A cadelinha velou mamãe por 11 horas

Elas eram tão unidas que nossa cachorra ficou deitadinha ao pé do caixão durante todo o velório

Reportagem: Célia Aguiar

A Milke entrou na sala sozinha, se aconchegou ao pé do caixão e não saiu de lá | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
A Milke entrou na sala sozinha, se aconchegou ao pé do caixão e não saiu de lá | Crédito: Arquivo Pessoal

Estava chovendo naquele final de tarde de 2009. O Roberto, um interno da instituição que minha mãe gerenciava, chegou trazendo uma cadelinha filhote toda suja e molhada. Ele tinha encontrado a pobrezinha amarrada dentro de um saco plástico, no lixo. O Roberto não sabia se minha mãe ia aprovar a nova moradora, mas ele conhecia o coração gigante da dona Maria e resolveu arriscar trazendo a bichinha para o abrigo. Ao saber da história e ver aquela carinha fofa, minha mãe não pensou duas vezes e deixou que ela ficasse. A Milke, nome dado pelo Roberto, tirou a sorte grande. Quer dizer, as duas tiraram a sorte grande. Ao aceitar a cachorrinha, minha mãe não tinha ideia de que ela ia retribuir esse acolhimento até o último segundo de sua vida.


Ela virou mascote do abrigo!


Minha mãe fundou o patronato Lima Drummond em 1942. Ela só tinha 30 anos, mas seu ideal já era bem consolidado: Não há criatura irrecuperável, mas sim método inadequado”. Durante todos esses anos como assistente social, ela se dedicou à ressocialização de detentos do regime semiaberto aqui em Porto Alegre. E era lá, com seus anjos – como ela chamava os internos que cumpriam penas – que mamãe morava. E, se ela recuperava detentos, por que não recuperar a Milke?

O pátio do patronato é enorme, tem quase três hectares. Acho que nem em seus melhores sonhos a Milke se imaginou morando em um lugar daqueles. Ela adorava o ambiente. Pensa: a donzela tinha mais de 80 pessoas dando atenção e brincando com ela todos os dias. Ela virou a mascote da turma! Minha mãe já estava com 97 anos e não tinha muita energia para brincar com a

Milke, mas, mesmo assim, elas construíram uma linda relação de amizade. A cadelinha fazia visitas à mamãe todos os dias. Tomava café da manhã com os internos e depois ia atrás dela receber carinho. A Milke era extremamente educada e respeitadora. Dona Maria adorava!  

Só que a idade começou a pesar para minha mãe. Primeiro, ela passou a ter dificuldades pra caminhar e, nos últimos seis meses de vida, mal conseguia se alimentar. Segundo o médico, era um problema neurológico por causa da idade. Ela foi enfraquecendo, mas, guerreira como só ela, viveu até os 102 anos!


Todos se comoveram com a cena


Nós fizemos da sala de reunião do patronato o local do velório. O corpo chegou lá por volta das 21 h do dia 21 de setembro de 2014. Aquele espaço não era um lugar que a Milke transitava, mas, como naquele dia a porta ficou aberta, ela entrou. Entrou e ficou. A companheira da minha mãe se aconchegou ao pé do caixão e simplesmente se deitou lá.

O funeral foi longo, até as 10 h da manhã do dia seguinte. Além dos familiares e amigos, como minha mãe era muito conhecida pelo seu projeto social, muitas pessoas da imprensa apareceram. O entra e sai de gente era grande, mas a Milke não saía de lá de jeito nenhum. Era como se fosse uma tarefa de honra velar o corpo daquela senhora que deu abrigo a ela durante cinco anos. Não teve uma pessoa que não se comoveu com a cena. Ela foi fiel até o fim da vida de minha mãe. Foi um ato lindo de gratidão!


CARLOS EDUARDO AGUIRRE DA SILVA, 57 anos, advogado, Porto Alegre, RS


Da redação


Pet segue o hábito de ficar com seu dono, vivo ou morto


Segundo a especialista em comportamento animal Carolina Rocha, o ato de velar um corpo é humano. A ciência não consegue comprovar se o animal tem essa intenção ao fi car ao lado de seu dono falecido. “A gente não sabe se o animal tem a consciência de que o dono está morto. É muito difícil afirmar qualquer coisa quando a questão é a intencionalidade do bicho”, explica Carolina. De acordo com a médica veterinária, o que o animal faz é seguir o hábito de ficar junto ao seu dono, estando ele vivo ou morto. No caso da Milke, como o caixão estava alto, fora de seu campo de visão, o que poderia fazer com que ela permanecesse ali seria o reconhecimento do cheiro de sua dona e a presença de familiares e pessoas de seu convívio. 

20/08/2016 - 08:00

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