"Vendendo cocada na rua, faturo alto!"

Márcia Nonato lucra R$ 3 mil por mês oferecendo seus doces de porta em porta pela comunidade

Reportagem: Christiane Oliveira

MÁRCIA NONATO DE CARVALHO | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
MÁRCIA NONATO DE CARVALHO | Crédito: Arquivo Pessoal
Lembro de, ainda criança, ficar olhando mamãe na beira do fogão, colher de pau na mão, mexendo uma panela enorme. Era assim que ela preparava aquela cocada deliciosa e cheirosa para as festas e almoços de família ou apenas para adoçar nosso fim de semana. Eu adorava raspar o fundo da panela e comer todo o restinho que ficava grudado na colher. É uma das lembranças mais gostosas que tenho da infância. Hoje continuo olhando minha mãe na beira do fogão mexendo o tal panelão. Só que agora estou ao lado dela, porque a cocada, quem diria, virou o nosso ganha-pão.

Passei a vender com 10 anos pra ter meu dindim 

Na verdade, os doces da minha mãe já ajudavam com a renda da família há muito tempo, quando eu tinha uns 10 anos. É que a situação lá em casa estava apertada e dona Edinália começou a vender suas cocadas na rua para ajudar meu pai. Como nunca gostei de pedir dinheiro para eles, ainda mais quando a gente passava por esses apertos, pedi que mamãe me deixasse vender cocada também. Ela topou, mas com uma condição: isso não poderia atrapalhar meus estudos. Era interessante para nós duas. Pra ela, porque era uma ajuda nas vendas. Pra mim, porque conseguia uma graninha todo mês para poder comprar minhas coisas.

Então, na parte da manhã, passei a ir com ela para as ruas da comunidade de Heliópolis e bairros próximos, em São Paulo, onde moramos. À noite, ia para a escola. Era bem puxado, mas isso me fez conquistar uma certa independência financeira desde pequena. Tanto que, quando me casei, aos 19 anos, continuei vendendo as cocadas com minha mãe para ter meu próprio dinheiro.

Eu e dona Edinália começamos a fazer as cocadas lá pelas 9 h da manhã. Elas são caseiras mesmo. Tiramos a água do coco, retiramos a casca com a faca e ralamos a parte branca no ralo grosso. Esse processo todo demora umas duas horas, porque fazemos isso com 40 cocos todos os dias. Tem que ter braço, viu?! Depois disso, vamos para o fogão.

Saio gritando nas ruas para chamar os clientes 

O diferencial do nosso produto é esse: só vendemos cocadas fresquinhas. De um dia para o outro, elas perdem a cremosidade e ficam um pouco duras. Além disso, dá mais credibilidade ao produto vender assim que sai do fogo. É por isso que também acrescentamos o leite condensado na nossa receita. É ele que deixa o doce mais cremoso. A receita original só leva açúcar e coco. 

Quando elas ficam prontas, saímos para vender às 13 h – nesse horário, as pessoas querem saborear um docinho depois do almoço. Passamos praticamente nos mesmos lugares todos os dias: batendo de porta em porta em residências e comércios, além de oferecer aos passantes na rua. Tem até um mercado que compra umas dez unidades todos os dias, para revender. Nossos clientes são fiéis. 

Somos conhecidas como as meninas da cocada. Saímos carregando uma vasilha de 6 litros em cima de um carrinho daqueles de transportar gás pelas ruas. Eu fico gritando “Olha a cocada! Cocada fresquinha, cocada caseira!”. 

Mamãe puxa o carrinho, pois tenho problema na coluna e não posso carregar peso. 

Já fui até viajar com o dinheiro das cocadas! 

Vendemos quatro sabores: cocadas branca, morena, de abacaxi e de maracujá. A morena, com açúcar queimado, é a que mais vende. Os clientes dizem que parece um caramelo com coco. Vendemos cerca de 50 por dia, cada uma por R$ 3. O preço de custo de cada unidade e de R$ 0,80. Nos fins de semana, chegamos a vender até 200! Com isso, nosso lucro é de mais ou menos R$ 3 mil por mês, o ano todo. É uma renda garantida! 

Meu marido trabalha como porteiro. O salário dele não é muito alto, mas dá para manter a casa sem sufoco. Por isso, uso o dinheiro que ganho pra comprar roupas pra mim e meus filhos e para ir ao salão de beleza de vez em quando. Afinal, também sou filha de Deus, né? No ano retrasado, eu e meus filhos fomos até passar as férias no Ceará com o dinheiro das cocadas! 

Meu maior sonho é abrir uma lojinha no meu bairro para vender as cocadas. Assim, teria mais espaço para produzir e um lugar fixo para oferecer. O nome seria Márcia e Edinália Cocadas, eu e minha mãe. Afinal, trabalhamos juntas há 19 anos e foi ela que me ensinou tudo que sei! - MÁRCIA NONATO DE CARVALHO, 29 anos, vendedora, São Paulo, SP

Os segredos para vender bem na rua

Uma das maiores vantagens de vender nas ruas é a proximidade com o cliente, segundo a consultora do Sebrae de São Paulo, Ariadne Terrado. “Ao vender seu produto de porta em porta, você consegue entender as necessidades do seu comprador e melhora a entrega e a qualidade do que oferece”, diz. A especialista ensina a se dar bem com vendas nas ruas: 

➜ APRESENTE-SE: quando chegar a um domicílio ou abordar um cliente, fale com simpatia e um sorriso no rosto. 

➜ VALORIZE A EMBALAGEM: Se não puder personalizar, use adesivos que descrevam o produto (sabor, ingredientes, prazo de validade).

➜ RELAÇÃO COM O CLIENTE: faça cartões ou informe seus contatos na embalagem, pois, se o comprador gostar do produto, ele pode ligar e encomendar mais. 

➜ CRIE REGULARIDADE: informe os clientes sobre seu roteiro. Avise em quais dias e horários da semana você passa vendendo. 

➜ IDENTIFIQUE-SE: o uso do uniforme ajuda os clientes a reconhecerem você. 

➜ ESTEJA NAS REDES SOCIAIS: gratuitas, elas ajudam a valorizar seu produto. Em redes como Facebook e Instagram, você pode mostrar novos sabores que está oferecendo, disponibilizar seu roteiro e até deixar seus contatos. 

➜ PROMOVA DEGUSTAÇÃO: oferecer o produto para o cliente provar dá credibilidade e o convence de que aquilo que você vende é mesmo bom.

Faça uma cocada perfeita com minhas dicas!

1. Não deixe o açúcar ficar muito moreninho. Se ele queimar, pode passar o gosto para a cocada. 

2. Faça a cocada no mesmo dia para vender. Depois de um dia, ela perde sua cremosidade e acaba ficando um pouco dura. 

3. Use leite condensado para dar cremosidade. 

4. Para fazer uma cocada com sabor de fruta, como de maracujá, por exemplo, coloque a polpa quando a mistura estiver bem grossinha. Se colocar antes, pode perder o ponto e ficar mole demais.


Receita da cocada morena

Ingredientes
• 2 kg de coco fresco ralado no ralo grosso
• 2 kg de açúcar refinado
• 1 lata de leite condensado 

Modo de preparo
Leve o açúcar ao fogo até ficar no ponto de caramelo. Acrescente o coco ralado e mexa. Quando a mistura começar a endurecer e desgrudar da panela, desligue o fogo, acrescente o leite condensado e mexa. Espalhe a massa numa tábua de madeira e espere secar por 20 minutos. Depois, é só cortar com uma faca ou espátula.

26/10/2015 - 09:00

Conecte-se

Revista Sou mais Eu