"Me visto de garçom para vender água no semáforo"

Lucro R$ 2 mil por mês por causa do meu uniforme especial e sou muito bem tratado pelos motoristas, que não fecham o vidro quando me aproximo e sempre puxam conversa!

Christiane Oliveira

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"Me visto de garçom para vender água no semáforo" | Crédito: Arquivo Pessoal

Era mais um fim de tarde frustrado de maio de 2013. Eu voltava pra casa desanimado após perder o dia todo procurando um emprego que não apareceu. Até então, havia trabalhado como eletricista em obras, mas meu último serviço tinha acabado semanas atrás. As contas estavam apertando... Dentro do ônibus, a dez minutos de casa, o trânsito parou. Fiquei uns 40 minutos na Avenida Interlagos, em São Paulo. O calor era insuportável. Preso naquele lugar, comecei a observar os ambulantes no semáforo. Eles vendiam amendoim, pipoca, bala, eletrônicos... Foi aí que tive uma ideia. Desci do ônibus, fui até eles e puxei conversa. Descobri que eles faturavam até R$ 200 por dia e saquei que dava pra ganhar mais nesse esquema do que empregado! Peguei o ônibus e fui pra casa decidido a virar ambulante.

Notei que os motoristas evitavam ambulantes de bermuda e chinelo

Como não vi ninguém vendendo água naquele ponto, decidi que esse seria meu produto. A ideia de vender no semáforo não me incomodava, mas eu não gostava do preconceito que os motoristas tinham contra os ambulantes. No dia em que os observei, notei que alguns motoristas ficavam com medo e fechavam o vidro do carro quando eles se aproximavam, trajando bermuda, regata e chinelo. Outros nem davam bola. Não queria passar por isso. E, como já havia sido gerente numa loja, sabia o quanto estar arrumado e com boa aparência influenciava nas vendas. Eu tinha que dar um jeito de acabar com o preconceito e me sentir confortável. Por isso, decidi me vestir de garçom, com roupa social e gravata borboleta. Comprei uma bandeja e um balde de gelo para completar o uniforme e, em vez de apenas vender, eu serviria os clientes com qualidade. Fiz o maior sucesso no dia em que apareci no semáforo vestido como garçom e de cara percebi que tinha acertado na minha decisão. Todos os motoristas pararam para conversar comigo e me fazer elogios. Diziam que eu havia tido uma sacada muito boa e que havia conseguido ganhar a atenção deles por causa da minha roupa. Apesar do calor, me vesti bem chique pra fazer bonito. Assim, percebi que não era apenas um vendedor de água no farol, mas um personagem com o qual as pessoas se identificavam. Além de me fazer sentir bem, isso se refletiu no meu bolso. Naquele mesmo dia, vendi todas as 60 garrafas de água, cada uma a R$ 2, o que me rendeu R$ 120. Usei o dinheiro para comprar algumas coisas para casa e separei a quantia necessária para comprar mais cinco fardos no dia seguinte. Fiz isso durante seis meses porque não tinha dinheiro para fazer estoque. Tinha que ir à adega todo santo dia! É que, como vou de ônibus até meu ponto na avenida, fica difícil levar mais água. Mas sei que, assim que tiver mais garrafinhas comigo, venderei tudo. Às vezes, a água acaba antes do esperado e tem sempre gente pedindo mais. Depois desse período, consegui juntar dinheiro para fazer um pequeno estoque em casa. Agora, tenho 90 fardos dentro de casa. Quando encontro um lugar com preço abaixo da média e tenho uma graninha sobrando, compro alguns a mais pra aumentar meu lucro.

Os clientes me respeitam. Eles me batizaram de garçom ambulante!

Desde que comecei com essa rotina, saio de casa na estica todo dia. Levanto às 8h, tomo aquele banho e visto meu uniforme com gravata borboleta. Passo gel, penteio o cabelo e, por último, borrifo um pouco de perfume. Antes de sair de casa, pego dois isopores, as 100 garrafinhas de água que consigo levar, o balde e a bandeja. Trabalho em média 23 dias por mês e vendo tudo o que levo. Nos dias mais quentes, cheguei a vender 150 unidades de uma vez! O único problema é que dependo do clima para trabalhar. Se está chovendo, por exemplo, não vou.  Nem adianta, porque as pessoas fecham os vidros e precisam redobrar a atenção com o trânsito. Se está frio, vendo amendoim no lugar da água, porque as pessoas têm menos sede. Apesar das dificuldades, os clientes são muito simpáticos comigo e sempre puxam conversa. Eles me dão uma abertura maior do que a outros ambulantes e sei que isso só acontece por causa da minha roupa e do fato de eu ter sempre um sorriso no rosto, algo que aprendi trabalhando em loja. Ser ambulante é um trabalho muito cansativo e às vezes não estou de bom humor, mas quem quer vender precisa trabalhar a própria atitude. Os clientes adoram me ver desfilando por entre os carros com uma bandeja reluzente cheia de gelo e isso os deixa com mais sede e vontade de beber água. “Olha a água gelada! Olha a água!”, grito enquanto o semáforo está vermelho. Quando um motorista acena para mim, sempre dou “Bom dia” ou “Boa tarde” com muita educação e ofereço meu produto. Os clientes me batizaram como “garçom ambulante”. Já teve gente que me disse ter se sentido num restaurante e não no meio do trânsito!

Lucro R$ 2 mil por mês e faço meus horários sem patrão!

Com todos esses cuidados, lucro cerca de R$ 2 mil todo mês. É mais do que eu ganhava como eletricista e, de quebra, sou meu próprio patrão. Sou eu quem faço meus horários e não tenho que aguentar desaforo de ninguém. Nesses dois anos como ambulante, nunca sofri preconceito. Muito pelo contrário. As pessoas têm curiosidade para saber por que eu me visto como garçom. É muito legal saber também que, além de ter o respeito dos clientes, acabo tirando o foco deles do trânsito caótico de São Paulo por um minuto. Eles riem, ficam menos estressados e seguem viagem de bom humor. Tenho certeza de que o fator determinante para o meu sucesso é meu uniforme. Estou sempre com as roupas bem passadas, o cabelo penteado e as mãos limpas. Com isso, ganho a confiança dos motoristas. Eles sabem que estou ali a negócio. Meu próximo passo é juntar dinheiro para comprar um carro. Mas sabe-se lá o que mais inventarei. O segredo para se destacar no meio da concorrência é ser criativo!

JAIRO ROSENDO DE FREITAS, 34 anos, vendedor, São Paulo, SP

 

Roupa certa atrai clientes

Isso que o Jairo fez tem um nome chique no mundo das vendas: marketing pessoal. Segundo a professora de Etiqueta Social do Senac Penha, Monayna Pinheiro, “o uniforme, dá credibilidade, garante um padrão e transforma a figura do ambulante. Ele cria uma identidade”. Para a especialista, as roupas usadas devem representar o produto que se vende. “Nossa aparência comunica. Se uma pessoa vende cosméticos, é legal estar sempre maquiada para expor o produto. Já a vendedora de bijuterias deve usar anéis, colares, pulseiras...”, afirma.

 

10/12/2015 - 10:00

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