"Faço comida na casa dos outros e ganho R$ 6 mil"

Esse é um negócio da China: não exige aluguel de ponto nem investimento pra começar. É o cliente quem banca os ingredientes e a conta de gás! O segredo: ser confiável

Reportagem: Christiane Oliveira

Thelma Soldaini | <i>Crédito: ROGÉRIO PALLATTA
Thelma Soldaini | Crédito: ROGÉRIO PALLATTA
Herdei da minha vó a paixão por cozinhar e o posto de chef oficial da família. Tanto que, mesmo sendo formada em design de interiores, sempre vendi doces e salgados para complementar minha renda. Isso me deu uma folguinha nas contas durante anos, mas nada como o lucro que tenho hoje. Em 2009, descobri uma tendência gastronômica cada vez mais forte nas cidades grandes, onde as pessoas trabalham tanto que não têm tempo para perder em frente ao fogão. Foi aí que virei cozinheira em domicílio. Esse negócio deu uma guinada na minha vida. E a melhor parte é que não precisei investir nenhum centavo para começar!

Trabalhava num escritório com salário de R$ 800...

Li sobre o assunto pela primeira vez numa revista, como talvez você esteja fazendo agora. Na época, ganhava apenas R$ 800 como operadora de cobranças num escritório e, apesar de ter quase 60 anos, acordava às 4h30 e precisava pegar metrô e ônibus para chegar ao serviço – e olha que meu expediente começava só às 8 h. Ninguém merece. A reportagem dizia que, nesse tipo de negócio, a cozinheira entra com opções de cardápio e experiência na cozinha enquanto o cliente compra os ingredientes e banca o gás e a energia que eu gastar, além de me pagar uma diária de cerca de R$ 200 pra passar o dia no fogão. Era uma oportunidade e tanto!

Essa ideia pode até parecer absurda pra quem cozinha. Eu mesma não pagaria para alguém preparar minha comida da semana. Mas, para o meu público-alvo, isso é importante. Quem contrata uma cozinheira em domicílio geralmente trabalha fora, tem dias agitados e um pouco de dinheiro pra gastar com essas coisas. São pessoas de classe média alta que querem a comodidade de chegar em casa e ter a janta feita e, ao mesmo tempo, preferem algo saudável e benfeito, em vez de pedir delivery num fast-food. Como eu já pegava encomendas para gente assim, resolvi fazer alguns cartões anunciando meu novo serviço para entregar com os doces e comentei com os colegas do escritório. Não custava tentar.

Me dividi entre a cozinha e o emprego por dois anos

Foi o boca a boca que trouxe meu primeiro cliente, o Thiago. Ele era solteiro, trabalhava fora e morava sozinho. Por isso, não tinha tempo de cozinhar. O Thiago me ligou e, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente te, não tive medo de ir até sua casa. Esse tipo de trabalho envolve muita confiança, já que a gente fica o dia todo na casa de estranhos, por isso é sempre bom trabalhar com indicações. Nessa ocasião, o Thiago me falou um pouco sobre as comidas de que gostava para eu montar o cardápio e preparei sete pratos diferentes para que ele tivesse comida para, pelo menos, uma semana. Sempre dura mais. Cobrei R$ 180 e me diverti caçando os materiais de que precisava na cozinha dele.

O Thiago me indicou para uma pessoa, que me recomendou para um terceiro e por aí foi. Eram quatro clientes, que eu visitava uma vez a cada 20 dias. Ia direto do trabalho para a casa de alguém quase todo dia. Levei a cozinha em domicílio como complemento de renda até 2011 e confesso que a dupla jornada era bem cansativa. Naquele ano, meu filho me fez uma oferta para me dar mais qualidade de vida e investir no meu talento culinário. Ele disse que faria um site pra mim e, se o negócio desse certo, eu deveria largar meu emprego para me dedicar exclusivamente à cozinha. Só assim ganharia mais. Lembro que fiquei insegura na hora, mas topei. Aí, escolhemos um nome óbvio para que as pessoas encontrassem o site facilmente: Cozinheira em Casa. Ele bombou!


Caprichei no site e nas fotos de comida. Bombei!

