Inspiração: "Encarei ursos, cobras e a fome pra superar o fim da minha família"

Cheryl Strayed pediu demissão do emprego, vendeu tudo que tinha e partiu sozinha para uma trilha de 1.770 km, onde sofreu todo tipo de privação

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Cheryl Strayed | <i>Crédito: Arquivo pessoal
Cheryl Strayed | Crédito: Arquivo pessoal
Aos 22 anos, Cheryl Strayed achou que tivesse perdido tudo. Após a repentina morte da mãe, a família se distanciou e seu casamento desmoronou. Quatro anos depois, tomou a decisão de sua vida: caminhar 1.770 km pela trilha que atravessa a costa oeste dos EUA, passando pelo deserto de Mojave. Detalhe: totalmente sozinha e sem experiência em longas caminhadas. Em sua jornada, ela deparou com ursos e cascavéis, sofrendo todo tipo de privação. Além da exaustão, frio, calor, monotonia, dor, sede e fome, Cheryl também enfrentou seu processo de transformação pessoal. Confira alguns trechos do seu livro, Livre :

Estava sozinha. Estava descalça. Tinha 26 anos de idade e também era uma órfã. Uma verdadeira desgarrada. Meu pai saiu da minha vida quando eu tinha 6 anos. Minha mãe morreu quando eu tinha 22. Apesar de meus esforços para que ficássemos juntos, meus dois irmãos se afastaram, cada um com sua dor, até que desisti e me afastei também.

Minha caminhada solitária de três meses pela costa oeste dos Estados Unidos teve muitos começos. Houve a primeira e repentina decisão de fazer a trilha, seguida pela segunda decisão, mais séria, de realmente fazer e então o longo terceiro começo, composto de semanas de compras, empacotamento e preparação. Houve o pedido de demissão no emprego de garçonete, a conclusão do divórcio, a venda de quase tudo que eu tinha, a despedida dos amigos e uma última visita ao túmulo da minha mãe. Houve a viagem de carro pelo país e dias depois o embarque em um voo para Los Angeles, a carona para a cidade de Mojave e outra para o local onde a Pacific Crest Trail cruzava uma autoestrada.

Havia o saco de dormir, uma cadeira dobrável que podia ser estendida e usada como base para o saco de dormir e uma lanterna de cabeça como aquelas usadas pelos mineiros, mais cinco cordas elásticas. Havia o purificador de água e um minúsculo fogareiro dobrável, um cartucho comprido de gás de alumínio e um pequeno isqueiro rosa. Havia uma panela pequena encaixada dentro de uma panela maior, utensílios que dobravam ao meio e um par de sandálias esportivas baratas. Tinha um pacote de toalhas de secagem rápida, um chaveiro-termômetro, uma lona e uma caneca térmica de plástico com alça. Tinha um kit para mordida de cobra, um canivete suíço, um binóculo, um rolo de corda fluorescente, uma bússola que ainda não sabia usar e um livro que me ensinaria a usá-la.

Na tarde do quinto dia, quando seguia o meu caminho ao longo de um trecho estreito e íngreme da trilha, olhei para o alto e vi um animal marrom enorme com chifres se preparando para me atacar. “Alce!”, gritei, embora soubesse que não era um alce. No pânico do momento, minha mente não conseguiu definir o que estava vendo e alce foi a coisa mais próxima que surgiu. Eu me enfiei no meio dos arbustos e dos carvalhos que ladeavam a trilha, me arrastando nos galhos afiados o máximo que consegui. À medida que fazia isso, a fera vinha na minha direção, e percebi que estava prestes a ser atacada por um touro longhorn. “Allllllce!”, gritei mais alto buscando a corda amarela presa na armação da minha mochila, que trazia o apito mais alto do mundo. Coloquei-o na boca, fechei os olhos e soprei com toda a força. Quando abri os olhos, o touro tinha desaparecido. 

Precisei de todas as minhas forças para percorrer 14 km por dia. Era uma conquista física bem além de qualquer coisa que já fiz na vida. Cada parte do meu corpo doía. A não ser meu coração. Não encontrei ninguém, mas, por mais estranho que pareça, não senti falta de ninguém. Não desejava nada a não ser comida e água e conseguir tirar a mochila. Continuei carregando-a. Para cima e para baixo e pelas montanhas áridas.

Na manhã do oitavo dia, senti fome e coloquei toda a comida no chão para avaliar a situação, o desejo por uma refeição quente subitamente forte. Mesmo em meu estado de exaustão e inapetência, naquela altura eu já tinha comido a maior parte do que não precisava ser cozido – a granola, as nozes, as frutas secas, o peru e o atum desidratado, as barras de proteína, o chocolate e o leite de soja em pó. A maior parte da comida que restava precisava ser cozida e eu não tinha um fogareiro que funcionasse.

Reli o guia, agora incerta de que estava em uma das estradas que ele descrevia de forma superficial. Pegava o mapa e a bússola a cada hora para avaliar e reavaliar a minha posição. Peguei o manual para ler de novo sobre como exatamente usar o mapa e a bússola. Analisei o sol. Passei por uma pequena manada de bois que não estavam cercados e o meu coração disparou ao vê-los, mas nenhum andou na minha direção.

Eu adorava livros em minha vida normal, mas na trilha eles assumiram um significado ainda maior. Eram o mundo no qual eu podia me perder quando aquele em que estava de fato se tornava solitário demais, cruel ou difícil de aguentar. Quando eu acampava à noite, me apressava na tarefa de montar a barraca, filtrar água e preparar o jantar de modo que depois pudesse me sentar no abrigo da barraca, na minha cadeira, com minha panela de comida quente presa entre os joelhos. Eu comia com a colher em uma das mãos e o livro na outra, lendo com a luz da lanterna de cabeça quando o céu escurecia.

Dei alguns passos hesitantes. Tinha me acostumado a me sentir segura na trilha, mesmo durante a noite, mas andar no escuro era uma sensação completamente diferente porque eu não podia enxergar. Podia encontrar animais noturnos ou tropeçar em uma raiz. Podia perder uma bifurcação e continuar para onde não pretendia ir. Caminhei lentamente, tensa, como fiz no primeiro dia, quando encontrei uma cascavel pronta para me dar o bote a qualquer momento. 



10/05/2016 - 11:18

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