"Fui de mendiga à dona de restaurante!"

Rose Marie já revirou lata de lixo por comida e ficou um mês sem tomar banho. Agora é empresária e mora de frente para o mar

Reportagem: Christiane Oliveira

ROSE MARIE SUMÉRIO MAGALHÃES | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
ROSE MARIE SUMÉRIO MAGALHÃES | Crédito: Arquivo Pessoal
Toda semana, eu e minha vó enfrentávamos uma guerra. Nossos inimigos eram pobres e maltrapilhos como nós e o campo de batalha era um grande hortifrúti aqui do Rio de Janeiro. A gente se acotovelava com várias pessoas depois da xepa para disputar as sobras do dia, frutas e legumes passados, mofados ou feios demais para serem vendidos. Ficávamos na caçamba dos alimentos que não prestavam mais e agarrávamos tudo o que conseguíamos levar. 

Para esquecer um chifre, me enchi de pinga e crack 

Quem me ensinou que sempre dava para salvar alguma coisa foi a dona Gilda, minha avó. Fui criada por ela e era assim que a gente comia. Chegamos a pegar cabeça de peixe do chão. Eu ficava encantada com o dom que minha vó tinha. Ela transformava coisas que iam para o lixo em pratos deliciosos, como pirão, buchada e cozido de legumes. Ela me ensinou a fazer comida boa nas situações mais difíceis e esse talento se mostrou salvador. Se mandava bem com restos, imagina o que faço com ingredientes de qualidade no restaurante que tenho hoje... 

Me casei aos 26 anos e levava uma vida tranquila com meu marido. Tive duas filhas lindas e não passava necessidade. Cinco anos depois, meu esposo me largou pra viver com outra mulher e desmoronei. Mesmo tendo crianças pra criar, me afundei no álcool e nas drogas. Virava cachaça no gargalo e cheirava tudo que podia, até crack, que era barato. 

Sem condições de cuidar das minhas filhas, mandei-as para morar com meus tios. Três anos depois, perdi o emprego e fui despejada porque estava devendo o aluguel. Minha mãe não me ajudou. Virei mendiga. Pelos próximos dois anos, moraria embaixo de um viaduto no centro da cidade. 

Passei muita fome nessa fase. Vivia do que os outros me davam e revirava comida no lixo como um vira- lata. Só tinha uma roupa e nenhum lugar para tomar banho. Era horrível quando eu menstruava. O fluxo de sangue era intenso, contínuo e me sujava toda. Como eu queria um chuveiro para me livrar daquele cheiro... O jeito era beber e soltar a voz no videoquê de um bar. O dono já me conhecia. Ele me dava umas cachaças e me deixava cantar de graça. 

Uma estranha me deu casa e me tirou do vício 

Foi a música Inigualável Paixão, minha preferida, que me tirou das ruas. Certo dia, uma moça se aproximou e disse. “Você tem uma fã, sabia?” Bêbada, não entendi. “Minha filha Monique adora ouvir você cantando. Ela fica deslumbrada quando ouve sua voz!” Fiquei emocionada. Aí nasceu uma amizade entre mim e a Lia, que morava num apartamento na frente do bar e começou a me ajudar. Me dava comida e cigarro. Conheci a Monique e passei a cantar em sua homenagem. Foi assim até que a Lia me ofereceu um teto. Mas, pra morar com ela, eu tinha que largar a droga e a pinga. Foi um choque, mas eu sabia como estava: seca, com pés craquentos, o fedor acumulado de meses e tão feia que as pessoas desviavam de mim na rua. Tinha que sair daquela vida. 

Fui morar com ela, o marido e Monique, e trabalhava na casa em troca de cama e comida. Mas a abstinência foi braba. Saía pra comprar pão e não voltava. A Lia me encontrava um dia depois drogada e bêbada e me arrastava pra casa. Quando ela ameaçou me expulsar, procurei tratamento médico pelo governo e passei a tomar remédios. Funcionou. 

Em 2003, a Lia foi abandonada pelo marido. Pra piorar, ela estava com síndrome do pânico. Aí, foi minha vez de ajudar. Consegui um emprego como cozinheira numa churrascaria. Lá, aprendi a fazer “frango atropelado”, um prato de frango desossado na brasa com arroz, batata frita, farofa de ovos e molho. Eu era muito elogiada pela comida e alguns clientes diziam para eu abrir um negócio. 

Um dia, o patrão me demitiu e pagou o que me devia. Comprei barraca, churrasqueira e três frangos, que congelei. Gastei uns R$ 300. Queria vender o frango na rua, mas não consegui a licença da prefeitura. Por isso, procurei o Eduardo, dono de um lava rápido que já conhecia meus dotes culinários, e perguntei se poderia colocar minha barraca no negócio dele nas noites dos finais de semana. Ele topou! 

Passei a vender PF de frango no lava-rápido 

Comecei a vender meu frango em janeiro de 2009. No começo, o negócio não engrenou. As pessoas não sabiam o que era frango atropelado e algumas tinham preconceito. Afinal, eu estava bem ao lado da pista... Pra melhorar o movimento, passei a ficar na porta do lava-rápido e a chamar as pessoas para provarem minha comida. Convencia alguns clientes, que comiam, adoravam e falavam de mim aos amigos. A clientela cresceu. 

