Os primeiros dias foram complicados: o cãozinho fazia xixi e cocô onde não devia, premiando solas de sapato e aromatizando as salas. À noite, quando ficava sozinho, chegou a subir em balcões, zonear mesas e derrubar latas de tinta. Chamamos um adestrador e o problema foi resolvido. 

Ele faz a gente se mexer e criou laços de amizade! 

O efeito do Mark sobre nós foi mágico. Todos os funcionários se dividiam no cuidado dele: o primeiro que chegasse de manhã trocava a água e a ração, outra pessoa fazia o mesmo ao meio-dia e novamente no fim da tarde. Por isso, acabamos conversando mais entre nós e fazendo pequenas pausas no expediente que, ainda que cumprissem uma obrigação, eram gostosas e relaxantes. Sem falar que, do nada, o Mark chega perto dos empregados com seu jeitinho meigo e cativante e faz todos sorrirem, o que deixa o ambiente descontraído. Isso quando ele não traz uma bolinha para brincar, o que faz as pessoas se mexerem um pouco. 

Meu chefe também adora seu novo cãotratado. É um verdadeiro talento. Só falta fazer um quadro de funcionário do mês pra ele. Sempre que um cliente chega, o Mark recepciona o convidado com latidos e o rabinho abanando. Não há quem não se derreta! 

Os funcionários rendem melhor e estão felizes! 

O Mark já tem quase um ano de empresa e faz sucesso em todos os departamentos. Os funcionários fazem revezamento para ficarem com ele aos finais de semana. É um cão de todos. Nesse tempo, muita coisa mudou, provando que a ideia da chefia estava certa. Os empregados dizem que estão rendendo mais no serviço, se sentem mais motivados e animados quando acordam durante a semana e recebem mais elogios dos chefes. Todos reclamam menos dos imprevistos e são mais amigos. Nosso ambiente ficou tão gostoso que quase não parece trabalho! - NILDA ROSSO, 47 anos, secretária, Criciúma, SC

Presença do animal reforça laços entre funcionários

Parece estranho no início, mas ter um cachorro dentro da empresa pode ser uma ideia muito acertada. Segundo Michele Simone Pereira, supervisora de Gente e Gestão da Cecrisa, empresa que contratou o Mark, o cãozinho só trouxe benefícios a todos. “A presença dele deixou os funcionários menos estressados e o ambiente mais leve e descontraído”, conta. 

Além disso, o amigo animal acaba ajudando na convivência entre os funcionários. “O clima melhora, pois o bichinho cria novas interações entre os colegas de empresa. Alguns que não se falavam muito antes passam a ser mais próximos por causa dele”, reforça Michele. É preciso levar em conta, no entanto, que um animal precisa de cuidados, como alimentação controlada, tratamento veterinário e local adequado para descanso e bem-estar. Por isso, a empresa deve se adaptar para receber os animais.

23/09/2015 - 09:45

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