"Faturo R$ 5 mil por mês com cuscuz"

Eliana desenvolveu marmitinhas fofas que ela vende muito nas feiras e em festas. Já lucrou R$ 1 mil num só dia!

Reportagem: Christiane Oliveira / Foto: Alexandre Battibugli

ELIANA FAGUNDES MATHEUS | <i>Crédito: Alexandre Battibugli
ELIANA FAGUNDES MATHEUS | Crédito: Alexandre Battibugli
Quando sentia o cheiro de cebola e louro fritando no alho, já sabia que minha mãe estava cozinhando cuscuz. O aroma se alastrava pela casa toda e me deixava com água na boca. A receita de mamãe sempre virava o centro de qualquer refeição. Era de comer de joelhos! Todo Natal, dona Marita era intimada a levar 2 kg do prato para a ceia e ele era o primeiro a acabar. Depois que minha mãe morreu, em 2000, a responsabilidade de preparar o cuscuz passou para mim, algo que recebi como uma honra. O que eu não esperava era que essa comida típica de São Paulo se tornaria minha principal fonte de renda. Hoje, entre idas e vindas, já faturo R$ 5 mil! 

O prato é herança de mamãe e uma tradição da minha família 

O segredo do cuscuz de mamãe é o tempero. Além dos tradicionais camarão, ervilha, azeitona verde e palmito, ela sempre usou manjericão fresco e folha de louro. Essas ervas são pouco usadas no preparo do prato e exalam um aroma delicioso. Além disso, a massa era leve e derretia na boca! Foi um desafio e tanto representar Marita nas ceias natalinas, mas aprendi com a melhor. 

Quando me lancei à tarefa, modifiquei algumas coisas na receita original. Em vez de usar molho de tomate pronto como minha mãe, passei a fazer um caseiro. Também troquei o óleo por azeite. O resultado ficou incrível e agradou a família toda! Além de receber elogios e alegrar os parentes, esse era um jeito de sentir que minha mãe continuava entre nós. Por isso, tenho mantido a tradição todos esses anos. 

A ideia de transformar o cuscuz em fonte de renda só veio em 2012, quando um parente sugeriu que eu começasse a vender o prato. Mas, como sou professora de inglês e sempre trabalhei, não levei aquilo muito a sério. Só que, desde então, tanta gente ficou na minha orelha falando a mesma coisa que passei a considerar. Até que, na Páscoa daquele ano, vendo todo mundo preparar as mesmas receitas de sempre, fiz um post no Facebook indicando um cuscuz para alegrar o almoço. Foi uma brincadeira, mas uma hora depois eu havia recebido uma encomenda. Um primo de segundo grau, o Fernando, pediu uma receita de 2 kg, na qual gastei R$ 50 e cobrei R$ 80! 

A venda deixou meu filho Rafael, que é publicitário, tão animado que ele resolveu criar uma marca para mim. Ele bolou a Tradicional Paulista e fez um logo bem bonito. Aí, criou uma conta no Facebook e publicou fotos bacanas do prato. Meus primeiros clientes foram amigos e parentes, que encomendavam o cuscuz para almoços e jantares especiais. Eles falavam de mim para as visitas, que se encantavam com o prato e, logo, comecei a receber pedidos de desconhecidos. O boca a boca foi o que mais atraiu clientes, mas ter uma boa página no Facebook também é importante. Como ela é bem feita e profissional, as pessoas tendem a confiar mais na qualidade do produto e se sentem mais seguras na hora da compra. 

Inovei nos sabores e bolei uma marmitinha fofa que é sucesso! 

Como fiquei um tempo presa à receita de mamãe, comecei vendendo cuscuz num único peso: 2 kg. Só que nem sempre as pessoas querem tudo isso. Comecei a testar variações quando um cliente pediu um cuscuz de 1 kg, que entrou para o cardápio junto da versão de 500 g. Outra coisa que incrementei foi a lista de sabores. Assim, não apenas agradaria mais gente como não ficaria refém do preço do camarão, que é bem alto. Incluí frango (com ervilha, salsão e azeitona verde), carne seca (com milho e azeitona preta), sardinha (com azeitona verde, palmito e ervilha), legumes (com abobrinha, vagem, cenoura, salsão, azeitona verde e palmito) e mix de cogumelos shitake, shimeji e paris (com alho-poró e shoyu). 