De sexta e sábado, vendia cerca de 100 quentinhas de frango atropelado por R$ 5. Faturava R$ 500 em dois dias! Comprei algumas mesas velhas de ferro para os clientes comerem ali mesmo. Também passei a servir alcatra atropelada e a Lia virou caixa da barraca. 

Acabei alugando um ponto com ajuda da dona de um supermercado, que topou ser minha fiadora porque adorava meu frango. Ela ainda me emprestou mesas, forno e fogão! Inaugurei o “Frango Atropelado da Rose” em novembro de 2010. Foi um sonho. No dia da abertura, amigos me levaram copos, pratos, panelas, talheres... Como chorei. Para alguém que já tinha sido invisível na rua, ser amada assim era importante demais. 


Lucro R$ 3 mil por mês com meu restaurante! 

Passei por algumas dificuldades no começo porque precisava reinvestir o dinheiro que ganhava, mas me estabeleci. Hoje, vendo porco, vaca e até peixe atropelado! Além da quentinha, tenho self-service e serviço à la carte. A Lia continua como caixa e garçonete e quem banca nossa casa sou eu. Meu lucro é de R$ 3 mil por mês! Agora, consigo pagar uma casa grande de frente para o mar e tenho um quarto só pra mim. Compro as roupas que quero e, melhor que tudo, tomo dois banhos por dia! Voltei a ter contato com minhas filhas e, com a Lia e a Monique, minha família cresceu. Serei eternamente grata a Deus e às pessoas que me ajudaram a sair do lixo e, mais que isso, mostro a elas todo dia que o apoio que me deram não foi em vão. - ROSE MARIE SUMÉRIO MAGALHÃES, 50 anos, autônoma, Saquarema, RJ

“Comecei ajudando a Rose e hoje é ela que me ajuda!”

“Quando conheci a Rose, ela era uma mendiga e estava suja e magra por causa da droga. Mas Deus tocou meu coração e pediu que eu a ajudasse. Além desse chamado, era estranho ver a paixão maluca que a Monique, com apenas 7 anos, tinha por ela. Minha fi lha não dormia sem ouvir a Rose soltar a voz no videoquê primeiro. Quando conversei com ela pela primeira vez, senti que era uma pessoa boa. Por isso, tive fé e decidi ajudá-la. Mas não foi fácil. Na época, meus pais e irmãos acharam um absurdo. ‘Como você vai colocar uma moradora de rua que nem conhece dentro da sua casa?’, diziam. Todos ficaram contra mim. Mas meu coração dizia para insistir naquilo e decidi segui-lo. Quando o Vitor me deixou, a Rose permaneceu ao meu lado me dando forças em todos os momentos. Ela chegou até a dar banho no meu pai quando ele ficou doente. É... O mundo dá voltas mesmo. Hoje, os papéis se inverteram. É a Rose que nos ajuda. Ela passou de vilã para heroína da família. Graças ao restaurante de frango atropelado, temos uma vida digna e não passamos necessidade. A Rose vive dizendo que sou o anjo da guarda dela, mas acho que é o contrário. Se é verdade que uma mão lava a outra, espero viver bastante, porque tenho muita água e sabão para gastar!” - LIA SALLES, 56 anos, caixa, a amiga da Rose


Como vender comida na rua sem licença da prefeitura:

Segundo Germana Magalhães, coordenadora de Alimentação Fora do Lar do Sebrae Nacional, colocar a barraca de comida dentro do espaço de um estabelecimento privado é uma saída para quem não consegue a Licença de Uso de Espaço Público, o aval da prefeitura para vender comes na rua. Mas é preciso ficar atento às leis, que mudam de cidade para cidade. “Quando você se junta a um comerciante numa propriedade particular, é preciso ficar de olho no alvará do negócio. O lava-rápido da Rose, por exemplo, já vendia produtos alimentícios. Nesse caso, o comércio precisa ter permissão de funcionamento para as duas coisas: a função original e a venda de alimentos”, alerta Magalhães. 

Outras saídas são os eventos alimentícios em espaços privados, como estacionamentos. “Basta ser cadastrado como MEI (Microempreendedor Individual) e que o local tenha um alvará para eventos.” O mesmo vale para vender comida dentro de casa. “É necessário ser MEI. Caso contrário, a pessoa estará trabalhando na ilegalidade”, afirma a especialista.

Faça o frango atropelado da Rose!

Ingredientes
✓ 1 frango inteiro
✓ 1 embalagem de molho de tomate
✓ ½ cebola
✓ 2 dentes de alho
✓ ½ copo americano de vinagre
✓ 1 colher (sopa) de orégano
✓ Sal a gosto 


Modo de preparo
No liquidificador, bata todos os ingredientes menos o frango, até obter uma pasta. Desosse o frango, passe o tempero em toda a superfície e asse na brasa. Depois de 30 a 40 minutos, retire do fogo. Coloque sobre uma tábua e, com uma faca, faça cortes rápidos, sem se preocupar com o tamanho dos pedaços, e sirva. Dica: dá para servir o frango acebolado como petisco, montar um PF com arroz, batata frita, farofa e vinagrete ou colocá-lo para viagem sozinho para quem quer comprar e levar para casa!






13/11/2015 - 09:30

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