Troquei meu carro por sutiãs de amamentação

Pedi demissão, voltei pra casa dos pais e vendi o carro para abrir um negócio

Reportagem: Gabriella Gouveia

Nossa linha de lingeries conta com seis opções de fechos nas costas para adaptar ao corpo. As alças são mais largas para dar mais sustentação e não usamos arcos de ferro nas taças dos sutiãs já que os tornam desconfortáveis. | <i>Crédito: Mariana Valverde/Redação Sou mais Eu
Nossa linha de lingeries conta com seis opções de fechos nas costas para adaptar ao corpo. As alças são mais largas para dar mais sustentação e não usamos arcos de ferro nas taças dos sutiãs já que os tornam desconfortáveis. | Crédito: Mariana Valverde/Redação Sou mais Eu

Comprei minha belezinha de automóvel em 2013, era a realização de um sonho. Íamos para todo o lado juntos, éramos inseparáveis. Ele me trazia a independência que sempre valorizei. Afinal, saí da casa dos meus pais com apenas 17 anos quando vim para São Paulo estudar fotografia. Virei gente grande em uma cidade maior ainda. Tinha meu próprio cantinho e mandava no meu nariz. Mas essa liberdade toda durou menos do que eu imaginava. Tive que abrir mão dela por um motivo contraditório: ser ainda mais livre.

A gravidez da minha irmã mudou nossas vidas

Em 2013 minha irmã, a Stella, engravidou do primeiro filho. Nessa época, Stella morava no Equador e sofreu para montar seu enxoval. Todos os sutiãs de amamentação que ela encontrava eram simples demais. Completamente sem graça e pouco funcionais. Com o corpo em constantes transformações, minha irmã procurava por peças adaptadas que a valorizassem, fossem úteis e que a deixassem bem com ela mesma. Ela estava levando um bebê na barriga e tinha todo direito de querer acentuar sua beleza. Depois de tanto buscar, Stella decidiu encomendar modelos de um site nos Estados Unidos. E não ficou muito satisfeita, continuou se queixando da falta de autoestima que as lingeries ofereciam para mulheres que amamentavam.

Dois anos depois, minha irmã e sua família se mudaram para a Argentina, onde minha segunda sobrinha nasceu. Mais uma vez Stella precisou de lingeries adaptadas à amamentação. E mais uma vez encontrou sutiãs que não a valorizavam. Os lisos eram sempre de cores neutras: bege, branco ou preto. Ainda não sabíamos, mas essa lacuna no mercado mudaria nossas vidas.

Pesquisamos a fundo antes de começar

Em 2015 começamos a pensar num modelo de negócio que atendesse mães durante a amamentação. Eu dava aulas de fotografia em um prédio que tinha curso de estética. Foi lá mesmo que fiz minha pesquisa para saber se meu produto seria bem aceito e qual a necessidade dele para as mulheres. Toda vez que ia ao shopping entrava em lojas de lingeries para fuçar os modelos. Logo de cara, eu e Stella identificamos as necessidades de nossas futuras clientes: autoestima e funcionalidade. Toda mãe vê seu corpo se transformar dia após dia. Quando o neném nasce, a atenção das visitas é voltada para a criança e a mãe fica esquecida. Então, pensei: já que elas precisam vestir algo funcional para o momento da amamentação, que seja bonito e atrativo.    

Para poder trabalhar, pedi demissão e vendi o carro

Com as ideias fervendo na cabeça, eu e Stella analisamos as possibilidades de investir numa marca nossa. O único bem que eu tinha de fato era o meu carro, um Kia Soul. A atitude mais correta seria vendê-lo, assim não entraria em dívida com bancos. No início, me dedicava às pesquisas de investimento apenas aos sábados, mas era algo que precisaria de muito mais tempo e esforço.

Meus pais me incentivaram a largar o emprego e mergulhar de cabeça no empreendimento. E lá fui eu: pedi demissão do trabalho em outubro e vendi o carro em novembro. Como meu pai é empresário, tive a ajuda dele no momento da venda. Foi muito difícil me desfazer do meu companheirinho. Foi como se tivessem tirado um pedacinho de mim. Eu tinha uma independência enorme e era apegada ao carrinho. Sem contar que me vi obrigada a voltar para casa dos meus pais e deixar para trás minhas maiores conquistas pessoais até então.

Em fevereiro de 2016 me mudei para Pirassununga, cidade em que fui criada, e comecei do zero. Com os R$45 mil da venda do automóvel e mais R$15 mil que Stella investiu, tínhamos o suficiente para fabricar calcinhas e sutiãs para gestantes!

Me tornei empresária e, de quebra, aprendi a ser mãe

Pensei que meu maior obstáculo seria abandonar minha independência em São Paulo e vender o carro. Que nada! Eu não tinha me dado conta que não entendia lhufas sobre moda e gravidez. Passei a aprender algo novo todos os dias. Além dos desafios instigantes, tive dificuldade em encontrar um parceiro para a confecção. As oficinas rejeitavam nossa marca por se tratar de poucas peças; não compensava para os negócios. Começamos a fazer um teste com peças piloto em janeiro de 2016 e em março estávamos desenvolvendo os produtos. Foi um vai e vem de profissionais entre modelista, estilista e costureiras que penamos até consolidar uma equipe. Mas em julho começamos a produção em Campinas (SP) com a turma definida. Um alívio! Minha cidade fica a 1h30 do ateliê, toda semana levo o tecido já cortado e elas costuram as peças. Hoje, nosso produto oferece beleza e praticidade. Praticamos a ideia de que as mães devem se sentir lindas TAMBÉM no período da amamentação.

Estamos no caminho certo, o plano é deslanchar!

As pesquisas nos mostraram que o conforto é essencial para essas mulheres. Por isso, nossa linha de lingeries conta com seis opções de fechos nas costas para adaptar ao corpo. As nossas alças são mais largas para dar mais sustentação e não usamos arcos de ferro nas taças dos sutiãs já que os tornam desconfortáveis. Trabalhamos com variedade de cores e com uma moda jovem. Nosso maior objetivo é que a cliente fique feliz com o corpo dela nesse momento de transformação e adaptação com a chegada do bebê. A Maya foi aberta em março do ano passado, mas as vendas começaram efetivamente no final de setembro. A empresa ainda não começou a dar lucro, mas conseguimos bancar as despesas e temos um retorno muito bom das clientes.

Estamos com alguns pontos de vendas com a nossa marca e em 2018 queremos começar a exportar. Como a Stella mora na Argentina, nossa ideia é começar por lá, pois sabemos que há falta dessas peças no mercado. Além disso, vamos aumentar as opções de produtos e a grade de numeração. Hoje as vendas são pelo site e eu trabalho de casa. Sou muito mais realizada do que antes e precisei de paciência e trabalho duro para chegar aqui. Largar tudo foi difícil, eu amava muito meu carro, o abracei de tão feliz quando comprei, mas sei que ele se foi por um bom motivo. O vendi para começar uma vida nova. Mais para frente vou conquistar outro carro... Só preciso acreditar e batalhar!

Natália Pereira, 33 anos, Fotógrafa, Pirassununga, SP

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08/02/2017 - 17:00

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