A maior sacada foi preparar receitas individuais de cuscuz, com 70 g cada. Comecei a fazê-las ainda em 2012 e a vendê- -las em marmitinhas de alumínio cobertas com chita, um tecido bem florido e tipicamente brasileiro, como o cuscuz paulista. Ficou um mimo! Participei de uma feira gastronômica em São Paulo em 2013 na qual levei vários sabores na marmita e fiz o maior sucesso. Investi R$ 2.500 na inscrição porque queria divulgar minha marca e lucrei R$ 1.000 num único dia! A melhor parte é que divulguei minha marca e conquistei clientes novos, que foram aumentando minha renda ao longo dos meses. 

Estou sempre em feiras e eventos. Já lucrei R$ 1 mil num único dia! 

Problemas pessoais me obrigaram a ficar afastada da cozinha em 2014, mas voltei com pique dobrado em 2015. Isso interrompeu meu crescimento, mas só temporariamente. Passei a focar em eventos e festas para ter um maior volume de pedidos e deu certo. O Rafael comprou madeira, rodinhas e outros materiais para construir um carrinho simples. Dessa forma, eu poderia expor meu cuscuz em qualquer lugar da cidade! Custou R$ 250 e, com ele, lucrei mais R$ 1.000 na primeira feirinha. 

Hoje, tenho quatro tamanhos de cuscuz: mini, pequeno, grande e festa. O preço varia entre R$ 4 e R$ 110 e o que mais sai é o de camarão. Minhas vendas bombam em época de Natal e Festa Junina, mas esse é um prato que agrada em qualquer época do ano. Como o custo de preparo é elevado e a inflação está pegando, os R$ 5 mil de faturamento me deixam com R$ 2 mil de lucro. Esse é um dinheiro que conquisto sorrindo, porque adoro cozinhar! Além disso, mantenho a memória de minha mãe viva a cada cliente que fica satisfeito. 

Meu objetivo agora é formalizar meu negócio. Pretendo me tornar MEI (Microempreendedora Individual) ano que vem. Assim, poderei comprar ingredientes no atacado por menos. O preço do camarão fresco acaba comigo! Também vou parar de dar aula todo dia para focar no cuscuz, um trabalho realmente prazeroso. Ainda que eu esteja na ativa tarde da noite e aos finais de semana, me sinto recompensada. Agora, minha casa exala o cheirinho bom da cebola e do louro todo dia... - ELIANA FAGUNDES MATHEUS, 59 anos, professora, São Paulo, SP

Meu cuscuz de camarão (rende 1 kg)

Ingredientes
✓ 1 cebola média picada
✓ 6 dentes de alho picados
✓ 6 tomates italianos sem pele
✓ ½ xícara (chá) de azeite
✓ Manjericão e salsinha a gosto
✓ 250 g de camarões médios temperados com sal e pimenta-do-reino
✓ 1 lata de ervilha
✓ 1 xícara (chá) de azeitona verde
✓ 2 xícaras (chá) de palmito picado
✓ 1 xícara (chá) de farinha de milho
✓ 1 folha de louro
✓ Sal a gosto
✓ 1 ovo batido 

Modo de preparo
Bata os tomates no liquidificador até obter a consistência de molho. Numa panela, aqueça o azeite, frite o alho, a cebola e louro. Adicione o molho e deixe apurar por 10 minutos ou até ficar um pouco mais grossinho. Acrescente o sal, o manjericão e a salsinha. Em seguida, junte o palmito, a azeitona, o camarão e a ervilha. Deixe cozinhar por uns 3 minutos ou até o camarão ficar rosado. Jogue o ovo batido e misture. Adicione a farinha de milho aos poucos até chegar ao ponto de desgrudar da panela (use mais do que uma xícara se necessário). Coloque numa fôrma de alumínio com um furo no meio e desenforme o cuscuz frio. 

Dica
Na hora de vender, se o cliente quiser comer quente, fale para colocar no micro-ondas por 1 minuto ou levar ao forno por 10 minutos.

08/01/2016 - 12:00

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