Olha, meu filho realmente caprichou no site e isso ajudou muito. Não era apenas um blog com fotos caseiras. Era uma página bem bonita, com cara de profissional. Afinal, estava mirando num público exigente que não se impressiona com qualquer coisa. Por isso, também produzimos umas fotos lindas de alguns pratos que preparo, com fundo branco, pratos bonitos e decoração especial. Ficou show! O Facebook também recebeu tratamento especial e imagens bonitas. Na internet, a foto tem que fazer o cliente salivar! Com tudo isso, passei a receber tantos e-mails e ligações que precisei largar meu emprego no escritório em 2012.

Desde então, trabalho só na cozinha dos outros. Logo no primeiro contato que o cliente faz comigo, pergunto sobre comidas preferidas, temperos de que gosta e não gosta e se a pessoa está de dieta ou segue um cardápio específico.

Aí, faço algumas sugestões de cardápio, que vão desde o trivial – arroz, feijão, salada, bife, carne de panela, verduras, legumes e molhos – até o mais elaborado – tortas, quiches, quibes de bandeja, kafta, cuscuz etc. Também incluo pratos diferentes no menu caso o cliente queira algo específico, mas a maioria pede o bom e velho arroz com feijão. Ofereço três pacotes: o de sete refeições sai por R$ 260, o de oito por R$ 280 e o de dez por R$ 320. É um trabalho árduo, ainda mais quando a família é grande. Tem dia que vou das 7 h às 19 h...

Faço o que amo e tenho mais qualidade de vida!

Hoje, tenho 15 clientes que chegaram pelo site. Vou à casa de cada um umas duas vezes por mês e já conheço a cozinha deles como a palma da minha mão. Como as refeições que preparo são congeladas, eles me deixam potinhos de vidro e o freezer vazio. É sempre muito importante saber quantas bocas comem na casa, porque passo uma lista de compras para os clientes abastecerem a despensa com a quantidade certa de ingredientes. Só trabalho com luvas, toucas e avental por higiene. Minhas unhas estão sempre cortadas e limpas e minha aparência é muito bem cuidada.


Além das refeições prontas, deixo temperos picados e salada lavada na geladeira. Deixo a cozinha um brinco antes de ir. É muita moleza! Meu tempero é muito elogiado! Tem dia que nem consigo congelar um prato porque os clientes já comem na hora. Como estou consolidada, tiro em média R$ 6 mil por mês, mas já cheguei a lucrar R$ 8 mil! Cozinho em festas e faço jantares de Ano-Novo, que sempre rendem uma grana extra porque a comida é elaborada e o número de pessoas maior.

Jamais pensei que faria tanto sucesso, mas sinto que finalmente me achei. Mesmo tendo poucos dias de folga, amo meu trabalho! Agora, meu objetivo é aumentar a clientela, porque meu próximo passo é investir em imóveis para quando não puder mais trabalhar. Por enquanto, aproveito. Já viajei pelo Brasil e visitei o Paraguai, o Uruguai e a Argentina. Não me estresso mais com dinheiro! - THELMA SOLDAINI, 64 anos, cozinheira, São Paulo, SP


Foto: Rogério Pallatta

Transmita competência e confiança aos clientes:

De acordo com o consultor de marketing do Sebrae-SP, Marcelo Sinelli, serviços em domicílio são tendência. Mas é preciso ter alguns cuidados. Veja, a seguir, as dicas do especialista: 

 Esteja bem-vestida: sua roupa deve estar limpa, bem passada e sem manchas. Evite peças provocantes e curtas. 

 Saiba conversar: evite gírias. Diga sempre “obrigada” e “bom dia”. 

 Não seja íntimo demais sem que o cliente dê liberdade. 

 Não se atrase: seja pontual e cumpra os prazos. Avise em caso de imprevistos. 

 Mostre que é confiável: tenha um registro de que você é boa no que faz e de confiança, como um site com fotos de trabalhos e depoimentos. Se possível, faça vídeos enquanto trabalha (sempre com autorização, claro). 

 Atualize suas redes: mantenha seu site e Facebook atualizados. Fique atento a erros de português e de digitação. Isso pode gerar dúvidas sobre sua competência e profissionalismo.


09/09/2015 - 09:30

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